Discografia

Mona Gadelha volta ao blues rock em (ótimo) novo disco

2008va0601

Um dos caminhos mais certeiros para se conseguir fazer um bom disco é apostar (e até ousar) na seara que se tem mais intimidade. Claro que, aqui e acolá, algum artista se deu bem explorando um terreno que não era o seu. Mas pra isso, é preciso ter muita certeza do que se quer (e um bom produtor do lado). Sem essa certeza, o ideal é se voltar para as próprias raízes e tirar delas o que existe de melhor. Foi nesse caminho mais seguro que seguiu a cantora cearense Mona Gadelha para montar seus sexto disco.

Entregando o jogo logo no título, Cidade blues rock nas ruas é um passeio pelas variações do rock e do blues que se faz e fez em Fortaleza desde que ela frequentava as madrugadas da cidade, cantando e circulando com uma turma de amigos músicos. Egressa da geração que foi para o sudeste gravar o antológico Massafeira, Mona foi quem deu voz à melhor faixa daquele álbum duplo. Não por acaso, a composição própria Cor de sonho é um blues vigoroso e cheio de grandes guitarras.

Partindo desse ponto, que já passa dos 30 anos, Mona Gadelha, radicada em São Paulo, se voltou para o Ceará e para os colegas da antiga banda Perfume Azul e foi dando vida a Cidade blues rock nas ruas. Lançado pelo próprio selo, Brazilbizz, o disco teve produção de Alexandre Fontanetti, paulista que já trabalhou com boa parte da música pop brasileira, de Rita Lee a Ana Cañas. Fontanetti também atua no disco como músico (violão, guitarra, ukelele e vocais) ao lado de Régis Damasceno (baixo e guitarra), Richard Ribeiro (bateria), Zé Ruivo (teclados), Adriano Grineberg (orgão hammond), Marcos Ottaviano (guitarra), Olivio Filho (acordeon) e Fernando Chuí (violão).

artworks-000046816822-dkmqbi-t500x500Se no disco anterior, Praia Lírica – Um tributo à canção cearense dos anos 70 (2011), Mona parecia presa ao formato voz e piano, em Cidade blues rock nas ruas ela parece livre pra fazer o que bem quiser. Daí o disco trazer um punhado de boas canções, com interpretações seguras e letras bem construídas. Logo no início, Angela B é um rock stoniano de Lúcio Ricardo descrito na apresentação do disco como um dos “hinos” da época em que a cantora se reunia com os amigos para “tocar e brincar de transgredir”. Outra desse período é a suingada e sacana Mamãe carinhosa (Lúcio Ricardo/ Siegbert Franklin), uma dos melhores do disco. Parceria de Mona com Fontanetti, Incorrigível é um folk rock meio juvenil, que tem um pé em Nando Reis.

Costurada pelos slides de Marcos Otaviano, Vulnerável blues traz Mona Gadelha brincando com os tons para transbordar todo o desabafo da letra. A performance, inclusive, faz lembrar aquela estreia no Massafeira. No lado das baladas, Cidade blues rock nas ruas também seus bons momentos. Parceria de Mona com Ricardo Augusto, James Dean trata de forma nostálgica sobre o fim das ilusões. Ninguém melhor para dialogar sobre a situação do que o símbolo da rebeldia dos anos 1950. Seguindo no mesmo tema, Mapa das ilusões (Mona/ Edmundo Jr.) é um bolero meio progressivo, com bons momentos poéticos (“Traçou seus planos no velho mapa das ilusões”).

Apesar dos momentos de menor inspiração, como Cidade blues ou o jogo linguístico de Désolée rock, Cidade blues rock nas ruas tem coerência e deixa bem claro suas intenções. Até o encerramento, com as ótimas Escorpião e Acreditar, Mona Gadelha foi certeira em apostar no que gosta e ao explorar espaços para a própria voz. Apesar da ideia supostamente nostálgica (ideia esta reforçada em letras falando sobre tempo, saudade e ausência). Cidade blues rock nas ruas aponta para a frente, não deixa fios sobrando e faz jus aos mais de 30 anos de carreira desta cantora.