Discografia

Depois das férias e da Copa… (3)

Vamos a mais um capítulo do meu acerto de contas. Pra quem não entendeu, estive de férias durante o mês de Copa do Mundo. Como a produção musical não para, recebi alguns discos, livros e DVDs que, só agora, pude ouvir. Vamos a eles.

1. Vanessa Bumagny – Segundo sexo (independente)

vanessa capa discoO apático projeto gráfico entrega o conteúdo deste terceiro disco de Vanessa Bugmany. Se a produção de Zeca Baleiro em Pétala por pétala, disco anterior da artista, ajudou a arrumar a casa, este novo trabalho sofre de uma falta crônica de emoção e rumo. Tudo parece sem sal. A voz da paulistana não compromete, mas também não empolga. É por demais comum e precisa ser melhor guiada para que se extraia dela o melhor. Entre baladas insossas, arroubos poéticos perdidos e arranjos pálidos, o disco passa despercebido pelo CD player.

2. DJ Gilles Peterson – Sonzeira: Brasil bam bam bam (Universal/ Virgin)

91YsOMflwbL._SL1500_Na cola da Copa do Mundo, o DJ inglês Gilles Peterson convidou uma turma de artistas brasileiros para um disco que pretende mostrar a “verdadeira expressão da alma e do autêntico som do Brasil”. Marcos Valle, Arlindo Cruz, Mart’nália e Gabriel Moura são alguns dos convidados. Claro que o resultado não chega nem perto de um intento tão gigantesco. Ainda assim, essa Sonzeira tenta fugir dos clichês em performances tão minimalistas quanto a Bam bam bam feita por Seu Jorge. Como disco, a ideia se esforça, mas não perde o cheiro de DJ inglês querendo faturar sobre a batucada verde e amarela. Mas vale ouvir a sempre inspirada Elza Soares dando seu recado.

3. Ian Ramil – Ian (Escápula Records)

capa IAN RAMILAos 28 anos, Ian Ramil – filho do Vitor e sobrinho do Kleiton e do Kledir – estreia com um disco contemporâneo, poético e urbano. Um estreia vigorosa cheia de originalidade e frescor. Como cantor, Ian Ramil dá conta do recado usando bem seu registro curto e peculiar. Como compositor, ele busca um caminho próprio que se conecta à cena indie brasileira, mas já com notória maturidade. Assim, ele traz momentos de folk, rock, blues e pop, sem deixar claro onde começa ou termina cada um. A produção de Matias Cella faz com que Ian, o disco, vá crescendo ao longo das 13 faixas. Se é para dar destaque, vamos lá: Over and over convida para uma dança a dois, enquanto Entre o cume e o pé traz a letra mais infame dos últimos tempos (“Não preciso de ninguém. Tenho o meu ursinho”). Vale ouvir.

4. Silva – Vista pro mar (Slap)

silva-vista-pro-marSe muita gente fala que o rock anda com a bola murcha, o que dizer então do pop nacional. É aí que o segundo disco do cantor e compositor – e produtor – Lúcio Silva me empolgou logo na primeira audição. Trinta anos depois do rock nacional abusar dos sintetizadores a tal ponto que tudo pareceu exageradamente igual, o músico capixaba redime os teclados e programações em composições cheias de camadas. Pra não ficar enlatado demais, uma banda completa os arranjos com bateria, guitarras e sopros. Apesar de viciante, Vista pro mar não parece algo que vá se desfazer nos próximos meses. Pelo contrário, poderia ser um bom caminho para os velhos nomes do pop nacional descobrirem. Só mais uma coisa: Fernanda Takai participa em Okinawa.

5. Ziggy Marley – Fly rasta (Sony Music)

flyrastaEmbora não renegue o DNA do pai, Ziggy Marley se dispõe a expandir os limites do reggae em Fly rasta. Por sinal, essa missão já faz parte do seu trabalho desde os primeiros discos, o que também já ganhou o nome de música vendida e tudo mais. Neste quinto capítulo da sua história discográfica, o segundo filho de Bob Marley emula a figura do pai a cada minuto e nem tenta mudar fugir do título de “herdeiro natural”. A voz é igual, a inflexões copiadas e o som é aquele reggae bem polido, que pode virar trilha sonora de filmes de surf. Fly rasta funciona num churrasco, na praia ou na roda de violão. Mas não vai além disso.

6. Thamires Tannous – Canto para aldebarã

CAPA_JPEG_ALTA-690x614Descendente de libaneses nascida no Brasil, esta cantora de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, uniu suas duas porções para criar um disco que prima por arranjos bem trabalhos e melodias sinuosas. Soprano sem excessos, Thamires se apropria do repertório de forma segura e tenta não se prender às regras. Ponto pra ela, que fez um trabalho bonito e que já anuncia uma carreira promissora. Das 11 canções, 10 são autorais com parceiros como Kléber Albuquerque, Luiz Tatit e Estrela Leminski. Meio tango, meio árabe, Já deu é um destaque com seu solo de acordeon feito por Toninho Ferragutti.