Discografia

Alvoroço mostra outros lados de Leny Andrade

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Pra abrir e batizar seu disco lançado em 1973 pela Odeon, Leny Andrade escolheu Alvoroço, um samba de roda costurada por flautas e teclados elétricos chamado Alvoroço. A primeira frase do disco já anuncia o que vem pela frente. “Quando a morena chegou alvoroço pintou”. Cantora fortemente ligada à Bossa Nova e ao jazz, ela se permitiu sair do seu círculo habitual para provar outros caminhos e possibilidades dentro do próprio canto. O momento era propício. Além de estar próxima de trocar de gravadora, a Bossa já não andava mais tão nova. O resultado desta aventura então é bem acima do que se poderia esperar e Alvoroço acabou se tornando um dos clássicos cults dentro da discografia de Leny, e acaba de ganhar uma oportuna reedição para a gravadora Joia Moderna. O comentário mais comum é “nem parece a Leny”. De fato, o que primeiro se observa é um canto direto, sem os improvisos e scats típicos do jazz e da cantora. Pra completar, um time de arranjadores de primeira linha foi convidado para desenhar um repertório que passa longe da Bossa Nova, do jazz e do óbvio. Por exemplo, bem longe do estilo de Leny, Fagner e Belchior ganham uma regravação de Moto 1. Apenas um ano depois de Elis Regina ter feito de Mucuripe um clássico do próprio repertório, a dupla cearense volta com uma leitura meio blues, meio sambarock desta música que, sete anos depois, estaria no disco de estreia de Fagner. Também em início de carreira, Ivan Lins tem apresentada Não tem perdão, um samba estilo Alcione versando sobre dar a volta por cima depois do fim. O arranjo desta última ficou por conta do grande Arthur Verocai, um dos nomes mais modernos da época (e de hoje). Uma curiosidade do disco fica por conta de Bolero, composta a cinco mãos por Wagner Tiso, Roberto da Silva, Tavito, Luiz Alves e Milton Nascimento. Praticamente inédita, a canção foi gravada no disco Matança do Porco, de um esquecido Som Imaginário, curiosamente, do mesmo ano que saiu Alvoroço. Outros dois momentos sublimes, por motivos diferentes, são Pingos de Sol e O Lôbo na estepe. Enquanto a primeira é música pra sorrir, tomar uma água de coco e ver o lado bom da vida, a segunda exige introspecção e algo mais forte na goela. Não adianta talvez seja a faixa menos parecida com qualquer coisa que Leny já tenha gravado na vida. Tangenciando a discoteca, a canção é pontuada por percussão e violinos e dá passagem pro sambão Partido Rico, de João Nogueira e Paulo cesár Pinheiro, que tem como mote as delícias do conforto financeiro, citando Sérgio Dourado e Chico Buarque como dois adeptos deste estilo de vida. Encerrando com duas canções de clima mais pesaroso, Alvoroço confirma Leny Andrade como a grande dama da música brasileira que sempre foi e vai continuar sendo. Seja na seara que for.