Discografia

Nelson Motta comemora 70 anos com homenagem à sua altura

nelson70capacdÉ realmente impossível falar da música moderna brasileira sem citar o nome de Nelson Motta. Como jornalista, compositor e figura de bastidores, ele acumulou histórias e parcerias que renderiam compêndios falando da Bossa Nova, do Rock Nacional e de qualquer outro movimento cultural que tenha acontecido no Brasil nos últimos 50 anos. E é por isso que, no ano que este carioca completa 70 anos, uma homenagem tinha que ser feita. O tributo Nelson 70 é um petisco diante da importância deste senhor que nunca perdeu o ar de garotão. Mas é um petisco muito saboroso, feito com temperos selecionados e que chega bem perto de ser alçado ao posto de prato principal.

Gente como Ed Motta, Gaby Amarantos, Ana Canãs e outros reinterpretam as parcerias de Nelson Motta com nomes tão díspares como Lulu Santos e Dori Caymmi e, na maioria das faixas, buscam dar novo frescor sem perder o cuidado com a qualidade. O resultado é surpreendente, não só por que a concorrência em projetos desse tipo costuma ser fraca. De fato, Nelson 70 é um ótimo trabalho. Vamos ao faixa-a-faixa:

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1. Certas coisas – Parceria com Lulu Santos que tocou e toca à exaustão. Nelson revela que a música foi feita para Roberto Carlos (o tributo traz a história de cada faixa), que negou-se a gravar por que a letra começa com a palavra “não”. Coisas de Roberto. Mas, não tem problema. Lenine tomou a missão para si, cantou com leveza e montou um belo dueto de cordas com a harpista Cristina Braga. O pernambucano já havia cantado a faixa outras vezes e uma dessas interpretações já foi gravada no disco Lonas ao vivo (que ninguém ouviu). Tem cara de oração.

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2. Coisas do Brasil – Outro mega sucesso ainda em rotação, agora em parceria com Guilherme Arantes. Na voz de Ed Motta, essa bossa ganhou acento soul e loops viajantes. Os teclados que duelam com a voz abençoada de Ed são pilotados por Daniel Jobim. O sobrinho do Tim Maia, como sempre, joga suingue e trabalha à própria maneira. A versão original é clássica e a releitura não faz feio, abre novos espaços e ganha no refino.

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3. Nós e o tempo – A única inédita do tributo foi feita por Nelson com sua pupila Marisa Monte e o tribalista César Mendes. Discursando sobre o tempo, algo que parece congelado para Nelson Motta, Marisa brilha ao lado do piano de João Donato (!!!). Ela canta lindamente, acentuando cada sílaba desta valsa. Donato, no auge dos 80 anos, imprime o ponto exato da delicadeza, algo que poucos pianistas conseguem (André Mehmari talvez). Uma bela homenagem que merece ser conhecida.

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4. Como uma onda (Zen surfismo) – Recriar esse clássico composto ao lado de Lulu – uma peça, ainda hoje, obrigatória nos shows do rei do pop – é um missão complicada. Ainda assim, ela foi entregue a Jorge Drexler. O uruguaio segura as pontas numa releitura minimalista, que apenas remete ao original. Uma boa saída que deu ainda mais melancolia à melodia. Melhor que inventar um discurso para criar algo que tirasse o sentido desse bolero havaiano. Sim, o resultado é simpático, mas tem cara de vinheta.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=8mXuUps1Rgg[/youtube]

5. Apaixonada – Feita para a trilha do filme A partilha (2004), essa parceria com Ed Motta é uma das mais belas canções que pouca gente ouviu. O registro original do soulboy é belíssimo, mas encontrou um novo caminho na voz aguda da fadista Cuca Roseta. A presença desta cantora no tributo se explica por que Nelson está produzindo um novo trabalho dela. Cercada de cordas econômicas, a cantora portuguesa dá seu recado intensificando a paixão da letra.

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6. De repente Califórnia – E lá vamos nós para mais uma parceria com o mestre Lulu. Feita em 1982 para o filme Menino do Rio, o bolero havaiano virou um roquinho indie moderninho bem bacana. A responsável pelo novo tratamento é Céu, que atualiza a canção mantendo a marola no ar.

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7. Dancin’ days – Mais uma armadilha de repertório clássico que alguém vem e mete a mão. Lulu já gravou esse discoteque em 1996, mas manteve a ideia original que estourou na voz das Frenéticas. Gaby Amarantos tenta fazer de Dancin’ days um technobrega, mas cria um Frankenstein de pouco apelo. Como proposta, é interessante e Gaby se garante no que faz. Mas, especificamente neste caso, ela pareceu perdida entre o original e as ideias renovadoras.

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8. Perigosa – Mais uma que fez sucesso com as Frenéticas e rivaliza com Dancin’ days o posto de grande hit do grupo feminino. Ana Cañas se sai melhor que Gaby no quesito transformação. O que era disco music, vira um blues contido. Se tivesse sido mais explosiva, Ana teria feito a melhor regravação do tributo. Ainda assim, fez bonito. Vale botar pra tocar.

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9. Areias escaldantes – Mais uma parceria com Lulu, agora refeita por Max de Castro. Sem se desgrudar do original, Max soa pop e feliz como nunca soou. O que é bom, por que o resultado é bacana. Só poderia ter azeitado um pouco mais o solo de guitarra. É mais um caso de “se não tem ideia melhor, vá no básico”. Ele foi e se deu bem.

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10. Você bem sabe – parceria com Djavan de 1988 gravada originalmente pelo alagoano. Limpando os maneirismos típicos, Maria Gadu é a convidada da faixa. Ela veio, gravou e foi pra casa. Sem graça. Não empolga, nem compromete.

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11. Ditos e feitos – parceria com Roberto Menescal, que foi ídolo e professor de violão de Nelson. A letra é belissimamente inspirada. Não sei quem gravou antes, mas aqui é Leo Cavalcanti quem acalenta esta balada. Cuidando de violão e vocais, ele se preocupa em exaltar as palavras. O resultado é bacana e cheio de personalidade, como é o trabalho autoral de Leo.

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12. De onde vens – Tirada do fundo do baú bossanovista de Nelson, essa parceria com Dori Caymmi foi lançada em 1967 por Nara Leão. Não por acaso, é Fernanda Takai quem assume os vocais da regravação. O inseparável John Ulhoa dá uma de “bossacucanova” guiando guitarra, baixo e teclados. Assim como fez em seu tributo a Nara (produzido por Nelson), Takai aproveita para tirar o que pode da voz miúda. Emocionante, sem arroubos.

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13. Marina no ar – Mais uma parceria com Guilherme Arantes, composta em homenagem a Marina Lima. A revelação do pop sintetizado Silva navega bonito entre o original e a suas novas propostas. Belo arranjo e bela interpretação. E vale para apresentar este rapaz a quem ainda não o conhece. Como Silva, de alguma forma, continua o que Guilherme fez na década de 1980, tudo parece fazer sentido.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=LAhX_oOSZK4[/youtube]

14. Noturno carioca – Parceria com Erasmo Carlos registrada no vigoroso Rock’n’roll. A faixa ficou sob responsabilidade da cantora e atriz Laila Garin, que abusou da beleza da própria voz e criou a melhor faixa do álbum. Além da interpretação perfeita, pinçar uma faixa desconhecida foi bem corajoso (se é que foi ideia dela). Melancolia sem tristeza, romance sem excessos e muita elegância é o que ela imprime na faixa. Um belo fechamento para este tributo.