Discografia

Em nome do pai

Por Felipe Araújo (felipearaujo@opovo.com.br)

Um negócio de filho para pai. No ano passado, o cantor Diogo Nogueira resolveu prestar uma grande homenagem musical ao sambista João Nogueira (1941-2000), que completaria 70 anos em novembro. Para isso, se uniu aos sócios do selo Musickeria e dirigiu a primeira edição do projeto Sambabook – um conjunto multimídia formato por CD, DVD, documentário e livro de partituras com a obra do autor de Espelho. As gravações foram feitas em setembro do ano passado – reunindo parceiros de João e grandes nomes da música brasileira – e o CD e DVD começaram a chegar às lojas no mês passado.

Entre os convidados das gravações, estão artistas que trabalharam e gravaram com João (como Martinho da Vila, Alcione, Beth Carvalho e a Velha Guarda da Portela), medalhões da chamada MPB (Ivan Lins, Lenine e Djavan), sambistas que dialogaram com sua obra (Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Sombrinha, Teresa Cristina e Grupo Fundo de Quintal), além de artistas de uma nova geração da música brasileira que lançam um olhar precioso sobre o trabalho do sambista (Seu Jorge, Hamilton de Holanda e Mariene de Castro).

A edição é baseada no formato dos songbooks, consagrados por Almir Chediak nos anos 90, mas voltada especificamente para compositores de samba. Além do CD e DVD (com 24 registros cada), mini-documentários com entrevistas e bastidores da gravação também farão parte das edições, além de um portal de onde será possível baixar partituras e aplicativos para telefones e tablets. Cada Sambabook terá também livros com discobiografias (que trará um fichário com 60 partituras).

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“Com o Sambabook, queremos homenagear os principais compositores e suas obras maravilhosas. Fomos pensando em CD, DVD, livro, partituras, algo parecido com os songbooks que o Almir Chediak editou. O que a gente fez foi resgatar a ideia e ampliar o formato, mantendo a proposta básica: homenagear um artista e sua obra, só que focados nos compositores do samba”, explica o empresário Afonso Carvalho, da Musickeria, um dos idealizadores do projeto. A ideia dos produtores é fazer com que o material circule em escolas públicas e particulares e também nas instituições de ensino de música.

Financiamento
Mais do que uma homenagem a um de nossos maiores sambistas, o Sambabook João Nogueira – conjunto de CD, DVD e livro de partituras com a obra do autor de Espelho – é resultado de uma estratégia de produção musical que vai se consolidando e se expandindo na indústria cultural brasileira. Um modelo em que, no vácuo deixado pelas grandes gravadoras – que têm cada vez menos capacidade de investimentos e, portanto, um radar cada vez mais pragmático para a definição de seu cast – entram em cena os departamentos culturais de grandes empresas e as produtoras “independentes”, que terceirizam a realização de projetos cujo financiamento é obtido a partir de incentivos fiscais (e também sem eles).

Natura, Oi, Vivo, Petrobras e Itaú, por exemplo, são algumas dessas corporações que estão investindo na área cultural: patrocinando shows, turnês, festivais, CDs, DVDs e outros produtos a partir de incentivos fiscais (e também sem eles). No caso do projeto em homenagem a João Nogueira, Petrobras e Itaú dividiram o patrocínio do Sambabook. Entre os projetos em andamento e que serão lançados ao longo do ano a partir desses modelos alternativos de financiamento, estão discos de artistas como Tom Zé e Tulipa Ruiz, a turnê comemorativa dos 50 anos de carreira de Milton Nascimento, dois outros Sambabooks – um com canções sobre o Rio de Janeiro e outro em homenagem a Martinho da Vila -, um show em Nova York celebrando as cinco décadas do batismo da bossa nova no Carnegie Hall, um documentário sobre a sambista paulistana Dona Inah e mais uma meia dúzia de festivais (como o Música pra todo mundo e Levada Oi Futuro)

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“É um negócio voltado para o estabelecimento de parcerias com patrocinadores, mais do que para a venda de produtos físicos, que é como se estruturaram as gravadoras”, explica o empresário Luiz Calainho, em entrevista recente ao jornal O Globo. Ao lado de Afonso Carvalho e Sérgio Baeta, Calainho é sócio da Musickeria, empresa que realizou o Sambabook em homenagem a Nogueira. “A venda é importante, mas nosso negócio não está ancorado aí. O mercado encolheu, as gravadoras se veem limitadas na hora de investir, e a conta não fecha mais no antigo modelo. Somos uma plataforma para empresas que buscam posicionar suas marcas se vinculando à cultura, a produtos artísticos de qualidade”, reforça na mesma entrevista ao O Globo.