Discografia

Entre a tradição e inovações, Revista do Samba lança ótimo novo disco

10487238_708315945884066_1441399213248372694_nFormado em 1999 por Letícia Coura (voz e cavaquinho), Beto Bianchi (violões e vocais) e Vítor da Trindade (percussão e vocais), o trio paulistano Revista do Samba comemora seus 15 anos de carreira com o lançamento de um novo disco. O título deste quinto trabalho, o independente Samba do Revista (distribuído pela Tratore), faz referência ao repertório primordialmente autoral. Depois de homenagear grandes compositores em trabalhos anteriores, a opção pelas composições próprias se mostra acertada e surpreendente.

Samba do Revista traz 13 faixas, das quais apenas duas não contam com o dedo de um dos nomes do trio. Aos ouvidos desavisados, essas exceções passam despercebidas, uma vez que o repertório se encaixa com perfeição ao longo de 49 minutos. São melodias bem construídas, que respeitam a tradição, mas não deixam de acrescentar um molho próprio e saboroso. Parte dessa mescla se deve à produção de Paulo Lepetit, filho da banda Isca de Polícia, que acompanhou o mestre Itamar Assumpção (1949 – 2003). Em alguns poucos momentos, esse molho erra no sabor, como na divertida Gravata colorida, que acaba com um desnecessário rap – um clichê batido e mal aproveitado.

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Tirando essa bola fora, Samba do revista soa melodicamente original e com letras bem acima da média. Assinada pelo trio, Só eu só entrega o jogo de quem quer apostar no autoral, mas erra ao dizer que “ninguém vai querer cantar”. A canção tem tanto frescor que merece ser ouvida e cantada por muita gente. Com a mesma dose de bom humor, cinismo e observação do cotidiano, o mantra sambista Aum é outra faixa que merece destaque.

A voz de Letícia Coura tem elegância e soa de forma discreta. Para a proposta do disco, se encaixa com exatidão, mas deixa uma sensação curiosa: o que ela faria fora da do trio? Muito provavelmente, há muito o que ser revelado no seu timbre meio rouco. Até que isso aconteça, o Revista do Samba funciona bem como grupo, com cada um defendendo bem seu pedaço. Costurando passado e presente do samba, o grupo brinca sério de fazer samba e mostra o quanto o estilo ainda tem a oferecer.