Discografia

Letras proibidas

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Íntegra da entrevista publicada dia 03.04no caderno Vida & Arte do Jornal O Povo

O artigo 20 da lei 10.406 diz: “Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”. Foi baseado nisso que Roberto Carlos protagonizou um dos poucos eventos polêmicos da sua vida: a interdição judicial sobre a biografia Roberto Carlos em Detalhes, lançada em dezembro de 2006 pela Editora Planeta.

O livro de 500 páginas precisou de 16 anos pra ficar pronto e de menos de cinco meses pra gerar um processo que resultou na sua retirada das prateleiras. Ainda assim ela é motivo de orgulho para o jornalista baiano Paulo César de Araújo. Jornalista, mestre em Memória Social e autor de Eu não sou cachorro, não: A música popular cafona e a ditadura militar, ele é um fã confesso do Rei desde sua infância em Vitória da Conquista. Mesmo sabendo que isso não foi reconhecido pelo ídolo, ele assume que sua admiração não diminuiu e até guarda certo orgulho por agora fazer parte da vida de um artista que sempre manteve distância de polêmicas. “Isso é problema dele, não meu. Apenas lamento. Foi ruim pra mim e mais ainda pra ele. Não interferiu na minha admiração. Esse foi o grande erro do Roberto. Quer queira, quer não, eu sou o biógrafo dele. Goste ou não”.

O POVO – Como está a situação da biografia na justiça? Alguma chance de ela voltar a ser vendida?

Paulo César de Araújo – Claro! Mais cedo ou mais tarde ele vai voltar. São muitas as histórias de livros que foram proibidos e que voltaram a ser vendidos. Ela (a biografia) pode ficar de fora um tempo, mas acaba voltando. Até por que as razões foram bem toscas. Minha advogada (Débora Steinberg) está lutando na justiça. Tem um projeto do (ministro chefe da Casa Civil) Antônio Palocci que favorece a liberação de obras embargadas. É a Lei das Biografias (Projeto de Lei 3378/08), que vai mudar o artigo 20 do Código Civil. Como a lei não tem efeito retroativo, assim que ela for aprovada, no dia seguinte ela (a advogada) reapresenta o livro.

OP – Você chegou a ter algum contato pessoal com o Roberto, mesmo em juízo, pra falar sobre o assunto?

Paulo César de Araújo – Nós ficamos frente a frente no fórum criminal em São Paulo. Foi dramático. Imagine você, eu com um ídolo na minha frente. Tentei durante 15 anos uma entrevista com ele e acabo o encontrando naquele momento. Ele foi enfático e os advogados também. Cheguei a dizer: “eu abro mão dos direitos autorais. Não quero nada”. O importante é que o livro permaneça.

OP – O Roberto Carlos alegou que havia inverdades no seu texto. Em algum momento ele foi mais específico dizendo quais seriam essas “inverdades”?

Paulo César de Araújo – Claro que não! Isso foi outro absurdo. Ele disse numa das poucas entrevistas que ele explicou sobre a proibição do livro: “em 1º lugar são muitas (as inverdades)”. Sabe o que aconteceu? Ele me processou por invasão de privacidade e uso de imagem e, no processo, não citou nenhuma inverdade. Não citou por que não acharam. Se tivesse, ele teria me processado por calúnia. Agora me diga, que privacidade? Tinha tudo na mídia.

OP – Quem leu o livro percebe claramente que, apesar da pesquisa jornalística, trata-se de um fã escrevendo. Você percebe isso? Foi proposital?

Paulo César de Araújo – Geralmente quem escreve sobre cultura, escreve sobre o que gosta. Ruy Castro escreveu Chega de Saudade e é um fã de Bossa Nova. Não sou uma exceção. João Máximo gosta de Noel Rosa. Dificilmente alguém escreve uma biografia pra derrubar um biografado. Tenho uma relação profunda com o Roberto que é desde a infância. Eu queria ter lido essa história na minha infância, mas não existiam livros sobre ele. As elites intelectuais não se preocuparam em analisar o fenômeno Roberto Carlos. Então eu quis redimensionar o fenômeno Roberto Carlos na história brasileira. Ele sempre foi tratado como menor, mas está no mesmo patamar do Chico Buarque, do Noel Rosa. Confesso que nem quis esconder que sou fã. Deixo claro logo na introdução.

OP – Qual a fase mais rica artisticamente do Roberto?

Paulo César de Araújo – A mais rica é quase um consenso. O grande período dele é o que vai de 1965 a 1971. Foi nesse período ele construiu grandes clássicos. Se ele não tivesse feito mais nada depois ainda estaríamos falando nele hoje. Essa época é determinante para o fenômeno Roberto Carlos, a que mudou o rumo dos acontecimentos. Ele teve altos e baixos, mas a grande obra está ali. O som, o modo de cantar, os temas, tudo mostra ele está antenado no que está acontecendo.

OP – E tem canções que ele parece ter abandonado. Coisas que ele nunca voltou a cantar.

