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O lado bom e o lado ruim

Por Hamilton Nogueira, jornalista (@HamiltonNog)

O auditório do Centro Cultural BNB estava lotado, no último sábado, para assistir ao show da Banda Comparsas da Vivenda. Mas essa informação, que poderia ser de contentamento, na verdade causa duas frustrações. A primeira: o auditório é pequeno, talvez comporte 50 ou 60 pessoas. A segunda: no mesmo sábado, horas mais tarde, a plateia do Forró no Sítio, seria composta de dezenas de milhares de incautos.

Esses incautos, que pela força da quantidade modelam o mercado e tornam fértil de lixo a cena musical do Ceará, raramente consomem os Comparsas da Vivenda, Katia Freitas, Lídia Maria Fulô, Breculê, Mafalda Morfina e tantos outros formados por talento, poesia, construção musical verdadeira. Raramente. Ou seja, mais frustração.

De qualquer forma, vai uma alegria: é especialmente prazeroso saber que há ilhas de qualidade na maré revolta das facilidades mercadológicas. Os e as comparsas Amanda Nogueira, Caio Castelo, Carlos Hardy, Jairo Ponte, João Paulo Peixoto, Lorena Nunes e Richell Martins. Esses heróis e heroínas, como aqueles citados lá em cima, insistem em tocar, cantar e compor bem, com sensibilidade, paixão e muito talento. Mesmo que para 60 ou 70 pessoas.

Agora vai a esperança: acredito na vitória do bem. Acho que a boa música fica e a descartável se descarta. Acho que esses heróis e heroínas serão notados pelo grande público, que em determinado momento vai cansar de gastar seu dinheiro comprando arremedo de músicos, celebridades decadentes, facilidades mercadológicas, subprodutos descartáveis, atentados à inteligência, fantoches da indústria fonográfica, entre outras definições não tão baixas quanto o segmento merece.

Quando isso acontecer, dezenas de milhares aplaudirão o figurino cuja simplicidade é a elegância, as composições influenciadas por Los Hermanos, a presença de palco dos dois grandes vocalistas Lorena e Richell, e qualidade eterna dos Comparsas da Vivenda. Quem sabe nesse momento eles já não estejam no palco do Forró no Sítio, que a essa altura deverá ser rebatizado para Arte no Sítio. Vida longa.