Discografia

O relicário de Taiguara

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Assim como é pródigo em apresentar grandes artistas, o Brasil tem por hábito esquecê-los. Não são poucos os nomes que fizeram a cabeça do público durante um período, mas que acabaram soterrados pelos modismos. Nesta longa lista de personagens está o nome de Taiguara Chalar da Silva, cantor e compositor uruguaio, que adotou o Brasil como sua terra pátria antes de completar um ano de idade. Transitando entre o romantismo e o protesto, ele foi um dos que usou sua arte para lutar contra a ditadura militar e, por conta dela, foi se afastando do público. Falecido há 15 anos, vítima de um câncer na bexiga, ele deixou para trás uma obra (hoje) pouco ouvida e que vem procurando espaço para ser redescoberta.

Assim como Chico Buarque e Caetano Veloso, seus companheiros de geração, Taiguara encontrou nos grandes festivais de música o palco perfeito para apresentar canções falando de amor ou de apreensão. Lançadas originalmente em LP, mas até então inéditas em formato digital, essas gravações acabam de ser reunidas no CD duplo Taiguara Festivais, lançado pelo selo Discobertas, do pesquisador Marcelo Fróes. São 24 faixas compiladas em ordem cronológicas e acompanhadas de texto explicativo que reconstroem o discurso de um artista que costumava se definir como “o guerreiro”.

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Taiguara foi um dos nomes mais requisitados durante os festivais. Pianista eficiente e dono de um timbre bem particular, ele tinha a medida exata para colocar verdade no que cantava. Isso poderia ser em canções próprias, como Universo no teu corpo e Hoje ou não, como A grande ausente (Chico Buarque/ Francis Hime) ou Wild world (Cat Stevens). Nesta última, uma das inéditas tiradas do seu arquivo pessoal, ele explica que, mesmo sem saber a letra, vale o registro por conta de mensagem sobre um “mundo selvagem”. O mesmo ele diz para apresentar O Medo, ousando falar em “sonhos livres”, “morcegos de metal” e “medo do real”.

De sua porção mais lírica, a dramática Nada sei de eterno (Aldir Blanc/ Silvio da Silva Jr.), aparece na versão original de estúdio e em mais duas ao vivo, gravadas nas eliminatórias do segundo Festival Universitário de Música Popular Brasileira (1969). Também aparece em duas versões a sincopada Flor, Manequim, depois mulher (Taiguara), uma crítica às “pegadinhas” do mundo da moda, apresentada no Maracanãzinho, durante o VI festival Internacional da Canção em 1969.

Essa postura combativa rendeu a Taiguara um carimbo constante da censura. Grande admirador de Luis Carlos Prestes, a quem dedicou a música Cavaleiro da Esperança (registrada em sue último disco, Brasil Afri), ele não perdia uma oportunidade de falar, criticar e expor seus pensamentos. Como não poderia deixar de ser, foi mais um dos que se viu obrigado a deixar o País enquadrado na lei de segurança nacional.

Após ter mais de 40 músicas vetadas, se exilou em 1973 e só voltou 13 anos depois, já sem conseguir o sucesso de antes. Enquanto esteve fora, passou por Londres, Paris, Tanzânia e Etiópia. Até tentou lançar discos no Brasil, mas estes nem chegavam à prateleiras e já eram proibidos. Nunca chegou ao ostracismo, mas diminuiu as gravações e passou a se dedicar mais aos shows, muito deles em Fortaleza. Ainda assim, nada o impedia de engatar uma militância atrás da outra. Em 1989, chegou a protagonizar uma richa com Fagner, por que o cearense não aderiu à campanha por Brizola.

Homenagem feminina

Além de Taiguara Festivais, outro disco vem relembrando as composições do uruguaio. Como parte do primeiro pacote de discos da gravadora Jóia Moderna, do DJ Zé Pedro, o tributo A voz da mulher na obra de Taiguara arregimenta um time de artistas femininas para interpretar 14 das suas canções. As convidadas vão das veteranas Claudette Soares (Romina e Juliano) e Célia (Mudou), até a estreante Aretha Marcos (filha de Antonio Marcos, em Que as crianças cantem livres). Com produção do maestro Thiago Marques Luiz, o tributo conta ainda com as presenças de Cida Moreira (Viagem), Evinha (Luzes) e, como bônus, Teresa Cristina (Modinha), entre outras. Uma bela e justa homenagem a um artista fundamental da nossa história, mas que se perdeu na memória fugidia do povo brasileiro.