Paulo César de Araújo – (A música de 1970) Maior que o meu amor é belíssima. Tem música que ele só cantou na hora que gravou. O Roberto poderia fazer um show só com músicas que ele nunca cantou em shows ou nos especiais. Quando eu tava fazendo o livro, entrevistei um músico do Roberto (Paulo não lembrou quem era), e até disse pra ele: “tenho uma proposta de show aqui que ia ser legal, só com músicas diferentes das que ele tem cantado”. O cara olhou e respondeu: “cara, ta sensacional, mas não mostra pra ele não. Vai dar muito trabalho pragente”. Guardei isso por um tempo. Se eu tivesse um encontro com ele, eu iria mostrar pra ele. Ana (também de 1970) é linda. O Roberto é uma figura obsessiva, maníaco pela repetição.

OP – Mesmo passando por polêmicas como essa do livro, filhos bastardos ou uma ausência na causa dos deficientes físicos, o Roberto não perde o protagonismo na música brasileira nem o respeito dos fãs. O que faz a carreira dele tão sólida?

Paulo César de Araújo – Ele é esse grande ídolo por conta da construção de um grande repertório. Cantores carismáticos têm vários. Excelentes cantores têm vários, como o Cauby ou o Emílio Santiago. Mas, o que faltou ao Cauby e ao Emílio que não faltou ao Roberto? Ele construiu um grande repertório de canções. É o que diferencia um, Paul McCartney, dos Beatles. Você tinha várias bandas em Liverpool, mas os Beatles foi que resistiram a esse tempo. É isso! No caso do Roberto Carlos, é a mesma coisa. E, nesse sentido, a critica errou. O Vinícius (de Moraes) dizia que Roberto era maior que o seu repertório. Mas, suas músicas atingem o letrado, o pobre, o rico, os milionários. O Chico não atende à grande massa, assim como o Odair José não atende aos mais intelectuais. Ele teve a formação da seresta, como um grande cantor. Também administrou bem a carreira, nunca brigou como ninguém – só comigo. Ele sempre tomou decisões muito sensatas, saiu da Jovem Guarda no momento certo.

OP – Mesmo sendo uma dupla alardeada e admirada, Erasmo Carlos parece, em alguns momentos, ser um subproduto da dupla. Qual a importância do Erasmo para a carreira do Roberto Carlos?

Paulo César de Araújo – Foi um encontro perfeito. A tradição do Roberto é o do romântico. Ele passou pelo rock, mas o romântico ta na infância dele. Já o Erasmo, já começou na música com o rock. Ouvindo Bill Haley, foi o rock que o pegou direito. Quando se juntaram, isso deu às baladas a medida certa. Talvez de outra forma não teria dado tão certo. Quando o Roberto começa uma música e encontra um problema, o Erasmo ta ali, dá um toque, uma ideia. É a coisa mais próxima do Lennon e McCartney que nó temos. Não tem uma dupla no Brasil como eles.

OP – E qual foi a importância da Rede Globo na carreira do Roberto Carlos?

Paulo César de Araújo – De fato, ela foi mais importante pra imagem dele. Pra carreira não teve importância. Em 1974 (ano que estreia o RC Especial), ele já estava no auge. Ou seja, a Globo não alavancou a carreira do Roberto. Acho que a TV Record tem mais relevância na história dele por conta dos festivais. Agora, a Globo tinha o monopólio da audiência e ajudou na imagem da pessoa simples, boa, simpática, minimizando tudo sobre o Roberto. Foi importante pra imagem e hoje é o maior astro do canal.

OP – O que é o mais importante no livro que você escreveu?

Paulo César de Araújo – Eu acho que é por dimensioná-lo na história da música brasileira. O Roberto muda o rumo dos acontecimentos, para o bem ou para mal, dependendo de quem vê. Pra quem é da tradição do samba, foi ruim. Pra quem é a favor da música aberta a todas as influências, foi bom. Ele foi o primeiro artista a se tornar um ícone sem cantar os ritmos tipicamente brasileiros como samba, marchinhas ou baião. Sua obra não é identificada com os ritmos nacionais, por isso ele influencia o tropicalismo. O Caetano admite isso. Todo mundo vinha surgindo, vinha pra cantar samba. Mas o grande sucesso do Roberto Carlos abriu uma frente. Djavan e Fagner estavam ouvindo quem? Ele vai influenciar toda essa geração dos anos 1970.

OP – Sua pesquisa levou 16 anos. Por onde ou por quem ela começou?

Paulo César de Araújo – Eu fiz um levantamento da bibliografia da música brasileira nos jornais, na Biblioteca Nacional e vi que tinha uma lacuna, principalmente sobre esses assuntos, os artistas conhecidos como brega e Roberto Carlos. Tinha muitos (livros) sobre sambas, marchinhas, mas nada sobre o brega ou cafona. Iniciei com uma série de entrevistas fazendo uma revisão da música brasileira. Comecei com o Tom Jobim e, em seguida, fui mergulhando no Roberto Carlos. Comecei isso em paralelo com o brega. Nunca poderia saber que eu iria escrever a biografia do Roberto Carlos. Como a obra dele é muito biográfica, ele foi me encaminhando. Tem música pra mãe, pro pai, pras esposas e isso tudo foi dito por ele em entrevistas.

