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Em Fortaleza, Wilson das Neves encontra BNegão numa mistura azeitada de samba com jazz

Show Wilson das Neves + BNegãoAtualmente, a melhor opção para fechar o fim de semana em Fortaleza é assistir um show na Caixa Cultural. No domingo à noite, as apresentações começam cedo (19h), terminam cedo, tem estacionamento (pago e não pago) e, regularmente, pode vir depois de uma exposição no mesmo local. No que se refere à programação musical, a tônica costuma ser a variedade, o intimismo e o inusitado. Tirando o segundo item, foi isso o que a casa ofereceu esta semana.

No palco estavam dois lados aparentemente distintos da música “popular”, no sentido exato da palavra. Com 77 anos bem vividos, o mestre Wilson das Neves se encontrou com BNegão, 40. O primeiro, um dos mais importantes e influentes músicos brasileiros, que já tocou bateria com todos os grandes nomes nacionais e mais um punhado de reluzentes nomes internacionais. O segundo, um rapper carioca que fez história no Planet Hemp e agora engata projetos interessantes na carreira solo.

Seja nas histórias pessoais, seja no figurino, BNegão e Wilson das Neves têm diferenças bem marcantes. O primeiro cobre de calça jeans e camisão folgado sua música feita a base de rap, hip-hop, funk (dos bons) e hardcore. O segundo, de chapéu, sapatos bem lustrados e paletó bem cortado, é a velha guarda do samba brasileiro, com discurso cheio de malícia e sacadas rápidas. No palco essas diferenças são evidentes, e é isso que torna o encontro mais interessante.Show Wilson das Neves + BNegão

Juntos, eles misturam o que pode ser misturado e BNegão não se incomoda de ser coadjuvante na frente do grande Das Neves. É este quem mais brilha apresentando as canções que fez para seus três (até agora) discos solo. Antes de cada uma, ele faz questão de falar sobre parceiros do quilate de Moacyr Luz, Arlindo Cruz, Chico Buarque e Paulo César Pinheiro. “Quem quiser pedir música, pode pedir. Mas tem que ser minha. Como ninguém canta minhas músicas, eu tenho que cantar”, brincou o sambista.

BNegão entra na metade da apresentação para temperar o show com seu som. Com a já conhecida voz de trovão, ele traz um pouco do repertório dos Seletores de Frequência, banda que montou depois do fim do Planet Hemp. Para apimentar ainda mais o negócio, ele fez uma versão primorosa de Plim plim, canção esquecida de Martinho da Vila, e presta homenagem ao tio J. T. Meireles, um dos mais importantes músicos brasileiros da geração Bossa Nova.

A banda que acompanha BNegão e Wilson das Neves nessa curta turnê – que passa ainda por duas cidades – é digna de nota e louvor. O maestro João Rebouças (piano, parceiro de Cazuza em várias canções), Zero (um dos mais requisitados percussionistas brasileiros), Zé Luiz Maia (baixo, filho do lendário Luizão Maia) e Humberto Araújo (sopros, criador da Orquestra Criola). Tocar bateria para Wilson das Neves é responsabilidade grande, mas André Tandeta nem parecia ligar para isso enquanto tocava, ria e improvisava arrancando elogios do sambista. Junto com BNegão, entraram também Gabriel Muzak (guitarra e cavaquinho) e Pedro Selector (trompetista jovem e cheio de suingue).Show Wilson das Neves + BNegão

É possível supor que o encontro de Wilson das Neves e BNegão aconteceu após poucos ensaios e sem buscar muitas ousadias. Em boa parte da apresentação, é o sambista quem cuida do palco. Mas isso não deve diminuir a presença do rapper, que não deixa de destacar seu papel de discípulo. Juntos, eles fazem Juízo final, Mestre Marçal e, com menos interação, repetem O samba é meu dom no bis. A plateia (cheia) aprova com muitas palmas e alguém grita para Wilson: “você é divino”. Ele só responde: “e você é humana”.