Discografia

Diabo a 4 marca o fim da magia das Frenéticas

Retrato do desbunde da década de 70, quando a discoteca ditava o ritmo das rádios, o grupo vocal As Frenéticas manteve sua formação original até o início da década seguinte. Leilóca, Lidoka, Regina Chaves, Edyr Duque, Dhu Moraes e Sandra Pêra se mantiveram no topo durante um bom tempo fazendo uma mistura engraçada e simpática de música e performance. Até que a época mudou e elas perderam o apelo de graça e surpresa daqueles primeiros anos. Ainda assim, elas tentaram resistir, infelizmente, sem sucesso, aos novos tempos. O resultado dessa última chance que elas se deram é o disco Diabo a 4, lançado originalmente em 1983 e agora reeditado pelo selo Discobertas. Já sem Sandra e Regina na formação, as Frenéticas remanescentes saem atirando para todos os lados tentando resgatar a magia inicial através de um caleidoscópio de composições. Mas, como toda piada tem um timing, Diabo a 4 acaba esbarrando na falta de contemporaneidade em uma época em que o rock começava a botar as manguinhas de fora. Na tentativa de fazer parte desse nicho, elas até incluem uma versão de Rock da cachorra, de Leo Jaime, mas ficam por aí. Aliás, a presença do compositor goiano parece ser vista por elas como uma senha para recuperar o bom humor de hits como A felicidade bate à sua porta e Dancin’ days. Por isso, também é Leo Jaime quem assina, junto com Lidoka e Leiloca, uma versão de Revolution, de Lennon e McCartney. Pecando em traduções literais, Revolução deixa de lado a força ada canção original. O mesmo acontece em Tente outra vez, hino auto-ajuda de Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta, que perde totalmente sua intenção na voz do quarteto. Já Pó de guaraná, de Zé Rodrix e Miguel Paiva, é uma brincadeira bem à moda frenética sobre o uso de estimulantes, no caso, o pó de guaraná. Um dos poucos bons momentos de Diabo a 4 fica com Gonzaguinha, velho amigo do grupo e pai de Amora Pera (filha de Sandra), mostrando sua veia cômica na marchinha carnavalesca O saco cheio do Noel. Outro momento bacana é A todo vapor, de Guilherme Lamounier e Sandra Pêra, cuja letra se mantém ainda jovem (E por conta da tal da grana/ A arte é quase esquecida/ Eo artista perde a gana/ E vai atrás da comida). Encerrando o disco e a carreira do grupo que voltaria a se encontrar poucas vezes depois, sempre sem o devido reconhecimento, Canção de amor (Astor Piazzolla/ Geraldo Carneiro) é uma canção de dor de cotovelo que soa deslocada na obra de um grupo que ensinou o Brasil a rir com mais vontade. É o que tempo havia passado.