Discografia

Musa de qualquer estação

A parceria entre Gal Costa e Caetano Veloso está entre as mais sólidas da história da música brasileira. Começou oficialmente há 44 anos, quando estrearam juntos com Domingo, disco influenciado pela Bossa de João Gilberto. No anos 1970, coube à baiana cantar o amigo exilado em Londres, o que acabou lhe rendendo o título de “musa da Tropicália”. De volta ao Brasil, eles dividiram com Gilberto Gil e Maria Bethania o show/disco Doces Bárbaros. Em 1995, ela o homenageou com o tributo Mina d’água do meu canto e no ano seguinte se encontraram na trilha do filme Tieta do Agreste. Foram 35 discos lançados por Gal Costa, raros os que não traziam pelo menos uma composição de Caetano.

Diante de tal histórico, ninguém melhor que Caetano para guiar Gal Costa de volta ao mercado fonográfico. Há seis anos sem um disco de inéditas (o último foi Hoje, de 2005) e há tempos longe dos palcos brasileiros, ela está de volta às prateleiras com o rejuvenescedor Recanto. Idealizado e composto por ele especialmente para ela, o disco traz a voz aguda da cantora emoldurada em batidas eletrônicas, algo inédito na obra de ambos. A produção também tem a mão certeira de Caetano, dividida com o filho Moreno, afilhado de Gal. Para aumentar o clima de “feito lá em casa”, parte dos arranjos foram entregues a Kassin, produtor musical e amigo de Moreno há décadas.

Ouvir que o disco de Gal Costa traz batidas eletrônicas gera diferentes reações no público, da aversão à curiosidade. Houve até quem comparasse com um trabalho da Lady Gaga. O fato é que, dividindo com Maria Bethania e Elis Regina a trindade divina das vozes femininas brasileiras, Maria da Graça Costa Penna Burgos foi das três a que mais ousou nos estilos, sem perder a identidade. Fazendo um sobrevoo sobre sua carreira, é possível ver uma fase bossanovista, uma roqueira, uma axé, uma carnavalesca. Assim, feito de olho no autotune (programa que “corrige imperfeições” da voz e dos instrumentos), Recanto é um risco calculado que a intérprete já estava se devendo.

Ainda assim, Recanto não deixa de soar como Gal e Caetano juntos, apesar de ser mais denso e pesado do que eles normalmente parecem. Logo na largada, Recanto Escuro impressiona pela secura e crueza. Curiosamente, o que se ouve é a primeira voz que ela colocou na canção, ainda como teste. Acabou ficando definitiva. Mas a faixa escolhida para apresentar o disco foi Neguinho, um jogo de palavras bem ao estilo do compositor, feita sobre a base criada pelo filho Zeca Veloso. No entanto é Autotune Autoerótico que resume a ideia do disco (“Não, autotune não basta pra fazer o canto andar pelos caminhos que levam à grande beleza”). Já a dançante Miami Maculelê se destaca por aproximar Gal do funk carioca e tira Caetano Veloso dos bastidores pra dividir os vocais. Como quem quer provocar o ouvinte, a faixa vem seguida por Segunda, única faixa acústica do trabalho. Semelhante a uma embolada nordestina, a faixa é construída sobre um som insistente de violão, cello, prato e faca, tudo tocado por Moreno.

Somente duas faixas de Recanto não são inéditas. A estranha e climática Madre Deus foi composta para o balé Ogontô, do grupo Corpo, e gravada em 2005 por Zé Miguel Wisnik. A outra é Mansidão, faixa lançada por Jane Duboc em dueto com Caetano, em 1982. Rearranjada com a proposta eletrônica junto com o piano de Daniel Jobim, a canção faz a ponte entre o velho e o novo e traz implícita a mensagem de que há anos a modernidade faz parte do trabalho dos baianos. A verdade é que, pra quem estava a tanto tempo longe dos holofotes, Gal Costa decidiu voltar lembrando ao público que experimentar sempre fez parte do seu trabalho. E pra isso encontrou um parceiro à altura.

Faixas:

1. Recanto escuro

2. Cara do mundo

3. Autotune autoerótico

4. Tudo dói

5. Neguinho

6. O menino

7. Madre Deus

8. Mansidão

9. Sexo e dinheiro

10. Miami maculelê

11. Segunda