Discografia

Carlos Santana e seu coração latino-americano

image.phpDesde que subiu no palco do lendário Woodstock, Carlos Santana cravou seu nome entre o dos maiores instrumentistas do mundo. Não importa o estilo, trata-se de um dos mais virtuosos guitarristas do planeta e pronto. E foi o talento nas seis cordas que manteve ativa a carreira deste mexicano ao longo de quase 50 anos, mesmo nos períodos de baixas vendagens e trabalhos fracos.

De 1999 pra cá, Carlos Alberto Santana Barragán passou a combinar seu dedilhado certeiro com uma fórmula batida do mercado musical e voltou a vender milhões. A fórmula é a dos discos recheados de participações especiais, já usada por artistas de todos os nichos musicais. Para Santana, foi assim no grande Supernatural (1999), no espetacular Shaman (2002), no mediano All that I am (2005) e no dispensável Guitar heaven (2010).

carlos-santana-corazon-750x0O mais novo produto desta tecla já tão batida é Corazón, lançado pela Sony Music pouco antes do início da Copa do Mundo. O que diferencia este 46° disco do músico é que ele conta com artistas latinos ou que, em raras exceções, tenham algum sangue hermano. No caso do Brasil, foi bastante comentada a participação de Samuel Rosa, vocalista e guitarrista do Skank. Por sinal, é ele quem abre a lista de convidados.

Para ser justo, o encontro da lenda mexicana com o líder de uma das melhores bandas brasileiras em atividade acrescentou pouco à faixa Saideira. Escolhido para encerrar o (ótimo) disco Siderado (1998), o rock de toques latinos já era perfeito para seus propósitos festeiros somente com a execução do quarteto. Santana colocou sua guitarra inspirada no que já existia e mandou sua banda executar o resto de forma bem parecida com o original. O resultado é bom? Não, é ótimo, mas a original já era ótima.

Depois de Samuel Rosa, outros 14 nomes passam por Corazón. Os destaques ficam com Juanes, imprimindo um ar canalha na sedutora La flaca. A banda Los Fabulosos Cadilacs joga mais tempero no caldeirão e chutam tudo pra cima em Mal bicho. O trio de cantoras Lila Downs, Niña Pastori e Soledad também se sai bem no bolero Una noche en Napoles, abusando dos clichês do gênero. Cantada em inglês, Indy ganhou um bonito tratamento instrumental e a voz do californiano (filho de mexicano com africana) Miguel. Mas a melhor faixa ficou com a sensual Beijo de longe, com a voz discreta de Gloria Estefan.

Como é típico de um disco desse modelo, Corazón também traz suas desafinadas. Amor correspondido, com o argentino Diego Torres, é uma açucarada balada rock, como tantas outras feitas pelos sertanejos brasileiros. Não estranhe se Zezé di Camargo ou Luan Santana trouxerem a faixa para seus repertórios em breve. O mesmo pode ser dito de Margarita, que conta com os vocais agudos e chatinhos de Romeo Santos. O remix de Pitbull para Oye como va, rebatizada como Oye 2014, também é dispensável.

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Como de costume, Carlos Santana também aproveita o espaço para suas viagens instrumentais. Em Corazón, duas faixas cumprem esse papel e mostram que o músico de 66 anos só fez melhorar com o tempo. Yo soy la luz, dividida com o saxofonista Wayne Shorter e com a baterista Cindy Blackman, esposa do anfitrião, é a melhor com seu ritmo em crescendo e as variações jazzísticas que não poderiam ficar de fora num encontro como esse. Já I see your face é uma espécie de música de ninar curtinha e insossa tocada ao violão.

Para encerrar, Santana homenageia um dos seus grandes ídolos, Bob Marley (1945 – 1981). Com voz de Ziggy Marley e intermezzo rap do grupo colombiano ChocQuibTown, ele faz Iron lion zion como manda o figurino e fecha seu Corazón com as mãos voltadas para o céu. Para facilitar as vendas, foram ainda providenciadas outras versões para Saideira e Amor correspondido, respectivamente em espanhol e inglês, e um DVD com momentos da gravação. Mesmo sem ser um grande álbum, Corazón não compromete e deixa claro que Santana continua um gigante da guitarra.