OP – Você já disse que a pesquisa foi longa por que você queria que o livro saísse depois que todas as suas perguntas sobre fossem respondidas. Que perguntas por exemplo?

Paulo César de Araújo – Eu queria, por exemplo, fazer essa trajetória passando da Bossa Nova e passando pelo Tropicalismo. A passagem do Roberto pela Bossa Nova antes era uma notinha. Pra alguns, o Roberto Carlos era um bicão. Mas eu via no canto, nas letras dele uma modernidade que vem da Bossa Nova. A letra da Bossa Nova é coloquial e Mexerico da Candinha (1965) é coloquial. Ele era Bossa Nova na letra e na forma de cantar e isso não é coisa de bicão. Então eu fui entrevistar o João Gilberto, Carlos Lyra e Roberto Menescal e a grande revelação foi a história do João Donato que um dia chamou o João Gilberto e disse “João, vem ver você cantando”. O João cantava Brigas nunca mais e eu tive acesso ao caderninho que o Roberto anotava as coisas dessa época e tava lá Brigas nunca mais. O João (Gilberto) me disse “achei ele muito musical”. O primeiro discípulo de João Gilberto que o próprio João conheceu foi o Roberto Carlos. Eu coloquei o Roberto Carlos na história da Bossa Nova. Consegui encaixa-lo como um filho direto de João Gilberto. Ele não deu certo na Bossa Nova, foi um fracasso. Por sorte, ele foi pro Ie Ie Ie.

OP – Mesmo tendo proibida uma versão oficial, não é difícil achar seu livro para download gratuito na internet. Isso, de alguma forma, lhe satisfaz? Funciona com uma espécie de vingança?

Paulo César de Araújo – Eu escrevi o livro pra ser lido. Em nenhum momento me sinto derrotado. O livro foi lançado, reconhecido, vendido. Claro que fico frustrado com o que aconteceu. Ele não precisava disso. No auge da carreira, sem experimentar queda, lamento por ele ter feito isso. O livro deveria estar nas livrarias, escolas e bibliotecas. Agora imagine que coisa aberrante, em Portugal você compra a biografia e compra no cartão de crédito. E é uma livraria oficial, não é um sebo. Custa 26 euros, o preço que saiu. Não sei como eles conseguiram, quantos eles compraram. Mas isso não poderá se sustentar por muito tempo. Foi o maior erro que ele cometeu. Acontece que a proibição é apenas de vendagem. A única pessoa que não pode fazer nada com a biografia sou eu. Foram quase 50 mil cópias vendidas entre dezembro e abril. O caminhão dele parou na editora e apreendeu 11 mil livros num depósito em Santo André. Não sei o que ele vai fazer com tantas cópias.

OP – Na sua análise, o que a proibição da biografia revela sobre o próprio RC?

Paulo César de Araújo – Ela representa as contradições do homem Roberto Carlos. Limitações e contradições. Limitações por que ele não tem o hábito de ler nem o jornal. Ele vê o mundo pela televisão e claro que isso tem um preço. No caso do Roberto, a conta veio agora. Só uma pessoa sem intimidade coma leitura poderia achar que deveria existir só um livro oficial sobre um personagem. E ele acredita nisso. Imagina um livro sobre Dom Pedro I, um sobre o Getúlio Vargas. Isso é uma limitação do Roberto. Já as contradições, até comentei com ele na audiência: “você não canta a tolerância? ‘Não importa os motivos da guerra, a paz é mais importante?’. Então”. Em O progresso (1976) ele canta “Não sou contra o progresso/ Mas apelo pro bom senso/ Um erro não conserta o outro/ Isso é o que eu penso”. Ele chegou a um ponto de admiração, adoração que, isso tudo não mancha a imagem pra grande maior parte dos fãs. Tem uma parcela até que concorda, mas que também não tem intimidades com a leitura.

OP – A proibição fez você perder a admiração pelo artista Roberto Carlos?

Paulo César de Araújo – Até por compreender essas limitações e contradições, continuo ouvindo, gostando e analisando. Sou um estudioso do Roberto Carlos. Meu arquivo está atualizadíssimo. Continuo ouvindo e acompanhando. Isso é problema dele, não meu. Apenas lamento. Foi ruim pra mim e mais ainda pra ele. Não interferiu na minha admiração. Esse foi o grande erro do Roberto. Quer queira, quer não, eu sou o biógrafo dele. Goste ou não.

OP – Você já tem planos para um novo livro?

Paulo César de Araújo – Vou contar os bastidores dessa pesquisa. Tive encontros com João Gilberto, Tom Jobim, muitas tentativas com o Roberto Carlos. Tenho quase 200 entrevistas nesses 15 anos. Vou contar esses bastidores, mas ainda não tem data.