Discografia

Moska na Medida

Seis anos separam o último disco de inéditas de Paulinho Moska, Tudo novo de novo, do seu novo trabalho, o duplo Muito Pouco (Biscoito Fino). Vendidos juntos ou separadamente, os discos foram batizados com o nome da música lançada por Maria Rita no disco Segundo (2005). Tal qual suposto pelo nome, Muito traz o lado rocker de Moska. Pouco é o lado íntimo, silencioso, reflexivo, onde se destaca a voz e o violão do compositor.

Apesar destes seis anos sem disco de inéditas, Moska é figura fácil nos palcos dos amigos e se divide entre os trabalhos como fotógrafo, ator, cantor, compositor, músico e apresentador de TV. Faltou algum? “Não sou ator, cantor, músico. Sou um compositor. Compor é justamente juntar coisas com um critério. Não sei… Pra mim é tudo junto”, divaga o artista numa longa conversa por telefone onde ele contou que se atrai por projetos que o fazem salivar. “Essa salivada é a liberdade humana. O mais importante é minha curiosidade de conhecer isso tudo. É optar por criar”.

Tal salivada veio agora para o cantor e compositor na forma de 18 canções, inéditas ou não, lançadas neste Muito Pouco, que se mantém fiéis ao canto afinado e feroz, de Moska e à sua poesia lírica, íntima, acessível e rebuscada “Desejo de se comunicar através da canção. Meus discos são sempre autobiográficos. To sempre falando da vida. Quando eu sento pra compor não tenho um objetivo direto”, continua Moska. Atento à sua proposta de misturar o que pode ser misturado, sua explicação para o novo projeto passa pelo seu programa Zoombido (no Canal Brasil), pela sua descoberta da filosofia e pelo seu conhecimento sobre os assuntos mais variados. “Sou uma mosc(k)a, né? Fico voando por cima das coisas. Você sabia que o inseto mosca não escolhe o lugar de pouso antes de começar a voar? Pois é, é uma metáfora. Preciso ta voando pra saber onde vou parar”.

Muito Pouco

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Quanto à sonoridade, as diferenças entre Muito e Pouco ficam claras logo que os discos começam a tocar. Enquanto o primeiro traz uma banda completa, o segundo é cheio de silêncios e sussurros. “Muito Pouco fala do excesso e da contenção. Vivemos num mundo com excessos de desejos, violências e uma necessidade de olhar pra dentro da gente. Grito e sussurro. O equilíbrio da vida está entre o muito e o pouco”. Outra fonte de inspiração para o trabalho, principalmente para Pouco, foi a chegada de Valentim, seu filho com a atriz Larissa Bracher. Irmão do Antônio, de 13 anos, Valentim tem menos de um mês de vida e hoje dorme ouvindo o som manso de Pouco. O pequeno também já mereceu uma canção em sua homenagem: Semicoisas foi a forma do pai descrever sua ultrassonografia. “O silêncio que tem no Pouco é sim uma gestação”, explica.

Muito Pouco também chama a atenção pela lista enorme de convidados. Em Muito, Moska se acompanhou de uma longa lista de músicos que inclui o grupo meio argentino, meio uruguaio Bajofondo Tango Club no mezzo rock que dá nome ao projeto e em Ainda. Há também espaço para os companheiros do Móbile, Sacha Amback, Marcos Suzano e Dunga, e para os mestres Humberto Barros e Billy Brandão. Para Pouco a lista é diferente e inclui os brasileiros Chico César e Maria Gadu, o “americoargentino” Kevin Johansen e o argentino Pedro Aznar. “Meu trabalho tem essa relação com a América Latina. É uma conquista. Antes de marcar data em Fortaleza, já tenho data em Montevidéu e Buenos Aires. Fico feliz de ter sido uma ponte para a popularização do (cantor e compositor Jorge) Drexler aqui no Brasil. Também conheci muitos artistas através do Drexler”.

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Sem pressa e demonstrando a mesma simplicidade que apresenta nos palcos, na Tv e onde quer que esteja, Moska conta que começou a gravar Pouco quando tinha 80% do Muito já pronto, daí ele estar mais “fresco”. Nos shows, ele admite que o Pouco está ficando cada vez mais Muito. Mas, seja muito, ou seja pouco, é o mesmo Moska à frente do microfone dizendo palavras como “não adianta tentar apagar com a borracha, virar a página também não é solução. Quando uma reta no nosso desenho se encaixa, fica pra sempre uma mancha, uma linha, um borrão” (Pêndulo). Sempre em busca de um equilíbrio entre os extremos, o artista segue vagando, pendendo, voltando e criando.