Discografia

Os sons da bola

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bobechicoBem antes de Cláudia Leitte dividir alguns segundos do seu dia com o rapper Pittbull no novo “hino da copa”, a música brasileira já mostrava que tinha intimidade com a bola. Aliás, bem mais intimidade do que demonstrou a cantora baiana. Dos campos para os palcos, muitos compositores já exaltaram sua admiração pelo futebol em canções que viraram hinos de verdade. Jorge Benjor já falou do esporte em todas as posições. Chico Buarque, um peladeiro eficiente, levou para os discos sua paixão pela pelota. Os Novos Baianos até batizaram um disco de Novos Baianos F.C. (Futebol Clube). Veja a seguir mais histórias de músicas, músicos e discos que nasceram de passes bem feitos, dribles mágicos e defesas inesquecíveis.

– Jorge Ben

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Desde que assumiu que é Flamengo e tem uma nega chamada Teresa, Jorge Ben tornou-se um dos compositores brasileiros mais ligados ao futebol. Ele mesmo, ainda hoje, não dispensa sua pelada de meio de semana. Mas, foi mesmo nas composições ele mostrou a admiração por Zico (Camisa 10 da Gávea), alertou a defesa (Goleiro) e contou a história do maior astro do futebol nacional (O nome do rei é Pelé).

Entre tantas, pelo menos duas têm histórias curiosas. Em 1976, dando uma guinada na carreira musical, Jorge largou o violão, assumiu a guitarra e lançou o poderoso África Brasil. Para abrir o disco, ele escolheu os riffs pesados de Ponta de lança africano (Umbabaraúma), homenagem a um jogador negro que viu jogar na França. Pouco se sabe sobre o atleta, que, na verdade, se chamava Babaraum. Mas a música virou clássico e ganhou releitura, em 2010, com Jorge, Mano Brown, Nação Zumbi e o trio Negresko Sis, formado pelas cantoras Anelis Assumpção, Thalma de Freitas e Céu.

Outra história curiosa é a de Fio Maravilha, sucesso chiclete ainda hoje cantado por todos os fãs de Jorge. A música foi feita para João Batista de Sales, que jogou, entre outros times, no Flamengo, Paysandu e New York Eagles. Empolgado com o talento do jogador, o compositor lançou em 1972 a música com seu nome. João Batista reclamou que Jorge estava ganhando dinheiro às suas custas e abriu um processo. Como a música fez sucesso, Jorge mudou a letra para Filho Maravilha. Décadas depois, Fio disse que era um mal entendido e liberou o artista.

– CDs dos hinos

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Espécie de bíblia do esporte no Brasil, a revista Placar também aproximou a música do Futebol lançando dois discos com os hinos dos clubes nas vozes de craques da MPB. O primeiro, de 1996, contou com Tim Maia, Fernanda Abreu, Luiz Melodia e muitos outros. Mas esse primeiro volume tinha uma curiosidade: nem todo mundo cantou o hino do seu time de coração. Para arrumar as coisas, um segundo volume veio em 2004. Aí sim, Arnaldo Antunes cantou para o Santos, Zeca Pagodinho sambou com os botafoguenses e Dinho Ouro Preto chamou o Ira! para homenagear o São Paulo. Nosso Fagner também compareceu neste segundo volume para homenagear o Fortaleza.

– Simonal na Copa

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Quando a seleção brasileira viajou para disputar a Copa do Mundo no México, em 1970, um convidado ilustre integrou a comitiva. Tratava-se de Wilson Simonal, maior estrela da música brasileira na época. A função do cantor era levar alegria e descontração para o time. Naquele convívio, o artista ficou próximo dos jogadores, principalmente de Pelé. O entrosamento foi tanto que a seleção canarinho resolveu pregar uma peça no cantor dizendo que ele poderia ser convocado para o próximo jogo. O problema é que Simonal levou a sério. Foi pro aquecimento, vestiu o uniforme e até entrou em campo antes do início da partida. Bem antes de descobrir que era tudo brincadeira, o cantor passou mal e teve que ser retirado de campo. Era o fim da sua “carreira” de jogador. A propósito: o Brasil ganhou a Copa naquele ano.

– Elza Soares e Garrincha

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Em 1962, o Brasil disputou a Copa do Mundo no Chile. Quem também estava lá representando o País era a cantora Elza Soares, que havia acabado de gravar o clássico Bossa Negra. Foi lá que a carioca conheceu duas pessoas que marcaram sua vida: Loius Armstrong e Garrincha. Do primeiro, ela ouviu o afago de ser chamada de “my daughter” (minha filha), num episódio engraçado. Como ela não entendia inglês, pensou que estava sendo chamada de “doutora”. Já com o segundo, ela viveu um romance de 16 anos, marcado por muitos altos e baixos. Além do problema de alcoolismo do jogador, Elza teve que enfrentar a fúria dos conservadores que não admitiam ver Garrincha trocar sua esposa para casar com uma artista estreante. Depois de terem a casa metralhada (literalmente), Elza e Garrincha foram embora para a Europa.

