Discografia

Tom Zé, o lixeiro da Tropicália

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Entender as palavras de Tom Zé nem é sempre é fácil. Homem de muitas leituras e performático por natureza, ele é desses que vai de Zico a Aristóteles numa frase só. Há lógica, embora nem sempre compreendida. Mas, para facilitar as coisas, ele costuma embarcar em viagens artístico/teórico/musicais chamadas de estudo, onde disseca em forma de música seu pensamento sobre assuntos variados.

Embora, para Tom Zé, Tropicália Lixo Lógico não seja um novo estudo, em muito este seu novo disco se assemelha a outros como Estudando o samba (1976), Estudando o pagode (2005) e Estudando a Bossa (2008). Claro, aqui no seu 22º trabalho, o tema abordado é o movimento artístico deflagrado no finzinho dos anos 1960. Ao lado de Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes, o baiano de Irará ajudou a dar uma nova ordem cultural no Brasil, tendo como lema o “é proibido proibir”.

Hoje, aos 75 anos, ele se cerca de um time de jovens músicos – Mallu Magalhães, Pélico, Rodrigo Amarante e Washington – para olhar de volta ao passado. Recorrendo a Câmara Cascudo (1898 – 1986) e Euclides da Cunha (1866 – 1909), ele explica as raízes da Tropicália em textos e gráficos, tudo incluindo no encarte. Ainda assim, ele respondeu às perguntas do DISCOGRAFIA por email, falando um pouco mais sobre esse Lixo Lógico. A seguir.

DISCOGRAFIA – A Tropicália até hoje é celebrada como um movimento fundamental para a música brasileira. O que vocês colocaram ali, que fez daquele trabalho (me refiro a toda a obra dos tropicalistas) obras tão referenciais para nossa história?

Tom Zé – O Tropicalismo respondeu a uma mudança histórica. No jogo da época as peças estavam mudando de lugar, e a emocionalidade não deixava que os deslocamentos fossem vistos com clareza. De muito perto, em close up, nem sempre se vê bem. Na política, os mais valentes, ousados, grandes pessoas do País, que expunham cara e a coragem, podiam ser, esteticamente, conservadores. Os costumes viravam de cabeça pra baixo: sexualidade, papéis femininos e masculinos, fronteiras nacionais, passavam por um fluir que mudava a configuração existente. O Tropicalismo assimilava as transformações, o que o fez marcante foi essa capacidade de assimilação. E mesmo em meio a dramas doloridos, a alegria, a cor, o ímpeto, estavam – não: estão presentes. Ficaram.

DISCOGRAFIA – O termo “lixo lógico” pode ser interpretado, num primeiro momento, como uma crítica. Como se você estivesse chamando a Tropicália de lixo. Como e quando você chegou a esse título?

Tom Zé – Absolutamente não há depreciação no nome: lixo lógico trata do acúmulo que a educação aristotélica sofre, ao confrontar-se com a grande herança moçárabe que recebemos de nossos antepassados, nós, do Nordeste, do Recôncavo. Quando o lixo lógico vaza e ocupa o cérebro, dá-se a nova configuração. Caetano e Gil, esses gênios, mais Capinan, mais este que vos fala, nasceram geograficamente próximos. É bom não desprezar essa informação geográfica factual: não é coincidente a nossa vizinhança cultural e biológica, de nascimento. Olhe, no encarte do disco os detalhes estão dados, mais pormenorizados.

DISCOGRAFIA – Seu novo disco se soma a uma série de outros trabalhos importantes da sua discografia que ficaram conhecidos como estudos: estudando o samba, a bossa, o pagode. Por que estudar agora a Tropicália?

Tom Zé – O  Brasil é importante, tanto quanto a música e a cultura que acontecem nele. A Tropicália integra essa importância e o disco tenta registrá-la.

DISCOGRAFIA – Como você analisa hoje o legado deixado pela Tropicália?         

Tom Zé – Uma cultura é um organismo vivo. As portas abertas para a miscigenação musical tropicalista foram o prosseguimento de antigas fusões que vêm desde o início, desde portugueses, negros, índios, franceses, do padre Maurício Nunes Garcia, e de uma música popular de sentimentos expostos como feridas, às vezes malvista pelo chamado bom gosto estabelecido. O legado de todas as tradições, inclusive da tropicalista, que nesta altura já compõe certa tradição, continua se movendo.

DISCOGRAFIA – Qual é o marco inicial da Tropicália e onde ela termina, se é que terminou?

Tom Zé – Ela teve uma data marcada para acabar, não me lembro agora qual era, pois queria ser um movimento que não pretendia cristalizar-se. Riverrum. As águas do rio continuam rolando.

DISCOGRAFIA – Para muitos, Caetano e Gil são os pais da Tropicália e você é o verdadeiro tropicalista. Como você analisa essas separações ou rótulos?

Tom Zé – Gil e Caetano são os gênios que acenderam o pavio. Eu já fazia uma música que achou abrigo sob o teto tropicalista, minha música era formalmente afim. O habitual pensamento dualista, nem sempre ordenador, precisa hierarquizar, mesmo recorrendo a metáforas familiares.

DISCOGRAFIA – Como é sua relação hoje com os cânones do movimento, como Caetano, Gil e Gal?

Tom Zé – Nós nos vemos menos, são roteiros e estradas díspares, cada um trabalhando num canto – lato senso. Sinto muita saudade deles, são convivências encantadoras. Falo mais frequentemente com Caetano, estou vendo um aspecto bem interessante do trabalho dele sobre o qual temos conversado.

