Discografia

30 anos de saudade

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São Paulo acordou cinzenta naquele distante 19 de março de 1982. O Brasil acordou assim. Durante uma ligação para o namorado Samuel MacDowell, por volta das 9h30, a voz de uma das maiores cantoras da MPB foi sumindo, ficando pastosa e desarticulada. De repente um estranho silêncio e o fim. Morria Elis Regina Carvalho Costa, 36 anos, gaúcha, mãe de três filhos, reveladora de sucessos. A notícia se espalhou tão rápido que até o único irmão da cantora, Rogério, ficou sabendo pelo rádio. Do outro lado do País, em Fortaleza, as amigas Rosa Maria e Fátima, espalharam a coleção de discos pelo sofá e promoveram uma homenagem particular regada a lágrimas e melodias.

Os fãs de Elis já estavam acostumados a chorar com suas interpretações arrebatadoras. Sua morte, no entanto, era dose mais forte do que se podia esperar. “Foi um choque grande. Eu nem sabia que a cabeça dela era tão doidinha. Era como se fosse uma pessoa que convivíamos pessoalmente”, relembra Fátima Bastos, 58, que assume ainda sentir uma “dor imensa” quando lembra daquela manhã de terça-feira. “Tem algumas músicas dela que me trazem imagens na memória. Eu sempre quis ter uma casa no campo por conta da música. Ela ta viva em tudo que canta”, confirma Rosa Maria, 64.

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A sensação de ter perdido alguém de dentro de casa parece uma unanimidade entre os fãs de Elis. Algo como se teimassem em assumir que ela morreu de fato. É que sua passagem por este plano foi curta, mas suficiente para mexer com muita gente. De sua garganta poderosa, saíam as saudades do irmão do Henfil, quaquaraquaquas debochados, histórias de um coração dilacerado. Também saíram palavras duras, como as críticas que fazia às rivais Maria Bethania e Nara Leão, ou protestos contra a invasão dos roqueiros nos festivais de música. Talvez hoje, quando estaria perto dos 67 anos, esses comentários merecessem uma reavaliação.

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Isso tudo fazia parte do personagem durão que gostava de demonstrar. Quem a conheceu mais de perto, como Rita Lee, preferia dizer que ela um “doce de pimenta”. Com essa mistura de temperos, sua performance no palco era sempre explosiva. Tanto que após cada show o que mais queria era uma cama onde pudesse descansar. Ciente do que podia com a voz, Elis usava seus graves e agudos pra hipnotizar o público. “Dizem que a única coisa que me deixava quieta quando criança era ouvir Elis”, lembra a cantora cearense Lorena Nunes, 26. Mesmo sem ter assistido a diva ao vivo, ela reconhece ali uma inspiração. “Uma excelente interpretação consegue ultrapassar qualquer barreira de emoção. E o sentimento que ela consegue passar, é impossível não se identificar. Não se inspirar nela é burrice”.

Personalidade

Das primeiras apresentações nas rádios de Porto Alegre até assinar o primeiro contrato para um disco foram apenas 15 anos. Tímida de doer, sua primeira apresentação foi frustrante. Um silêncio lhe tomou conta e nenhuma palavra saía da garganta. “Canta, minha filha”, insistia a mãe em vão. Um nova chance só veio cinco anos depois. Dessa vez ela cantou e não parou mais. Com afinação perfeita e coragem de buscar o que queria, Elis conquistou espaços nunca imaginados, chegando a ser a única artista brasileira a se apresentar duas vezes no palco nobre do Olympia, em Paris.

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Se, como cantora, sua presença inspirou e continua inspirando, como ser humano não foi diferente. O olhar altivo e o jeito seguro de se expressar da Pimentinha também ajudaram a moldar uma geração de mulheres que a admirava. “Ela era uma rebelde, mas com causa. Era decidida, disposta e eu gosto muito de gente assim. Me inspirava muito a ter coragem”, admite a dona de casa Liduína Ferreira, 56. Atenta a todas o shows e apresentações, ela até usava um corte de cabelo curtinho igual ao do ídolo. “Era feito na navalha. Eu chegava pra cortar bem curto e perguntavam ‘é igual ao da Elis Regina?’. ‘É, igual’, respondia”.

Tão inesquecível foi Elis, que ainda hoje se especula o que ela estaria cantando. Ainda procuraria novos compositores, como fez com Fagner e Belchior? Estaria atenta aos nomes do pop? Talvez estivesse cantando o Brasil de Cazuza ou o Monte Castelo de Renato Russo. Em sua última entrevista, feita em 5 de janeiro de 1982, ela já se mostrava incomodada com os novos rumos da indústria fonográfica. “A prepotência ganhou outros nomes em inglês, como mershandising e marketing. As gravadoras pensam que seu produto é o disco. Sem o artista, aquilo é só uma bolacha preta com um buraco no meio”, disparou.

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Duas semanas depois, enquanto selecionava as canções do próximo disco – Caetano Veloso, Beto Guedes e Milton Nascimento já estava numa lista preliminar –, a artista encerrou seu show. Ela foi encontrada no chão do quarto inerte, naquele 19 de janeiro de 1982. No sangue corria uma combinação fatal de cocaína e álcool. “Elis era careta. No máximo ‘dava uma bola’”, tentou defender Rita Lee, sua vizinha de sítio na serra da Cantareira, falando em bom “maconhês”. Mas já era tarde. O coração da Pimentinha já não batia. Agora era o Brasil que ia sentir saudades de Elis Regina.