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“Oportunismo é falta de talento”, diz Paula Fernandes; leia entrevista com a cantora

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Do UOL

Paula Fernandes lançou seu primeiro disco há quase 16 anos, mas grande parte do país a conheceu na noite do dia 25 de dezembro passado, quando a cantora participou do especial de Roberto Carlos na praia de Copacabana. Desde então, com as crescentes especulações de um possível envolvimento amoroso com Roberto Carlos, o nome de Paula passou a figurar em todo o tipo de publicação, não só as musicais. A primeira aparição da cantora ao lado de Roberto foi em abril de 2010, quando a TV Globo exibiu o especial Emoções Sertanejas, do qual somente cantores sertanejos consagrados participaram, com exceção da novata mineira de 26 anos. No meio sertanejo, o nome de Paula Fernandes já era conhecido e cresceu nos últimos quatro anos. Em 2007, quando Victor e Leo ficaram conhecidos com Fada e Amigo Apaixonado, o CD da dupla que trazia essas músicas tinha também uma composição de Paula Fernandes, Meu Eu em Você. No ano seguinte, a faixa Sem Você, composta em parceria por Paula e Victor, foi parar nas rádios nas vozes de Victor e Leo, e logo depois, nas de Bruno e Marrone. Paula já emplacou cinco músicas em trilhas sonoras de novelas. A de maior repercussão foi a versão de Quando a Chuva Passar, de Ivete Sangalo, que se tornou tema de abertura de Escrito nas Estrelas. Queridinha de nomes respeitados, como Sérgio Reis e Renato Teixeira, Paula segue a linha de um sertanejo mais poético, semelhante ao de Teixeira, distante do sertanejo de levada pop que domina o mercado hoje. A cantora de sucessos como Pássaro de Fogo e Jeito de Mato, e cujo primeiro DVD, Ao Vivo, já vendeu quase 140 mil cópias, falou com exclusividade ao UOL, por telefone, sobre o começo da carreira, o sucesso atual e desdenhou dos boatos sobre o romance com o rei: “Não ligo pra nada do que falam”.
 
Leia abaixo a entrevista com Paula Fernandes.
 
UOL – Com a ascensão de uma nova geração de sertanejos em meados da década passada, um mercado novo se abriu e muitos se adaptaram a ele quando viram a oportunidade de fazer sucesso. Você acompanhou toda essa fase, mas seu estilo musical não mudou. Por quê?
Paula Fernandes –
Acho que todos que trabalham no meio pararam pra repensar o caminho. Eu sentei com meu produtor e a gente conversou, discutiu bastante, mas seguir a minha verdade foi o denominador comum. A escolha não foi racional, foi intuitiva, e um grande desafio. Afinal, eu sou uma mulher, com um estilo próprio num mercado dominado por homens. Não foi racional porque simplesmente essa sou eu, eu componho mesmo nessa linha. Faço outras coisas, mas minha essência são as baladas. Eu fui parar em uma gravadora como acontecia 20 anos atrás. Hoje é comum que os artistas ganhem destaque e aí as gravadoras vão atrás, e comigo não foi assim. Nós mandamos um vídeo meu e a gravadora resolveu investir naquela mulher, naquela moça cantando balada romântica.
 
UOL – Você ficou conhecida por grande parte do público no especial de fim de ano do Roberto Carlos. Poucos dias depois do show, você passou a ser apontada como nova namorada dele, o que fez seu nome ficar mais popular ainda. Como você lida com os comentários de que só conseguiu aparecer quando se envolveu em um boato com o Roberto?
Fernandes –
Na minha cabeça, isso sempre foi muito tranquilo. Eu sou assim, tento fazer meu melhor, mas sei que não vou agradar a todo mundo. Eu sabia que as pessoas iam começar a falar que eu nasci dia 25 de dezembro do ano passado, mas eu nunca dei importância. Eu estava ali no especial do Roberto por causa da minha história, de tudo que eu fiz pra chegar até aqui. Então não ligo pra nada do que falam. Uma vez ele me disse que já havia conhecido artista de talento, mas com o meu talento e com a minha personalidade, fazia muito tempo que ele não encontrava. Eu levo comigo que oportunismo é falta de talento, e eu não me incomodo com esse tipo de crítica.
 
