Discografia

Sobre ziriguiduns e telecotecos

Box MILTINHO 1 perspectivaMilton Santos de Almeida faz parte de uma casta da música popular brasileira às vias de extinção. Crooner de primeira linha, dono de uma divisão ímpar e particular, Miltinho, como foi carinhosamente apelidado, foi uma das vozes mais populares do Brasil dos anos 1960, emplacando dezenas de sucessos nas rádios. Já soando experiente desde a estreia, ele soube como poucos lapidar um bom samba, terreno no qual virou referência.

Essa história da época de ouro do samba sincopado está resumida nos boxes Miltinho Anos 60, lançados pelo selo Discobertas. Dividido em dois volumes, o trabalho resgata 12 discos do cantor, partindo da sua estreia em 1960 com Um novo astro e encerrando em 1966, com Miltinho Ao Vivo. Como já de costume nos relançamentos do selo, cada disco reproduz todas as informações antes contidas no LP e alguns ainda ganham faixas bônus tiradas de compactos e projetos coletivos.

miltinho-e28094-miltinhoNascido no bairro carioca de Botafogo, a história de Miltinho começa ainda na infância, aos cinco anos de idade, quando pediu aos pais – um contador geral da República e uma professora – um pandeiro de presente. De instrumento na mão, ele integrou importantes conjuntos vocais, como Namorados da Lua, Anjos do Inferno e Quatro Ases e Um Coringa. Escolado nos palcos boêmios, Miltinho em carreira solo transpunha para seus discos o máximo do clima esfumaçado das boates do Rio de Janeiro, como a Drink, do pianista Djalma Ferreira (1913 – 2004). Lá foi um dos locais onde o cantor batia ponto junto com seu vasto repertório de sambas, boleros, bossas e sambas-canções.

Considerado o “rei do sambalanço” e com fôlego invejável, para Miltinho, gravar dois discos por ano era moleza. Ainda mais por que, para isso, ele contava com um time de compositores de primeira linha lhe oferecendo músicas. Talvez o mais importante deles seja o carioca Luis Antônio, militar que engrossou as fileiras da FEB, mas que também tinha queda pela boêmia. Fiel frequentador da boate Drink, o “Coronel” foi responsável pelos maiores sucessos de Miltinho: Mulher de trinta, Menina moça e Poema do adeus, entre eles.

A lista de compositores que buscavam a voz inconfundível de Miltinho era tão valiosa que ele se deu ao luxo de esnobar a Bossa Nova durante muitos anos. Preferia nomes como Evaldo Gouveia, Jair Amorim, Marino Pinto ou Antônio Maria. Para dar balanço à obra desses e de outros, os músicos também eram o que havia de melhor na música brasileira da época. Ed Lincoln, Baden Powell, Valtel Branco, José Menezes, Raul Mascarenhas, tirando aqueles que não eram citados nas capas.

miltinho-sexteto-sideral-e28094-um-nc3b4vo-astro-aEsse encontro de bom compositor, músico e intérprete gerou muitos momentos que merecem destaque. É o caso de Eu e o Rio (Luiz Antônio), guiada pelo sublime violão do Baden. Do disco Poema do Olhar, Meu nome é ninguém (Haroldo Barbosa/ Luiz Reis) é dessas que já ganhou muitas gravações, inclusive do próprio Miltinho. Em uma delas, ele cantou ao lado de Ed Motta, no projeto Casa de Samba 3 (1999).

Aliás, foi no primeiro volume do Casa de Samba (1996) que um dueto de Miltinho com Zizi Possi chamou a atenção da gravadora Columbia para um luxuoso projeto de regravações com participações especiais, que se concretizou em 1998. Esse, então, ficou sendo o último disco lançado pelo cantor, que completou 85 anos em 31 de janeiro. Se tratando de um efisema pulmonar, ele não sobe num palco há cinco anos (a última gravação foi em 2006, no Acústico MTV 2 de Zeca Pagodinho). Por conta da pausa forçada, cabe aos dois boxes guardar esse pedaço importante da MPB e a história de um dos seus mais célebres representantes.