Discografia

O som que vem de Minas

32 2

Milton-Nascimento-1990-704x376

* Entrevista realizada em 2012, por conta de um caderno especial que comemorou os 70 anos de Milton Nascimento. Aproveitando a recente passagem do artista por Fortaleza, aproveito para publicar a entrevista na íntegra.

Conversar hoje com Milton Nascimento é algo que exige responsabilidade. Pra quem mora distante, somente por email. Se estiver por perto de sua casa, ele até recebe para uma conversa mais próxima. Mas, em ambos os casos, sua assessoria logo avisa que se as perguntas forem as de sempre ele nem se dá ao trabalho de responder. No caso da entrevista a seguir, foram dias de apreensão até saber se ela chegaria ou não.

Eis que, já nos 45 do segundo tempo, as resposta chegaram. Em meio a um agenda cheia de compromissos, muitos deles por conta da série de aniversário comemorados em 2012, Milton reservou um espaço para conversar com O POVO sobre sua vida, sua carreira e sua música. Economizando nas palavras, ele reafirmou seu compromisso com sua arte revelando que não hábito de planejar os passos. Simplesmente deixa que eles aconteçam. Acompanhe.

DISCOGRAFIA – Pra muita gente, ainda é uma surpresa saber que você é carioca, e não mineiro. O que você tem de carioca e de mineiro na sua personalidade?

Milton – Sempre que me perguntam de onde eu vim digo que sou mineiro de Três Pontas. É muito difícil responder essa pergunta, acho que tem um pouco de cada coisa na minha vida. Sem falar que, existe também o fato de eu morar no Rio de Janeiro desde 1967.

07-Tom-Jobim-Milton-Nascimento-e-Chico-Buarque-1990.-Foto-CRISTDISCOGRAFIA  Na infância, você tinha o hábito de criar histórias, como a do Porcolitro, o litro de leite castigado por uma fada. Quais dessas histórias se transformaram em música? Como foi essa passagem de contador de histórias para cantador de histórias?

Milton Essa passagem foi muito natural, aliás como tudo na minha vida. Comecei cedo tocando na noite, quando tinha 14 anos de idade, ao lado do Wagner Tiso, e naquela época nós dois já fazíamos algumas músicas. Mas pouca coisa sobrou daquele tempo, a coisa começa mesmo pra valer depois de “Novena”, “Crença” e “Gira Girou”.

DISCOGRAFIA – Caetano Veloso já afirmou que sua voz é mais belo som que o ser humano é capaz de produzir. O que você achou disso?

Milton – Caetano é um cara sensacional e toda vez que ele fala algo sobre mim eu fico uns três dias pra voltar ao normal. Pois qualquer palavra vinda de um artista como ele é de emocionar pra sempre.

DISCOGRAFIA – Que imagens lhe vêm à cabeça quando você está cantando?

Milton – É difícil explicar isso, cada pessoa tem sua maneira de lidar com palco.

DISCOGRAFIA – O toque do seu violão é uma marca registrada da sua música. No entanto, em um dos seus mais belos projetos, o disco ao vivo Amigo, você está ao piano. Como é sua relação com cada um desses instrumentos?

Milton – Minha relação é normal. Para tudo que faço eu espero o momento certo, se eu sentir que tal música tem história com piano, ou baixo, ou sanfona, ou violão, vou tocar aquele instrumento que me chamar.

DISCOGRAFIA – Num especial lançado pela Super Interessante com o nome História do Rock Brasileiro, o Clube da Esquina comparece em um capítulo. Na época da gravação, você já via aquele trabalho como rock? O que mais de rock vocês tinham como referência, além dos Beatles?

Milton – Nunca entrei nessa de ficar analisando minhas músicas, prefiro que as pessoas me digam o que sentem. Se acham que é rock, jazz, samba, não tem problema nenhum, porque o que eu gosto mesmo é estar com as pessoas.

DISCOGRAFIA – O Clube da Esquina é, ainda hoje, o seu trabalho mais celebrado, sempre colocado na lista dos melhores da música nacional. Esse é também o seu disco preferido, dentro da sua própria discografia?

Milton – É muito difícil escolher algum trabalho preferido entre mais de 38 discos gravados e quase 500 músicas com parceiros maravilhosos, seria até uma injustiça com todos esses meus amigos escolher uma música ou disco preferido.

DISCOGRAFIA – Em algum momento você pensou um terceiro volume do Clube da Esquina? Isso ainda teria sentido na sua discografia?

Milton – Na verdade, eu já falei em centenas de entrevistas que se fosse pra ter um terceiro Clube da Esquina seria o disco Angelus. Não fico pensando muito nesse lance de reeditar coisas antigas, quero buscar sempre o novo.

DISCOGRAFIA – Dois objetos viraram marcas registradas na sua aparência, em épocas diferentes. Antes era a boina e hoje os óculos escuros. Por que essa troca? Por que não mais a boina e sempre os óculos?

Milton – Mais uma vez eu repito, nunca fiz as coisas pensando num retorno imediato, eu procuro fazer as coisas por prazer. E tudo que eu faço parte deste princípio. Nunca calculei nada na minha vida, pois prefiro deixar que tudo aconteça naturalmente. O tempo do boné passou sem eu nem perceber e, a coisa dos óculos, talvez você seja de uma geração mais nova, porque eu uso óculos desde os anos 1960.

Penna Prearo 1974

DISCOGRAFIA – Além de trabalhos ao lado de Marina Machado, Skank, e Jota Quest, seu último trabalho foi marcado pela presença de jovens músicos. O que você aprende com essas novas gerações?

Milton – Eu sempre acreditei muito na juventude e, por causa disso, sempre gostei de andar com jovens. A gente mais aprende com eles do que eles com a gente.

DISCOGRAFIA – Recentemente, você tem sido uma presença constante no espetáculo Nada será como antes. O que você mais gostou nesse espetáculo?

Milton – Gostei de tudo, já fui assistir mais de sete vezes, e sempre quando estou de folga no Rio procuro um tempo para ir com meus amigos. Esse espetáculo é um dos maiores presentes que recebi na vida.

DISCOGRAFIA – Certa vez, num festival, na falta de um rótulo, definiram seu som simplesmente como “Milton”. De fato, você já caminhou pelo jazz, pelo pop, pela Bossa Nova, pelo rock. Pra onde está indo seu som atualmente? Que sons tem lhe despertado interesse?

Milton Mais uma vez posso te dizer com toda sinceridade: nunca fiquei pensando de onde veio nem pra onde vai minha música. E eu escuto todo tipo de música que chega até mim, não tenho preconceito com nada. Também nunca rotulei nada. Pra mim tudo é música.