UOL – Em algumas matérias publicadas sobre você, o termo “sertanejo” não tem sido usado para definir seu trabalho, o que passa a sensação de que muitos te colocam como um nome da MPB. Isso te agrada?
Fernandes –
Esse negócio de te rotularem é complicado. Eu sou menina criada no campo ouvindo música sertaneja no rádio. Só saí de lá mais crescida. Essa é minha origem e minha essência. A minha opinião é que o artista não deve se rotular, deixa que os outras façam isso. Como eu sou compositora também, não preciso ficar presa a um estilo, então não cabe a mim falar o que eu sou ou deixo de ser. O que eu digo com orgulho é que minha essência é sertaneja.
 
UOL – Você acha que seu sucesso pode facilitar a entrada de novas cantoras no mercado sertanejo, que é dominado por homens, ou pouca coisa parece ter mudado?
Fernandes –
Esse lance de voz feminina é complicado de tentar explicar. É questão de mercado, é rejeição de público, dificuldade em aceitar algo diferente. É importante a gente dizer que o sertanejo é um meio completamente dominado [por homens], mas é mais importante ainda ressaltar que a mulher tem conseguido mais espaço com o passar dos anos. Na nossa música, tem a própria Maria Cecília (Maria Cecília e Rodolfo), que virou a figura feminina dessa geração de universitários, tem a Dilma, primeira presidente mulher. A mulher está em todo canto fazendo coisas de qualidade. Ser reconhecida é uma questão demorada, mas cada vez mais possível. O mercado sertanejo melhorou nesse aspecto, mas ainda está longe de ser fácil.

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UOL – Você tem canções gravadas por Victor e Leo, que são seus amigos de longa data. A amizade de vocês influenciou sua carreira, já que o estilo musical de vocês é parecido?
Fernandes –
O meu encontro com eles não foi coincidência. Nós nos conhecemos 10 anos atrás na época das cabritas magras, pior do que as vacas. Eu brinco, mas foi uma época em que as coisas estavam bem difíceis pra nós três, momento marcante que a gente lembra muito até hoje. Não é por acaso que nós seguimos uma linha parecida. Essa aproximação intensa é que levou a gente a compor junto. Parceiro de composição a gente não escolhe, acontece. As pessoas veem o artista estourado e não imaginam o caminho que eles percorreram. Tenho muito orgulho da amizade com eles.

UOL – A sua atual música de trabalho, “Pra você”, é uma composição sua em parceria com o Zezé di Camargo. Como surgiu a parceria?
Fernandes –
Eu sou muito fã do Zezé, assim como sou fã de toda aquela geração dos anos 90, do Leandro e Leonardo, Gian e Giovani e todas aquelas duplas. Eu conheci o Zezé na Festa da Música em Canela, e fiquei supresa por ele já conhecer meu trabalho, alguém tinha dado meu CD pra ele e ele ouviu. Pouco tempo depois, ele subiu no palco e já me chamou pra cantar com ele. Fiquei muito feliz, e a parceria começou a nascer aí.
 
UOL – Nas suas aparições públicas, suas roupas são sempre alvo de comentários e, quase sempre, de críticas por causa do comprimento delas.
Fernandes –
Agradar a todo mundo eu sei que é impossível, falo isso sempre. O importante é estar me sentindo bem. Eu acho que a mulher tem que ser feminina sem ser vulgar, e a gente tem que valorizar o que é mais bonito. Eu sempre tive personalidade com roupa, gostava de desenhar quando pequena e dar pra minha mãe costurar. As pessoas falam, mas muita gente se identifica com as roupas curtas, com o corset e coisas do tipo. Além do mais, a questão de ser vulgar ou não é de comportamento. Uma mulher pode ser muito vulgar usando um vestido longo. A gente diz muito com a roupa também.