Discografia

Chico César grava Aos Vivos em DVD

16 após estrear com o disco Aos Vivos, o cantor e compositor Chico César resolveu voltar àquele repertório e gravá-lo em DVD. O novo registro aconteceu neste último fim de semana no Teatro Fecap e contou com a participação do músico Dani Black no violão e vocais. O disco Aos Vivos marcou a história do paraibano por mostrar suas composições de forma crua e íntima. Ali ele já registrava futuros hits, como Mama África, Beradêro, Templo e À primeira vista, e recebia as presenças de Lenine e Lanny Gordin. O DVD da apresentação vai ser lançado pelo Canal Brasil. Veja a seguir o que Chico César escreveu sobre o trabalho:

A Gravação do DVD, por Chico César 

“Aos Vivos” é meu primeiro CD, gravado ao vivo com voz e violão, lançado 16 anos atrás pela gravadora Velas (de Ivan Lins e Vitor Martins). Agora faço o DVD desse álbum que me mostrou primeiro à cena alternativa de São Paulo e, alado, voou Brasil adentro e mundo a fora. O disco foi gravado em três noites do outono de 1994 na Funarte da Alameda Nothmann, em Sampa, onde já vivia há nove anos. O lançamento foi só no ano seguinte, 1995. Para o DVD, de novo o centro de Sampa: o Teatro FECAP, na Liberdade, nos dias 2, 3 e 4 de setembro.

Dani Black é meu convidado no DVD. Ele vai participar de algumas músicas tocando violão, guitarra e fazendo vocais. Mais ou menos a mesma coisa que no disco fizeram Lenine e Lanny Gordin. Dani cresceu ouvindo o “Aos Vivos” e eu fui seu baby sitter e de sua irmã Patrícia inúmeras vezes quando seus pais, meus parceiros Arnaldo Black e Tetê Espíndola, saíam para ir ao cinema ou visitar amigos.

Egídio Conde, do Audiomobile, é um dos principais responsáveis pela existência do CD “Aos Vivos”. Nos conhecíamos do Festival de Avaré desde 1991 e, ao procurá-lo para que me cedesse seu estúdio para gravar vozes e violões em um material que estava preparando com André Abujamra na produção do que deveria ter sido meu primeiro disco, ele me aconselhou a fazer um disco ao vivo e colocou à disposição seu equipamento, sua sensibilidade e seu tempo para o projeto. “Ao vivo, no palco, não tem pra ninguém. É você onde a força de sua música aparece. É onde você é o cara”, me encorajou.

Lenine veio de ônibus noturno do Rio de Janeiro, acho que pagando do próprio bolso a passagem, e ficou hospedado na sala do caótico apartamento que eu dividia com Zeca Baleiro na Heitor Penteado, em cima da Padaria Ceará, onde tínhamos umas compreensivas “penduras”. Alan Gordin, pai do Lanny, liberou o legendário guitarrista de tocar em sua boate Stardust nessas três noites já que ele ganharia um pouco mais tocando comigo. As refeições fazíamos na musicasa de Tata Fernandes, Nina Blauth e Míriam Maria, em que Itamar Assumpção (meu parceiro em “Dúvida Cruel”, que está no disco) observava com divertida cautela o assédio de nossa fauna às suas orquídeas. Na produção, Elaine Marin e Esther Vasconcelos.

Gravei o disco com um violão takamini emprestado de Edson Natale, que mais na frente até tentaria (e fracassaríamos) me ajudar a vender bônus para prensar o disco às próprias custas. Na platéia: Ná Ozetti, Suzana Sales, Vânia Bastos, Vange Milliet, Virgínia Rosa, Gigi Trujilo, todas as Orquídeas do Brasil, Tetê Espíndola, Carlos Careqa, Passoca, Renato Braz. Quase ninguém pagou entrada, mas também depois ninguém cobrou direitos conexos pela excelente performance do coro, que surpreendeu a Ivan Lins: “Como pode um artista desconhecido em seu primeiro disco ter tanta gente cantando na platéia?” Mistérios que só a guerrilha do underground explica: insistentes apresentações em lugares pequenos repetidas vezes para quinze, dez ou até cinco pessoas…

Egídio e eu mixamos e editamos o disco com a tv ligada sem som vendo a tediosa copa de 94, nos Estados Unidos. Vez por outra mudávamos de canal para ver algo interessante na MTV. Disco pronto, tentaram nos convencer a não lançá-lo para não desperdiçar as músicas com aquelas gravações sem arranjo, despidas. Até experimentamos colocar percussão em algumas faixas, mas não dava certo, pois o tempo oscilava.

Finalmente a Velas se decidiu e, um ano depois, veio o lançamento. Um pouco antes “Mama África” e “A Primeira Vista” saíram em uma coletânea por uma revista de áudio. Algumas rádios públicas e “adultas” começaram a tocar, algumas pessoas começaram a se perguntar: “É o Caetano Veloso? É o Gil? É um disco voador?” Era um disco voador, que ganhou vida própria e plana sem planos até hoje. Ele terminou por me levar ao mainstream e também a me defender do mainstream. Nas reuniões mais tensas em que diretores de gravadora tentavam me convencer de algo que eu realmente não faria de jeito algum, usei meu primeiro disco como escudo e argumentava: “Vocês nunca teriam me deixado gravar o disco através do qual me conheceram e que despertou o interesse por mim”.

Ah, o DVD. Também estou torcendo para que saia uma versão do áudio em vinil pois era nesse formato que eu fantasiava meu primeiro disco. O repertório: vou tocar todo o “Aos Vivos”, respeitando o espírito de certa liberdade irresponsável que há nele. É mais isso do que o compromisso de tentar fazer igualzinho ao disco. Não há como mesmo. Fiz uma noite de “Aos Vivos” numa recente Virada Cultural em São Paulo, no Teatro Municipal da cidade. Foi emocionante: de madrugada, na fila, a turma tocando e cantando todas as músicas, na seqüência.

Mas também tem o “Aos Outros”: algumas músicas que toquei naquelas três noites e que acabaram não entrando no disco (tipo “Utopia” e “Invocação”). E outras, minhas ou não, que entraram na minha vida de lá pra cá e que eu acho que tem a ver fazer agora: “Dor Elegante” (de Itamar e Leminski), “Paula e Bebeto” (Milton Nascimento/Caetano Veloso), Ilê Ayê (Paulinho Camafeu). Tocar eu toco, depois a gente vê se entra ou não. Deixa vir pra ver no que dá. Boa noite, São Paulo!