Discografia

As cores de Nina Becker

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O telefone toca e quem atende é uma voz mansa, doce e cheia de carioquice. Trata-se de Nina Becker, a cantora que, ao lado de Thalma de Freitas, enche de charme e ritmo os bailes animados pela Orquestra Imperial. O tema da nossa conversa que viria não poderia ser outro: o lançamento de sua estreia solo. Como quem estava com sede de externar o que está guardado, seu esperado debut em disco veio em dose dupla com os gêmeos bivitelinos Azul e Vermelho (YB Music).

Bivitelinos, sim. Embora tenham sido lançados ao mesmo tempo, não se trata de um disco duplo. São independentes, com propostas, sonoridades e caminhos diferentes. “Eles foram gravados em momentos diferentes. Quando veio o Azul, não sabia que ia gravar o Vermelho. Vermelho foi gravado com a banda ao vivo em quatro dias. O Azul foi ao longo de um ano (enquanto se recuperava de uma hérnia de disco)”, explica Nina. Antes, a ideia do produtor Carlos Eduardo Miranda era gravar quatro faixas para o Myspace da cantora. Das quatro, surgiram 20, dez para cada disco. “Os discos foram feitos com o maior amor e carinho, sem prazo pra começar e acabar”.

Para os ouvidos mais atentos, as diferenças entre os discos podem ser sentidas logo nas primeiras faixas. No caso de Vermelho, todo gravado com o acompanhamento do quarteto Do Amor, a sensual e sussurrada Madrugada Branca; em Azul, a bela e ensolarada Ela adora. “Não foram discos que eu parei pensando num conceito, numa mensagem. São músicas que eu tinha à mão e outras são músicas novas”. Ainda assim, Lá e cá e Janela entraram nos dois discos por motivo especial nenhum. “Por que sei lá. Não teve nenhum critério”, pontua.

Apesar da estreia só vir agora, Nina não é uma iniciante na música. Pelo acervo do padrasto Roberto Gnatalli, maestro, professor de MPB e sobrinho do Radamés, ela conheceu as vozes de Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira e Elizeth Cardoso, entre outras. Aprendeu a tocar piano, violão e baixo, este último quando quis montar uma banda de punk rock. Entre as atividades profissionais com publicidade e como assistente de Gringo Cardia, chegou a ser backing vocal de Zeca Pagodinho. “Sempre fiz muita coisa. Tudo parecia possível, não sabia em que que ia dar”. Até então, não havia pensado num lugar onde pudesse juntar isso tudo.

E foi aí que ela conheceu, há oito anos, o time da Orquestra Imperial e ligou para um dos integrantes, o músico e amigo Kassin se convidando para fazer parte. “Falei que tinha o repertório legal. Minha grande contribuição para o grupo é o repertório. Sugeri muito, por que gosto dessa mistura que vai de Nirvana a Sérgio Malandro”, conta ela que ainda usou seus dotes de estilista pra desenhar alguns figurinos para o grupo. “Mas, o mais legal da Orquestra é a identidade de cada um. Só no carnaval que eu e a Thalma combinamos de ir igual”.

E foi no seio desta que é a maior banda brasileira – são 19 integrantes – que ela começou a dar corpo à carreira como cantora. Em 2004 começou a fazer apresentações solo, acompanhada pelo Do Amor, e as canções que agora estão em Azul e Vermelho. “Era difícil no começo. Tinha vergonha de mostrar as coisas pra pessoas. A primeira que eu mostrei foi pro Kassin”. Passada a vergonha inicial, ela adianta que já tem repertório pronto pra outro disco. Pra coroar, em 2008, a revista Bravo! Ainda citou seu nome como uma das artistas mais influentes de sua geração. “É sempre uma responsa. Eu fico muito feliz, mas fico muito tensa. Quem tem que ter uma opinião sobre isso é o público”, reflete.

Por enquanto Nina segue lentamente com seus trabalhos na Orquestra e com a carreira solo, vendo ainda onde pode chegar. “Eu to passando por essa experiência nova que é descobrir quem é o meu público”. Do que ela tem certeza é de que a primeira tiragem de Azul e Vermelho está esgotando, já partindo pra uma segunda. “A Orquestra foi uma escola pra mim. Já este trabalho é importante porque ressalta as diferenças e as minhas qualidades como artista”.