Discografia

Em Mujer Divina, Natalia Lafourcade dá modernidade à obra de Agustín Lara

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Sempre atento ao que é produzido em língua inglesa, o Brasil praticamente ignora os sons que o rodeiam. Isso, curiosamente, passando por cima das proximidades linguísticas do português com suas irmãs e irmãos hispânicos. No momento mea culpa, confesso que me incluo nesse grupo. São raros os sons latinos que me chamam a atenção. O que chega por aqui, pelo rádio ou pelas novelas, quase sempre são baladas apaixonadas melosas e bem bregas. Eis que me deparei há poucas semanas com Natalia Lafourcade. Musa pop da música mexicana, esta cantora e instrumentista de 28 anos acaba de lançar seu quinto trabalho de estúdio. Conhecida por gostar de agregar pessoas à própria estrada, ela convidou um time bem eclético de artistas para prestar uma homenagem ao compositor Agustín Lara no disco Mujer divina. Lançado no Brasil pela Sony Music, o tributo joga um molho indie, moderno e criativo sobre a obra do compositor de Solamente una vez, Noche de ronda e Farolito. Esta última, inclusive, é uma boa porta de entrada para os brasileiros. Uma das canções preferidas de João Gilberto, aqui ela tem os vocais divididos com Gilberto Gil num arranjo delicado de cordas e assovios. Aliás, as delicadezas e criatividades são a matéria prima dos arranjos de Mujer divina. Viajando entre muitos estilos, sempre com muito frescor, Natalia deu cara própria a 13 canções compostas bem antes dela nascer, uma vez que Agostin Lara morreu em 6 de novembro de 1970. Só para se ter uma ideia, o disco abre com uma balada rock de cadencia leve (Mujer divina), dividida com Adrián Dárgelos, e logo acelera o ritmo em Limosna, dividida com Emmanuel del Real, um dos destaques da homenagem. Já a canção La fugitiva, dividida com Kevin Johansen  é um proto-bolero sinuoso e sensual feito à base de ukelele, baixo, programações e teclados. Com uma voz aguda que beira o registro infantil, Natalia Lafourcade lembra nossa Mallu Magalhães, embora se mostre mais segura com os próprios recursos (sensação que Mallu também vem demonstrando desde seu último disco). Também segura de como quer mostrar sua música, até em momentos que roçam a tradição, a intérprete demonstra saber muito bem o que quer dizer. Isso acontece em Piensa en mí, que conta com os tons passionais de Vicentico. O encontro da sutileza dela com o arroubo dele, faz desta uma canção híbrida de intenções, boa de tocar no rádio. Outro brasileiro a marcar presença em Mujer divina é Rodrigo Amarante, que sussurra baixinho e passa discreto na belíssima Azul. Antes, é o quase brasileiro Jorge Drexler quem comparece no roquinho Oración caribe. Contando ainda com Devendra Banhart e Miguel Bosé, Mujer Divina está sendo lançado num pacote especial com um DVD contendo 10 outras versões para as canções do CD, mais um documentário e galeria de fotos. Terminando sem pontos baixos, o tributo a Agustin Lara encerra com María Bonita, interpretada por uma Natalia solitária com sua guitarra. Deixando sua voz descer macia pelo microfone, até seu violão soa baixo para não atrapalhar a despedida feita, praticamente, em clima de oração.