Discografia

Acertando as contas com a história

Em tempos em que a internet vem fazendo justiça com a as próprias mãos quando o assunto é jogar luzes sobre discos esquecidos, é comum você se deparar com um bootleg. Pra quem não conhece, o termo em inglês se refere a sobras de estúdio, áudios de shows e até mesmo discos gravados, mas nunca lançados. Tendo esse ineditismo como maior trunfo, muitas dessas gravações ficaram conhecidas dos internautas quando foram disponibilizadas em blogs que oferecem downloads.

É o caso, por exemplo, do disco João Gilberto na Casa do Chico Pereira, que traz o mentor da Bossa Nova em clima intimista na casa do fotógrafo da gravadora Elenco, um ano antes de lançar seu primeiro disco. Outra raridade que anda habitando os blogs é o áudio de uma apresentação de Gilberto Gil na Escola Politécnica da USP, em 1973. Recém chegado do exílio em Londres, mas já sofrendo censura por conta da gravação de Cálice, Gil canta, toca e conversa com os alunos e não esconde a apreensão ao tratar de assuntos mais espinhentos a ditadura.

Riocentro

Cheios de lendas e peso histórico, alguns desses registros acabam ganhando um lançamento oficial. É o caso dos dois discos lançados pelo selo Discobertas que resgatam o áudio das comemorações do Dia do Trabalhador de 1980 e 1981, na casa carioca Riocentro. Reunindo a fina flor da MPB, esses shows foram mais do que um momento de descontração e comemoração. Com o Brasil vivendo ainda sob a sombra da ditadura, encerrada oficialmente um ano antes, aquele era também um espaço para cobrar mudanças. Contando com o apoio de intelectuais engajados na luta democrática, os shows eram organizados por, entre outros, Chico Buarque.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=G_Ej6w9YCpA[/youtube]

O primeiro Show de 1º de Maio foi realizado em 1979, mas só no ano seguinte houve a preocupação de registrar em áudio o vídeo (pela TV Bandeirantes). Assim, o disco traz cerca de 30 mil pessoas acompanhando apresentações de Boca Livre, Alceu Valença, Milton Nascimento, Frenéticas e muitos outros. Foram quase sete horas de música e protestos, como quando o público em coro canta Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Naquela ficou certo que o show ganharia uma nova edição no ano seguinte.

O que não era possível de se imaginar é que, em 1981, uma bomba explodiria no estacionamento do Riocentro matando o sargento Guilherme do Rosário e ferindo gravemente o capitão Wilson Machado. “No meio do espetáculo, explodiram, eu disse explodiram, duas bombas. Essas duas bombas que explodiram foram mais duas tentativas de acabar com a realização desta festa que foi conseguida. Essas duas bombas representam exatamente uma luta para destruir aquilo que nós todos queremos, uma democracia. Lembrem-se muito bem disso”, anunciou Gonzaguinha, ainda sem saber que se tratava de um atentado frustrado, organizado pelas próprias vitimas da explosão para poder jogar a culpa nas organizações de esquerda.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=pkdcb89Uek8[/youtube]

Beth Carvalho, que esteve presente na ocasião, conta que era difícil ter informações corretas sobre o que havia acontecido. “Eu estava amamentando a Luana, na época, e só fui fazer o show por que tinha relação política com a data”, lembra. Ela conta que havia uma confusão estranha no ar, mas que, por conta do parto recente, Chico Buarque preferiu não assustá-la com a notícia. A sambista só soube do acontecido em casa, quando sua enfermeira gritou “dona Beth, a senhora ainda está viva?”. “Tudo era motivo pra atacar a gente, mas nunca se imaginou que eles tivessem essa audácia. Eles iam matar toda a Música Popular Brasileira”.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=L4HnePw6sDE&feature=related[/youtube]

O show gravado em 1980 chegou a ganhar edição em LP com a participação de oito artistas e com renda destinada para o Congreso Nacional das Classes Trabalhadoras e para o Encontro Nacional de Músicos. Já o de 1981, por conta da confusão, acabou virando um tesouro perdido, só agora encontrado pelo pesquisador Marcelo Fróes entre as muitas fitas do arquivo do Instituto Cravo Albin. Como é típico dos bootlegs, o som dos dois discos traz falhas e em alguns momentos é impossível entender o que está sendo dito. No entanto, pela força dos registros, revelam importantes momentos históricos que não podem ser esquecidos.