Discografia

João Bosco 40 anos depois

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“Sempre com expectativa, sempre querendo ser surpreendido e procurando ser surpreendido. Alguém que vai fundo pra ver o que tem atrás”. É assim que o cantor, compositor e exímio violonista João Bosco define a si e ao seu trabalho. Para ele, 2012 chegou cercado de muitas comemorações. Pois foi há 40 anos que ele botou nas lojas sua primeira gravação, um disco de bolso do Pasquim intitulado O tom de Antônio Carlos Jobim e o tal de João Bosco. Era assim mesmo, cercado pelo humor do periódico e pela benção do maestro soberano que se apresentava ao público.

Para homenagear o trabalho quarentão, ele está lançando o pacote de CD e DVD 40 Anos depois. Dispensando o batido formato de disco ao vivo de sucessos, ele faz sua festa em estúdio, relendo canções variadas, desde clássicos menores até versões de coisas que há tempos ele pretendia botar sua voz e seu violão. Aliás, esses seus instrumentos de trabalho continuam tão afiados quanto naquele antigo 1972. Reconhecido mestre das seis cordas, talvez seja mesmo o violão quem esteja no centro das comemorações. “Essa é a minha ferramenta de trabalho. O tripé que me sustenta, que dá o equilíbrio. Continuo treinando diariamente”, assume o músico por telefone.

E, como toda boa festa de aniversário, 40 Anos depois também tem seus convidados. Logo na primeira faixa, é Milton Nascimento quem dá nova voz para a seminal Agnus sei, a faixa apresentada na estreia no Pasquim. Pois se o carioca de alma mineira abre as 16 faixas do disco (20 no DVD), é um autêntico carioca quem encerra. Chico Buarque realiza um desejo antigo do anfitrião ao dividir o samba Bom tempo, em homenagem ao pai de João que também é torcedor do Fluminense. Antes, Chico também comparece no samba-enredo Mestre sala dos mares, uma homenagem ao heroi da Revolta da Chibata João Cândido. Já a doce Roberta Sá, escorada no emaranhado de cordas do Trio Madeira Brasil, quem canta em De frente pro crime.

Se o samba é o compasso da carreira de João Bosco, 40 anos depois ele aparece em sotaques jazzísticos, arranjos sofisticados, realçando os instrumentos. É o caso de Plataforma, canção apresentada apenas num especial de Elis Regina para a TV. E foi justamente em homenagem à Pimentinha, que imortalizou tantas canções da dupla João Bosco e Aldir Blanc, que a faixa entrou na comemoração. Conta o compositor que, pouco antes da cantora ir ao ar para a gravação, ele chegou ao camarim para cumprimentá-la. “Tem alguma coisa nova aí?”, perguntou Elis. Ele falou de Plataforma, mostrou ao violão e, poucos momentos depois, os dois já estavam na frente das câmeras fazendo um dueto. “A Elis é e será minha melhor intérprete. Existiram outras grandes cantoras, mas Elis é uma só. Tudo que formatou aquela cantora, você não vai encontrar em outra cantora”, confessa emocionado.

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40 anos depois também abre espaço para que João homenageie seus mestres e suas influências. Tom Jobim, o padrinho da estreia, é exaltado em Fotografia, recriada com arranjo luminoso. O poeta da Vila Noel Rosa cede a tristonha Pra que mentir, refeita apenas ao violão, assim como Tudo se transformou, de Paulinho da Viola. De Milton Nascimento, ele também interpreta a instrumental Lilia e obscura Tarde. E, para ressaltar os sotaques latinos, Drume negrita, de Ernesto  Grenet, sucesso de Mercedes Sosa, ganha novo frescor e delicadeza, e concorre à melhor faixa do disco.

Escolhido para ser homenageado na 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira, que acontece hoje (13) no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, João Bosco chega aos 40 anos de carreira ainda com muito o que dizer. Recém impressionado com a urbanidade do paulista Criolo, ele continua atento aos novos sons e, mesmo quando se volta para o passado, procura o que dali ele pode reutilizar no futuro. “Acho bacana olhar o passado, o que você fez e pessoas que marcaram, e revê-lo com olhar de como você vê hoje. É outra forma e outra cor, um exercício de reflexão”, divaga.