Discografia

Excesso de zelo empalidece Dorival Caymmi Centenário

capacaymmiComo o nome maior da música baiana, criador de uma obra sintética e imensa ao mesmo, Dorival Caymmi merecia bem mais em seu centenário – celebrado no último 30 de abril – do que o que se viu ao longo desse ano. A oportunidade era boa para se abrir baús de imagens, lembranças e canções. No entanto, muito pouco foi feito.

O último produto que chegou ao público para homenagear o compositor das canções praieiras tenta dimensionar a obra de Caymmi pela luz dos participantes. Dorival Caymmi Centenário (Biscoito Fino) conta com a presença dos filhos Nana, Dori e Danilo no meio de campo. Mas são os nomes de Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso que vão para o ataque como grande chamariz do projeto.

Chico entre Mário Adnet e Dori Caymmi

Chico entre Mário Adnet e Dori Caymmi

Para guiar esse time, o maestro Mário Adnet divide os arranjos com Dori. Dono de um olhar musical apurado, Adnet vem dedicando seus últimos projetos a aproximar sons eruditos e populares em trabalhos, ao mesmo tempo, acessíveis e luxuosos. É o caso de Vinícius & os maestros (2011), que reapresentou as parcerias do Poetinha com nomes como Cláudio Santoro e Moacir Santos.

Contando ainda com músicos do peso de Marcos Nimrichter, Jorge Helder, Jurim Moreira e Philip Doyle, Dorival Caymmi Centenário é, na concepção, um luxo só. O projeto gráfico é elegante, com fotos tiradas em estúdio e imagens de alguns manuscritos (com a letra belíssima) do homenageado. Na capa, a síntese do que é Dorival Caymmi: o mar, o violão e a imensidão.

Os maestros com Gilberto Gil

Os maestros com Gilberto Gil

No entanto, Dorival Caymmi Centenário peca em dois aspectos. O primeiro é o repertório, com as mesmas pérolas já tantas vezes relidas de Dorival. Mesmo com os novos arranjos e a adesão de pessoas tão próximas tanto do cancioneiro quanto do seu autor, o gosto de déja vù permeia todos os 56 minutos do projeto. Há muita beleza sim, mas, não há mais novidade em ouvir Danilo Caymmi cantando Vatapá. Melhor se sai Gilberto Gil, bulindo com gosto em Samba da minha terra, embora também soe como mais do mesmo.

Outro ponto que puxa o freio deste Dorival Caymmi Centenário é o clima de excesso respeito sentido na maior parte do disco. A abertura, com Gil, Chico e Caetano dividindo os vocais de O que é que a baiana tem, é um bom exemplo disso. Vai embora todo o balanço e fica um clima tão suntuoso que parece esvaziar toda a canção. Optando pela fatia mais trágica, em canções como Sargaço mar e A lenda do Abaeté, Nana Caymmi se sai melhor ao combinar a interpretação profunda com arranjos que parecem desenhar cenários.

Mário Adnet, Caetano e Dori Caymmi

Mário Adnet, Caetano e Dori Caymmi

As 15 canções escolhidas para compor Dorival Caymmi Centenário fazem parte do imaginário nacional e já ganharam as mais diversas leituras. O próprio time escalado para este projeto já cantou e recantou essas canções inúmeras vezes. Sem qualquer sinal de ousadia ou frescor, o disco termina com uma sensação de andar para trás, de retorno a algum ponto no passado. Para o homem que representa o mais perfeito retrato da Bahia, Caymmi merecia mais no seu aniversário. Ou então, ele será sempre lembrado como o compositor de O que é que a baiana tem. E só.