Discografia

Conversações com o negro gato

Nos anos 1970, uma geração de novos compositores ficou conhecida como “artistas malditos”. O motivo para o carimbo que igualava trabalhos tão díspares, era que, cada um dentro do seu universo, construiu um trabalho original, às vezes hermético e sem a menor preocupação em parecer vendável ou de fácil assimilação. Tornaram-se ídolos para intelectuais e universitários, mas um terror para as gravadoras. Nesse balaio, estavam compositores como Itamar Assumpção, Jards Macalé e o jovem Luiz Melodia.

Se o termo “maldito” soa pesado e agressivo, com o tempo acabou virando sinônimo de independência aos ditames míopes da indústria fonográfica. Por outro lado, o título nunca foi esquecido e acabou se tornando um dos assuntos mais perguntados ao longo dos 40 anos de carreira de Luiz Melodia. “Enchia o saco pela repetição. Eu não tinha nada pra falar a mais. Tem que perguntar outras coisas”, comenta o carioca sem perder a simpatia. Convidado pelo Dragão do Mar para cantar e conversar com a plateia esta noite no projeto Depoimentos, ele até já deve estar preparado para falar mais uma vez no assunto.

Com seus 60 anos (completados em 7 de janeiro deste ano) Luiz Melodia parece ter encontrado o limite exato para ser um artista comercial, sem perder de vista o caminho que escolheu pra si ainda nos anos 1970. Caminho este também seguido pelas maiores vozes brasileiras. Afinal, não é todo novato que já é apresentado para o grande público por Gal Costa e Maria Bethânia. “Tive o privilégio de ter essas duas cantando coisas minhas. Não dá pra dizer qual eu gosto mais. Se eu falar que foi a Gal, a Bethania vai ficar com raiva. E vice e versa”, admite. Elis Regina até chegou a pedir e receber canções do compositor, mas nunca gravou nem deu satisfação. “Nem lembro mais que música era essa”.

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Com a carreira influenciada tanto pelos ídolos da Jovem Guarda quanto pelas rodas de samba e choro que o pai Oswaldo Melodia proporcionava no morro de São Carlos, Rio de Janeiro, ele não nega a si próprio elogios como “genial”, “duradouro” ou “autêntico”. Não à toa, ele continua tendo uma relação carnal, inseparável com a própria arte e se orgulha de nunca ter gravado nada para cumprir ordens. “Não sei escrever e compor pra dar possibilidade a contrato. Por isso minha carreira tem os intervalos. Não quero fazer um disco só por fazer”.

Falando no assunto, seu último disco de inéditas, Retrato do artista quando coisa, já tem 10 anos. Mas Melodia já adianta que um novo trabalho já está sendo gestado, incluindo canções dos anos 1970 ainda inéditas, parcerias com seu fiel escudeiro Renato Piau (que acompanha o cantor em Fortaleza) e uma possível participação de Céu. “Quero retribuir a música que ela fez pra cantar comigo (Vira lata). Das novas cantoras, ela é a que eu mais gosto”, entrega.

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Outro projeto que ele vem trabalhando e que deve virar disco é o show Românticos do Rio, onde passeia por canções de Roberto Carlos, Sérgio Sampaio e Zé Ketti. Agora, se este show vai ser lançado antes do disco de inéditas, ele ainda não sabe. Confirmando que se sente um “menino” quando perguntado sobre a disposição para trabalhar aos 60 anos, Luiz Melodia prefere deixar que as coisas aconteçam e se modifiquem naturalmente. Assim como sua aparência, que vai de enormes dreadlocks até uma careca lisinha. “É bom você se transformar. Pra mim, não é nada premeditado. Já imaginou uma vida premeditada? Um saco”.

Serviço:

Hora: hoje (7), às 20h

Onde: Anfiteatro do Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema)

Preço: R$20 (meia) e R$40 (inteira)

Outras info.: 3488.8600