Discografia

Acenda o refletor, apure o tamborim

A espera está perto de chegar ao fim. É esta noite (25) e amanhã (26) que Chico Buarque apresenta em Fortaleza sua tão aguardada turnê Chico, puxada pelos elogios do disco homônimo lançado em julho de 2011 pela gravadora Biscoito Fino. Com sua já conhecida timidez, vista como um charme a mais (principalmente) pelo público feminino, ele vai subir ao palco do Siará Hall para cantar novidades – Tipo um baião e Querido diário – e relembrar momentos marcantes – Bastidores e Todo o sentimento.

Na novo show, Chico Buarque apresenta um pedaço de cada momento da carreira. Da política, porção que tanto o marcou nos Anos de Chumbo, ele leva ao palco pela primeira vez Geni e o Zeppelin. Do cinema, para onde compôs tantas trilhas, ele lembra A violeira e Baioque, respectivamente, dos filmes Para se viver um grande amor e Quando o Carnaval chegar. Para o novo romance, meio secreto, com a cantora Thaís Gulin, Chico apresenta Essa pequena. Há ainda um bloco dedicado ao seu eu feminino, sempre tão à flor da pele, com O meu amor, Teresinha e outras.

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Tem samba

Agora, se existe um pedaço da obra de Chico Buarque que não pode ficar de fora de nenhuma turnê é seu lado sambista. Ao longo dos seus mais de 40 anos de carreira, o pandeiro e o tamborim foram companheiros em vários momentos. Na nova turnê deste mangueirense de paixão, embora o som de quem não é doente do pé apareça de forma mais tímida, uma presença é capaz de transformar tudo em samba. Trata-se de percussionista e baterista Wilson das Neves.

Carioca beirando os 76 anos, Wilson é uma autoridade com mestrado e pós-doctor em samba. Iniciado nas baquetas na adolescência, ele já acompanhou boa parte da música brasileira e muitos nomes de respeito do cenário jazzista internacional. Na sua imensa lista estão Elizeth Cardoso, Sarah Vaughan, Elis Regina, Michel Legrand e muitos outros. Isso sem contar da sua comadre Elza Soares, com quem dividiu um disco inteiro lançado em 1968. Faltou alguém? “Por mim, eu tocaria com todos”, confessa o músico incansável. “Tocar bateria não cansa. Se cansasse, eu já tinha parado. O que cansa é conversa fiada, papo furado”, arremata.

Como ex-integrante das orquestras das TVs Globo, Tupi e Excelsior e da Rádio Nacional, Wilson acompanhou boa parte das estrelas que passavam por ali. Aliás, acompanhar é o que ele faz de melhor. “Sou um acompanhador. Não sou de parar pra tocar sozinho”, confirma contando como faz para saber se seu acompanhado gostou do serviço: “Nunca vi baterista no mundo tocar igual ao outro. Então, eu vou lá e faço o meu. Se ninguém reclamar, é porque ta bom”.

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Mas, além de ser um acompanhante de luxo, Das Neves tem sua própria carreira. Atualmente, ele é um dos muitos integrantes da Orquestra Imperial, onde, segundo o próprio, “cada um que chega traz uma coisa nova”. Há também alguns poucos discos com seu nome, lançados desde o fim dos 1960. De 1996, O som sagrado de Wilson das Neves foi onde se mostrou cantor pela primeira vez. E bom cantor. “Ia ser instrumental. Mas levei na (gravadora) CID com a minha voz de guia e violão, para depois ver quem ia cantar. Eles gostaram e disseram pra ficar daquele jeito. Gravei e ganhei um prêmio Sharp”. Com a experiência, ele já cantou em outros dois trabalhos, planeja mais um (Se me chamar, ô sorte, preparado em esquema colaborativo) e tirou uma lição: “Eu devo cantar melhor do que tocar, por que nunca tinha ganho prêmio nenhum antes”.

Brincadeiras à parte, foi como baterista que Wilson das Neves marcou seu nome na história da música brasileira. “Música não dá dinheiro. O trabalho é que dá. Já ganhei o suficiente pra ter onde cair vivo, já que morto a gente cai em qualquer lugar”, avalia. Ao lado da “chefia”, como chama Chico Buarque, ele está há quase 30 anos, o que só confirma sua importância, mesmo estando discreto no fundo do palco dividindo seu espaço com Chico Batera. Certo de que seus méritos ninguém vai tirar, ele prefere ser um dos melhores “acompanhantes” do Brasil e segue repetindo seu bordão: “ô sorte”.