Discografia

As pérolas escondidas de Yoko Ono

Yoko Ono é a mulher mais odiada do mundo. Num primeiro momento não consigo pensar em outra pessoa para dividir com ela esta responsabilidade. O motivo não é pequeno. Afinal é sobre seus ombros estreitos que cai o peso de ter assassinado a maior banda de música pop da história, ninguém menos que os Beatles. Ao casar com John Lennon, ela passou a virar arroz de festa em todos os lugares onde o roqueiro andava. Daí se inclui reuniões de negócios e ensaios com do quarteto. Tratada como a erva daninha plantada no seio do Fab Four, ela é acusada – sem direito a apelação – de se aproveitar do coitadinho para sugar seu talento, seu prestígio e seu dinheiro.

O que ninguém está muito afim de saber é que dinheiro, prestígio e talento ela já tinha antes de dar de cara com os óculos redondos de Lennon. Adepta do experimentalismo e da viagem lisérgica, a baixinha de cabelos desgrenhados tem uma obra musical grande, curiosa (pra bem e pra mal) e desconhecida. E por que ninguém conhece? Por que ninguém quer se arriscar a ter que elogiar a mulher que acabou com os Beatles. Aí me incluam. Acontece que o produtor e pesquisador Marcelo Fróes, um beatlemaníaco incorrigível, decidiu colocar seu selo Discobertas na berlinda e lançar tributo a Yoko Ono. Mrs. Lennon reúne 16 faixas cantadas em inglês por 16 cantoras brasileiras e sai em par com o disco Mr. Lennon, relançamento do excepcional tributo Dê uma chance à paz, à carreira solo de John lançado em 2001 pelo finado selo Geléia Geral (e que será comentado na sequencia).

Para abrir os trabalhos de Mrs Lennon, a dama Cida Moreira conserva o clima soturno da faixa título acompanhada apenas do próprio piano. Ao ouvir a interpretação primorosa da cantora paulista, fica uma dúvida: por que Cida Moreira ainda é tão pouco conhecida do público? Obra malévola de Yoko?! Passemos para a próxima faixa, Who has seen the wind? com Hevelyn Costa gemendo uma bossinha tipo exportação. O curioso ao comparar as versões originais de Yoko com a deste tributo é que TODAS as cantoras brasileiras são melhores que a autora no assunto microfone. Isso não é implicância, é um talento que só adquire na base da caipirinha e da feijoada. Se não, veja Listen, the snow is falling, com o Ampslina, e Death of Samantha, com a Digitaria. A primeira banda injetou mais peso e segunda mais lisergia (onde antes figurava a guitarra chorosa de Eric Clapton. Uau!)

Why, um batidão defendido pela dupla Tetine, é uma faixa chatinha marcada pela batida eletrônica insistente. Melhor ficar com o original, onde a loucura é mais assumida. O quarteto Fuzzcas faz um blues vigoroso com Midsummer New York. Ponto para a voz de Carol Lima. Shake it all, baby! Dando continuidade, as Doidivanas fazem um surf rock old school com Sisters O Sisters, e passam a bola para Marília Barbosa & Pelv’s que seguram o peso com Move on Fast. A surpreendente Sivia Machete parece outra pessoa na monocórdica Yangyang, emoldurada pelo belo trabalho de guitarras de Alexandre Prol e Marcos Moletta.

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Voz Del Fuego repete a batidinha eletrônica em Kiss Kiss Kiss e deixa a vez para um piano estilo cabaré de Paulo Baiano e a bela voz de Mathilda Kóvak cantar Yes, I’m your angel. Isabella Taviani fica irreconhecível no bom reggae Don’t be scared, canção em que Yoko não nega a influência do marido John. A séria Luen faz bonito em I’m moving on, auxiliada por uma bela guitarra “eddievanhaleniana”. A belíssima Kátia B deixa o maridão João Barone de lado e apresenta uma versão insossa de Walking on thin ice. Angela Ro Ro soa apenas  correta em It happened antes de Zélia Duncan dá as mãos para Yoko e canta a delicada Goodbye sadness com a classe que só essa niteroiense tem. Ao fim das 16 faixas fica uma sensação estranha: teria eu que colocar meu orgulho de lado ouvir mais coisas da Yoko? Deixa a dúvida.