– Tabelinhas históricas

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Não se contentando em serem craques no campo, alguns jogadores já se arriscaram no microfone. Um deles foi Pelé, que dividiu um compacto duplo com ninguém mais ninguém menos que Elis Regina. Lançado em 1969 como Tabelinha Elis x Pelé, o disquinho trazia os dois cantando e brincando em Vexamão e Perdão não tem. Mesmo sendo um mestre na bola, na hora cantar, Pelé leva muitos traços e é Elis quem marca gol. Mas, como a ideia é brincar, Fagner e Zico também se encontraram num compacto feito para o Carnaval de 1983. Ainda hoje um sucesso, Batuquê de praia traz o Galinho de Quintino ao lado da grande voz cearense. A mistura deu tão certo que, 10 anos depois, eles gravaram um disco ao vivo no Japão.

– Aqui é o país do futebol

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Como ficou mais conhecido pelas letras falando de amor e paisagens mineiras, vale lembrar que Milton Nascimento também já se aventurou no mundo do futebol. Escalado pra compor a trilha do documentário Tostão, a fera de ouro (Paulo Laender e Ricardo Gomes Leite), o carioca chamou o parceiro Fernando Brant para escrever Aqui é o país do futebol. O sambão já ganhou as vozes de Daúde, Elis Regina e Ellen Oléria. Simonal também incluiu a canção num disco que começou a gravar no México, quando integrou a comitiva brasileira que acompanhou a seleção na Copa.

– Touradas em Madri

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Em 1938, Braguinha lançou a marcha carnavalesca Touradas em Madri, inspirado nas notícias que vinham da Espanha por conta da Guerra Civil. Para espanto do compositor, 12 anos depois, a música foi cantada por toda a multidão que acompanhava, no Maracanã, o jogo Brasil e Espanha pela Copa do Mundo. Depois do quarto gol brasileiro, 200 mil vozes começaram a entoar a marcha carnavalesca. O jogo terminou de seis a um para o Brasil.

– Novos Baianos F.C.

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Meio banda, meio tribo, os Novos Baianos levaram até as últimas o ideário hippie da vida em comunidade, onde todos vivem harmoniosamente. A tranquilidade só acabava quando eles entravam no campo montado no Sítio da Vovó, onde moravam em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Era no campo que eles aproveitavam para descarregar as tensões e pequenas intrigas diárias. Uma entrada mais forte, um carrinho na canela e estava tudo certo. Diz a lenda que Baby Consuelo, única mulher do time musical, não tinha privilégios e ia pra disputa com a mesma vontade. O amor da banda pelo futebol era tanto que, em 1973, eles batizaram o terceiro disco de Novos Baianos F. C., cuja capa flagra os músicos em campo.

– Chico Buarque e o Politheama

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Além da música, uma das grandes paixões de Chico Buarque sempre foi o futebol. Uma olhada mais atenta em suas composições e é possível perceber referências em canções como Com açúcar, com afeto, Biscate, Falando de amor e Pelas tabelas. Fora dos discos, Chico materializou sua paixão no time Politheama, que montou com os amigos e tem fama de não perder nunca. Entre os momentos de “glória” do Politheama, merece destaque o dia que Bob Marley entrou em campo pra mostrar seus dribles. Convidado para vir ao Brasil inaugurar uma gravadora, o Sr. Reggae pediu para bater uma bolinha e foi levado ao campo de Chico Buarque. A disputa contou ainda com as presenças de Toquinho, Junior Marvin e o “dono da bola” Chico Buarque, claro.

– Um a um

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Em 1996, os Paralamas do Sucesso venderam milhares de cópias do ao vivo Vamo batê lata, que trazia a faixa Um a um. Originalmente composta nos anos 50, por Edgar Ferreira, a música fala de um “time de primeira” cuja “linha atacante é artilheira”. Sem revelar o nome, ele só diz que as cores do time são “encarnado, branco e preto”. Mas Herbert Vianna, flamenguista assumido, aproveitou para cantar o seu time. Além do trio carioca, esse coco ganhou uma versão marcante de Jackson do Pandeiro.

– Beto bom de bola

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Um dos momentos antológicos dos festivais dos anos 1960 foi protagonizado pelo compositor Sérgio Ricardo. Enquanto apresentava sua Beto bom de bola no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, o público começou a vaiar e exigir que ele saísse do palco. Indignado, Sérgio Ricardo levantou-se, quebrou o violão no banco onde estava sentado e jogou os pedaços na plateia, que ficou ainda mais enfurecida. Beto bom de bola fala de um jogador que faz bonito numa Copa e depois é esquecido pelo público. “Homem não chora por fim da glória. Dá seu recado enquanto durar sua história”, diz a letra.