Discografia

Meus nomes são Gal

_MG_0804_mcAlém da voz sempre aguda, outros elementos marcaram a imagem de Gal Costa. A baianidade lenta, o batom vermelho, os lábios lascivos, as coxas grossas. No entanto, longe de querer ser só musa (embora já tenham lhe dado tal bandeira), é a música que lhe importa. E aí também são muitos os elementos que a compõem. Começou na bossa, passou pelo rock, chegou no samba, no frevo, e, no meio desse caminho, que já se aproxima dos 50 anos, fez outra porção de coisas.

Diante de tantas personalidades musicais, não seria estranho que ela chegasse ao eletrônico. Foi então que, guiada pela mão sapiente de Caetano Veloso, a intérprete saiu de um período de projetos pálidos para o arrebatador Recanto, disco de 2011, que emoldura melancolia com batidas programadas. Quase dois anos depois, o projeto ganha versão ao vivo, gravada no Theatro Net Rio, o mesmo que, quando se chamava Teatro Tereza Raquel, recebeu o inesquecível show Fatal.

Inéditas na carreira da baiana, as batidas eletrônicas chegaram a render uma comparação com Lady gaga. “É um absurdo. Ela canta bem, mas o som é mais comum”, disparou a baiana durante entrevista coletiva realizada na última quinta-feira (7) em São Paulo. Magra e elegante dentro de uma saia longa, ela respondeu por cerca de uma hora sobre o projeto que lhe trouxe de volta ao posto de musa vanguardista da MPB. “Ficou explicitado no show todas as Gals que me habitam. O que me alimenta é sempre o desafio. Eu gosto disso”, assina embaixo.

Em Recanto Ao Vivo, Gal Costa desfila 23 canções ao lado de um trio formado por Pedro Baby (violão e guitarras), Bruno di Lullo (baixo) e Domenico Lancellotti (bateria e efeitos). Com essa formação (inspirada na Banda Cê, de Caetano), a cantora cria uma aura mágica para iluminar canções como Folhetim, Barato total e Força estranha. Agregando oito faixas de Recanto, a sonoridade e as intenções é que são as protagonistas de um espetáculo escuro, denso e poético. Um dia de domingo, por exemplo, ganha uma homenagem a Tim Maia, com Gal abusando nos graves. Já em Vapor barato, Pedro violenta sua guitarra para fazer valer o DNA do pai Pepeu Gomes. “É uma emoção gravar Vapor barato no mesmo lugar onde eu a lancei. No dia (da gravação), até chorei. Mas me contive por que minha voz não sai direito quando eu me emociono”, revela Gal.

galrecantocdcapaoficial“Caetano e Moreno (Veloso) levaram os músicos que achavam que se adequariam àquela sonoridade. É tudo muito econômico. Embora aconteça improvisos, a estética foi pensada daquela maneira”, revela Gal, que se deixou levar pelos conselhos do velho amigo de Doces Bárbaros durante toda a concepção do projeto. Até para incluir Modinha para Gabriela ela pediu licença a Caetano.

Com o fôlego renovado pela modernidade de Recanto, Gal Costa já tem olhos para uma nova geração de compositores e planos, ainda embrionários, para novos projetos. “Já estou animada para um novo disco, mas ainda estou muito ligada a Recanto”. Da mesma forma, se sente feliz em estar cercada de jovens no palco e na plateia. “A juventude sempre traz boas energias. Mas eu tenho alma jovem. (Aos 67 anos) eu tenho uns 45 anos espirituais, mas às vezes tenho 13”, brinca ela, que tem malhado diariamente para dar conta da rotina de shows. “Quero ser uma velha de 80 anos subindo as ladeiras de São Paulo e da Bahia”.