DISCOGRAFIA – Impossível falar em Tropicália sem falar no saudoso maestro Rogério Duprat. Como foi sua relação com ele?

Tom Zé – Repito o que digo há anos: Rogério e outros maestros, Sandino Hohagen, Júlio Medaglia, foram a roupa de gala que vestiram a Tropicália. Fizeram arranjos inexcedíveis. Minha relação com Rogério ficou  mais próxima, eu ia à chácara onde ele foi morar, em Embu. Eram manhãs e tardes muito agradáveis.

DISCOGRAFIA – Em Tropicália Lixo Lógico você trabalha com nomes com nomes novos da música brasileira – Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante, Emicida. Até segunda ordem, nenhum deles tem ligação com o movimento sessentista. Como você escolhe quem participa do seu disco?

Tom Zé – Quando a Milena Machado – produtora executiva – chegou em casa com o Tomaz Gonzaga, a ideia deles era oferecer à Natura (que veio a patrocinar o disco) essa sugestão de um álbum em que eu trabalharia junto com esses jovens (Emicida, a Mallu, o Rodrigo Amarante e o Pélico). Foi uma escolha tão feliz, um encontro incrível. Eu já conhecia todos eles, claro, tinha uma aproximação com a Mallu e com o Emicida e era muito fã do Los Hermanos, banda em que Amarante toca com o Marcelo Camelo. Sobre o Pélico eu já tinha ouvido muito falar dele pelo Zuza Homem de Melo, do quanto era admirador do trabalho dele.  A Mallu cantou o Tropicalia Jacta Est e O Motoboy e Maria Clara. O Amarante cantou a música que fiz na última vez que fui a NY e que, inclusive, apresentei lá – NYC Subway Poetry Department. Eu fiquei encantando uma frase que é muito dita antes da saída de cada trem do metro de NY, me soou como um poema até: “Stand clear of the closing doors”. Isso é pronunciado com um tom bastante grave e achei engraçado. Ela tem duas linhas aliterativas, parece um verso. E eu brinquei que queria conhecer esse rapaz que cria avisos tão poéticos para o metrô de NY e prá ele ser parceiro no meu próximo disco. Para o Pélico eu escolhi o De-De-Dei-Xá-Xá-Xá que acabou sendo uma das músicas que as pessoas mais comentam e se simpatizam. No caso do Washington é um tipo de história de povo navegador. Eu moro em Perdizes e muitas vezes eu vou à feira prá sentir aquele ambiente. E o fato é que toda vez que eu passava na esquina, antes da feira, um senhor que vendia enxovais para cama me dizia que o seu sobrinha cantava muito bem e um dia eu pedi um disco do sobrinho dele. E na semana seguinte ele me deu o disco do Washington. Eu fiquei admirado com a voz aguda e quando estava gravando o disco, eu mandei uma passagem prá ele vir de Caruaru, ele chegou logo cedo, gravou comigo Tropicália Lixo Lógico e no mesmo dia embarcou de volta prá casa.  Já para o Emicida, nós escolhemos uma música mais delicada. Ele é um poeta das coisas da cidade, o cantor das coisas urbanas e eu quis que ele cantasse algo que é profundamente nordestino. Ao mesmo tempo que é relativamente uma coisa distante da linguagem dele, é próxima dele na medida que é um descorrer de palavras que narram um fato.

DISCOGRAFIA – Na apresentação do disco, você diz que a Tropicália levou o cérebro da juventude “da Idade média para a 2ª Revolução Industrial”. O que aconteceu depois? A evolução seguiu ou veio uma regressão?

Tom Zé – Caetano e Gil, a Tropicália, levaram o País para a 2ª. Revolução Industrial e ela está em processo. É um percurso evolutivos que se faz em saltos quânticos.

DISCOGRAFIA – Seu disco sai junto com um documentário que resgata a história da Tropicália. O que você achou do filme de Marcelo Machado?

Tom Zé – O filme é bom, bem-feito, tem um material de arquivo, de pesquisa, que o enriquece muito.

DISCOGRAFIA – Qual o disco mais importante da Tropicália na sua opinião?

Tom Zé – É um conjunto de obras, desde o disco grupal, de que os integrantes participam, como os discos dos compositores, incluindo o dos Mutantes. Estão interligados pela qualidade.

DISCOGRAFIA – Dois adjetivos são constantemente ligados a você: gênio e louco? O que você de cada um deles e qual lhe agrada mais?

Tom Zé – Meu caro, se adjetivar fosse límpido ou gostoso,  Machado de Assis teria sido mais adjetivador. Há adjetivos como plúmbeo e prolífico, que em meados do século passado estavam em tudo quanto é texto, mesmo que introduzidos a facadas. E hoje perderam o lugar.

DISCOGRAFIA – Depois desse disco, que outro estudo você poderia fazer? Não estaria na hora de um Estudando o Rock?

Tom Zé – Tropicália lixo lógico não é um estudo, é um registro. Não pensei em conceituar nenhum disco futuro. Já recebi muitas sugestões, meu caro. Obrigado pelas perguntas.

>> Saiba mais:

Logo após enviar suas respostas, Tom Zé enviou um segundo email com o seguinte recado “Por favor, Marcos, não deixe de colocar no jornal que estou vendendo o disco autografado pelo e.mail 1bibi@uol.com.br . Além do e.mail, ele só é encontrado, com exclusividade, na Livraria Cultura. Obrigado”. Recado dado.