Discografia

Arlindo Cruz, um partideiro moderno

Quando resolveu dar um tempo na MPB com cara de jazz para cair de boca no sambão, Maria Rita precisava de alguém que lhe garantisse credibilidade no novo estilo. Ela precisava ainda de um compositor que lhe cedesse boas músicas, que tivessem um pé na tradição e outra na indústria. Foi então que ela encontrou Arlindo Cruz, autor de seis das 14 faixas de Samba meu. O resultado não deu outra: milhares de cópias vendidas e uma turnê mais do que vitoriosa.

Essa capacidade de reunir qualidade e comércio é uma das qualidades mais características de Arlindo, carioca nato de 54 anos. Isso fica comprovado no ao vivo Batuques do meu lugar, estreia do cantor e compositor na Sony Music. Lançado em CD e DVD, o espetáculo foi filmado no Terreirão do Samba, localizado na Praça XI do Rio de Janeiro. Com apresentação de Regina Casé o show tem aquela cara de descontração e reunião de amigos, com direito a cerveja e braço pra cima.

No entanto, o show Batuques do Meu Lugar é um negócio bem montado, com marcação, iluminação, figurinos e uma polêmica local sobre ter ou não área VIP. Pra dar ainda mais credibilidade ao trabalho do compositor, Arlindo Cruz convidou um time de amigos que vai além dos obrigatórios de Zeca Pagodinho e Sombrinha (este num pot-pourri delicioso com Da música e O show tem que continuar). Pelo palco carioca, também passa Caetano Veloso, para um dueto emocionante em Trilha do amor. Com sua voz possante, Alcione comparece em Quando falo de amor. Os falsos-sambistas Seu Jorge e Marcelo D2 também marcam presença.

Embora o amor seja um tema recorrente no disco, é fato que Arlindo também presta outros tributos bonitos com seu fio de voz. Batuques do meu samba, por exemplo, é um passeio pelos vários sotaques do estilo pelo Brasil. E Quero balançar é um tributo aos mestres do samba rock feito com a adesão do conterrâneo Rogê. Pra encerrar os trabalhos, como um autêntico carioca, um momento dedicado aos sambas-enredo.

Comemorando os 30 anos de uma carreira que começou ao lado de Candeia (1935 – 1978), passou pelo Cacique de Ramos e pelo Fundo de Quintal, Arlindo vê seu bom momento como o resultado de um longo e árduo trabalho. “Costumo compor todo dia. Pelo menos, pensar em compor, eu penso todo dia. Quando termino um samba, já posso ir dormir”, comenta ele por telefone, esbaforido em meio a uma agenda concorrida.

Tendo passado por aulas de canto coral e violão clássico, o sambista não nega que o filé de sua carreira se baseia mesmo no feeling, no que aprende nas rodas de samba, embora não renegue sua veia industrial. “Faço tanto música pra tocar no rádio quanto uma coisa mais de raiz. Mas, em tudo, faço questão de ter minha assinatura”. Apontando que é justamente essa assinatura o calcanhar de Aquiles dos novos sambistas, ele aproveita e passa a receita para se fazer um boa roda de samba. “Acima de tudo, é preciso quem goste e respeite o samba. Também tem que ter a criança, o adolescente, o velho. Tem que ter sempre todas as gerações e muita alegria. Embora tenha samba que fale de tristeza, se canta com uma alegria danada”.