Discografia

Nando Reis volta mais independente e sincero

nando reis  fotos: ana beatriz e thiego montiel

Muita coisa mudou na vida de Nando Reis nesta virada de 2012 para 2013. Ao mesmo tempo em que, no segundo semestre do ano passado, não teve seu contrato renovado com a gravadora Universal, ele decidiu seguir em frente e lançar um trabalho totalmente independente. Seu sétimo trabalho de estúdio, Sei, marca ainda a saída do guitarrista Carlos Pontual e a entrada de Walter Willaça, que tocava com a amiga Cássia Eller. Hitmaker de mão cheia, Nando já chegou emplacando a faixa-título nas rádios. A balada apaixonada e cheia interrogações tem um endereço certo, é a psicóloga Wânia Reis, com quem, entre muitas idas e vindas, ele já está junto desde os tempos de colégio.

Para comemorar o retorno do casamento com Wânia, o ex-titã até compôs a canção Back in Wânia. Além do novo/velho amor, 2013 chega com o músico completando 50 anos de vida (no último 12 de janeiro) e 15 de carreira solo. Para ele, tudo isso é combustível para fazer mais e mais músicas. “De certa maneira, tudo que a gente produz é autobiográfico”, confirma o músico em entrevista por telefone. Cheio de sinceridade, Nando conversa com tranquilidade sobre qualquer assunto, até mesmo na hora de dizer que não gosta de dar entrevista. Família, polêmicas, Titãs, leia um pouco do que o cantor e compositor tem para dizer.

DISCOGRAFIA – Seu novo disco vem cercado de muitas novidades. Independência, guitarrista novo. Como essas coisas foram acontecendo ao longo da produção?

Nando – O fato de eu ser independente não mudou nada na parte musical do disco, a não ser a questão comercial. Ter gravado em Seattle, às minhas custas, fazia parte da ideia de como esse disco deveria ser feito. Já tinha 10 músicas, e, dessa vez queria levar a banda para conhecer o Jack (Endino, produtor). Queria gravar com o Jack no seu habitat. Queria uma atmosfera estimulante, contaminada ainda por uma incerteza, caso eu não criasse algo novo. Sabia que na banda isso era estimulante e ao mesmo tempo ameaçador. É ainda o primeiro disco que eu faço com a nova formação. Entrou o Walter Willaça, que já tinha gravado no meu segundo disco. A volta do Walter, que se deu no início de 2011, não só alterou a nossa sonoridade, como através dessa mudança, eu vi que tinha perdido o viço. Eu percebi que algo podia acontecer.

imagesDISCOGRAFIA – Quais as vantagens e desvantagens de ser independente?

Nando – Não se vincular com nenhuma gravadora, me fez entrar em outro aspecto que é “o que fazer com o disco?”. A relação das pessoas com o disco está entrando em extinção. Se, por um lado, você tem a liberdade da internet, por outro ela é pobre pela qualidade e pela ideia de que, acessando as músicas, você vai içar aquilo que o disco tem de fundamental. Ao mesmo tempo que ela divulga, ela enfraquece a importância que a música tem dentro de um disco. A grande força de uma música é o que ela diz. Me amedronta a ausência do disco. Por isso, o estar independente me fez dar conta de que eu devo tomar mais conta do que eu faço, que é disco.

DISCOGRAFIA – Seu disco, inclusive tá sendo vendido de uma forma diferente (é o público quem dá o preço e o disco é vendido pelo site). O que você tem achado da experiência?

Nando – Estou gostando. Um padeiro vive de fazer pão e, se não tiver onde vender seu produto, passa a ter problemas. Eu fui abrir minha padaria. Tenho a loja virtual, que é o site, e a barraquinha nos shows. A maneira que eu tenho de fazer isso é me aproximar das pessoas. Eu to chegando a sete mil discos, o que não é muito. Mas eu nunca fui um grande vendedor de discos.

DISCOGRAFIA – Esse disco, assim como os outros, trazem muitas referências à sua vida pessoal, sua família. Alguma vez você se arrependeu de ter dito algo numa música?

Nando – De certa maneira, tudo que a gente produz é autobiográfico. Me arrependi muitas vezes, mas muita mais pelas declarações, do que pelas músicas. Primeiro, por que a música tem um tempo de reflexão. De certa maneira mudou minha forma de pensar nas entrevistas. O cara pode pegar uma frase e mudar o sentido dela. Eu tenho filho e muitas vezes isso incomoda. Entrevista é uma bosta.

DISCOGRAFIA – Como foi seu reencontro com os Titãs no ano passado?

Nando – Foi ótimo. Eu não participei nas comemorações, mas participei de um show. Desde que eu saí (da banda), nunca mais tinha tocado baixo. Em primeiro lugar, eu amo eles todos. Os ensaios, a forma como fomos curtindo, me deu saudade daquilo que foi o combustível que gerou a nossa música. Nosso peculiaríssimo conjunto, oito pessoas tão diferentes, nossa brilhante forma de transformar nosso forte vínculo numa forte música. Foi emocionante.

DISCOGRAFIA – Foi possível deixar para trás antigas mágoas?

Nando – Já havia sido deixado de lado as rusgas. Ser tão conhecido é um saco. Nossa separação é como qualquer outra, mas gerou muita história. O que nos une é muito mais forte do que nos separou. Embora eu saiba que algumas declarações foram muito idiotas. Mas, nesses dias foi só prazer.

 

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DISCOGRAFIA – Por falar em retornos, como foi esse reencontro com a Wânia?

Nando – Desde que eu conheci a Wania, minha vida tem sido eu e ela. O “Back in Wania” é uma declaração de amor a ela. E é também uma espécie de paródia ao Back in Bahia, do Gilberto Gil. Eu não consigo imaginar minha vida sem ela. De fato, nós começamos a namorar quando eu tinha 15 anos. E, desde então, mesmo com algumas separações, sempre estamos juntos. Considerando que eu pretendo viver até os 100, serão 75 anos de casamento.

DISCOGRAFIA – E como tem sido levar todas essas histórias para o novo show?

Nando – Ta ótimo. Fazer a turnê de um novo disco é estimulante. Não só por que você apresenta coisas novas, como a abordagem das velhas músicas muda. Desde a minha saída dos Titãs, eu criei uma relação forte com o Ceará. Quando eu saí dos Titãs, uma das minhas preocupações era pra quem eu iria tocar. Muita gente ainda tinha minha música como cult, restrita. Fortaleza foi a primeira cidade onde eu toquei. Eu fiz dois shows seguidos no Dragão do Mar que estavam cheios. Não lembro de muitos detalhes, mas lembro que estava no Nordeste, perto do mar, com gente que gostava da minha música. E eu pensei: “viu como estávamos certos?”.