Discografia

Intimidades de família

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Já faz tempo que Patrícia Marques de Azevedo faz parte da vida dos brasileiros. Quando criança, fez parte do grupo infantil Trem da Alegria, a lado de Juninho Bill e Luciano. O tempo passou, ela cresceu, mas não largou a música. Iniciou um trabalho solo ainda em 1987, apostando em sucessos pop juvenis. Gravou Bossa Nova para o mercado japonês, foi abençoada pelo produtor Nelson Motta, até que se afastou por um tempo dos palcos, casou com o músico e produtor Bruno E, tornou-se mãe. O retorno se deu em 2002, com os trabalhos eletrônicos Respirar e Patrícia Marx, lançado três anos depois.

Com uma carreira dividida entre os palcos brasileiros e europeus, Patrícia voltou no fim do ano passado com o disco Patrícia Marx & Bruno E, lançado pelo selo próprio Urubu Jazz. Com o som remetendo aos reis da soul music e do jazz, Patrícia coloca sua voz delicada em nove canções próprias, criadas ao lado de Bruno e de convidados díspares como o mestre paulistano Oswaldinho da Cuíca (Carnaval da Ilusão) e o jovem cantor e tecladista nigeriano Xantoné Blacq (que já tocou com Amy Winehouse). Fechando o pacote de 12 canções (Three short stories aparece em três versões), uma releitura de Passaredo, de Chico Buarque e Francis Hime, gravada em homenagem ao filho Arthur.

“Nós fomos buscar inspiração nos anos 1960. Richie Havens, Clube da Esquina, Chico, todo mundo dessa época”, explica Patrícia por telefone. “Tudo isso a gente escutava quando era pequeno. É uma sonoridade que não tem hoje em dia. E pensamos em resgatar o que ouvíamos na infância”. O resultado foi um som tranquilo, doce, com cara de cantiga de ninar. Até mesmo a capa do disco traz uma imagem com ares retrô, que lembra a banda Rotary Connection da cantora Minnie Riperton (Lovin’ you). “A capa já foi pensada já para encaminhar a pessoa pro som. E ela (Minnie) é uma grande referência pra esse trabalho”, confirma.

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A mudança de uma estética mais pop para um estilo mais elegante de fazer música, começou para Patrícia em 2002, com o álbum Respirar, lançado pela Trama. Em seguida veio o disco Patrícia Marx, cantado em inglês. Foi a época do nascimento de Arthur, da sua conversão ao budismo, da afirmação como compositora e de uma retomada das rédeas de sua carreira. “Essa fase foi um divisor de águas, artística e pessoal. No começo, era difícil chegar no que eu queria, comecei a compor com medo. Esse trabalho é o começo de um andar sozinha, do que eu sou, o que eu quero”. E, se a experiência como compositora foi positiva, não foi definitiva. “É bom ter o direito de poder se expressar. Me vejo inquieta com a música. Sempre quero extrapolar. Mas, acima de tudo, eu sou uma intérprete”.

Após dois trabalhos voltados para a música eletrônica, Bruno e Patrícia decidiram agora testar os sons acústicos. No documentário de 77 minutos que acompanha o disco, eles e os músicos mostram como as composições foram nascendo, principalmente a partir do violão. “A música eletrônica é minimalista. A gente quis voltar para a simplicidade da canção, dando um tempo para a música eletrônica. Esse foi um repertório que foi nascendo aos poucos”, conta Patrícia acrescentando que não dá pra separar o que cada um deu de seu para as canções. “Foi tudo a quatro mãos, até os problemas”.

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Sem ter estudado música formalmente e sem ter contado com a ajuda dos grandes medalhões que conheceu nos tempos de Trem da Alegria (“O meio é desunido”), Patrícia hoje comemora a boa repercussão de seu trabalho inclusive em palcos internacionais. “No segundo semestre, temos turnê na Europa e no Japão. Graças a Deus, eu consegui espaço nesse mercado que é difícil. Hoje, é até mais fácil tocar lá”. Na sua opinião, isso é um resultado dos novos tempos, que vieram com o crescimento da música independente. “O mercado independente está cada vez maior. A internet ta aí pra mostrar isso todos os dias. É a oportunidade de fazer o que quer, ter o controle e a autonomia do produto e da parte artística. Não to mais trabalhando do modo antigo. A maioria das coisas eu mesma resolvo”.