Discografia

Luiz Millan e um tributo à amizade

Entre os brasileiros que conseguiram projetar seu nome no cenário musical internacional, Mozar Terra é um nome que merece destaque. Pianista, compositor, arranjador mineiro, ele começou sua carreira na adolescência. Em mais de 30 anos, acompanhou grandes figuras como Caetano Veloso, Joyce e Emílio Santiago, tocou com instrumentistas do nível de Paulo Moura, Egberto Gismonti e Raphael Rabello e deu aulas de música na Dinamarca, Nova York e na Holanda.

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Falecido em janeiro de 2006, vítima de um câncer de pulmão, um ano antes Mozar havia conhecido o médico paulistano Luiz Millan, que já acumulava alguma experiência como compositor. Apresentados pelo amigo e também compositor Jorge Pinheiro, Millan ficou emocionado ao ouvir do pianista famoso o convite para que colocasse letra em E o palhaço chorou, melodia registrada no disco instrumental Caderno de composições. Millan passou o carnaval com essa missão. Voltaram a se encontrar para ver como ficou, mas logo na sequencia Terra adoeceu.

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A amizade durou pouco mais de um ano, mas foi o ponto de partida do disco Entre Nuvens, lançado este ano com 14 composições de Luiz Millan. Repleto de participações especiais, o disco passeia com sofisticação entre bossas, choros, valsas e traz referências de Tom Jobim, Edu Lobo e Chico Buarque. Entre os convidados, nomes importantes da cena instrumental brasileira, como Sylvinho Mazzucca (baixo), Toninho Ferragutti (acordeon), Lea Freire e Teco Cardoso (sopros). Para assumir o microfone, foi convocado um time competente, embora ainda pouco conhecido, formado por Consiglia Latorre, Tuca Fernandes, Ana Lee e Maurício Detoni.

Mesmo que o ponto de partida tenha sido a parceria com Mozar Terra, outras canções foram entrando em Entre Nuvens exibindo várias fases do compositor Luiz Millan. “Dia dos namorados é da época da faculdade e Outono fiz aos dezesseis anos, mas estava inacabada e o Michel (Freideson, produtor) fez a parte B”, lembra o compositor apontando o critério emoção como o mais importante, uma vez que cada que cada canção tem sua história.

Compondo desde os 13 ou 14 anos, Luiz Millan só começou a mostrar sua produção quando ingressou na faculdade de medicina da USP. Na época, promovia reuniões para falar arte e política, e até participou do LP coletivo Ponte de Rama. Mesmo tendo se dedicado mais à profissão de médico, nunca deixou a música de lado. Apesar de Entre Nuvens trazer apenas seu nome na capa, não deixou de ser um trabalho coletivo com a presença de amigos sugerindo sons e camadas. Quanto à amizade com Mozar Terra, ele só lamenta ter sido interrompida tão breve. “Nas poucas vezes em que nos encontramos, nos demos muito bem, demos muita risada juntos. Provavelmente teríamos uma parceria frutífera se ele não tivesse adoecido”.