Discografia

Jards Macalé oferece prato saboroso no Banquete dos mendigos

pagina 3Passados 50 anos, muitas histórias da Ditadura Militar continuam esperando o momento de serem reveladas. Uma delas estava registrada há mais de 40 anos em fitas guardadas por Jards Macalé e só agora chega ao público. Trata-se do registro do polêmico Banquete dos mendigos, show realizado em 10 de dezembro 1973 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Verdadeira afronta ao regime militar brasileiro, aquela reunião inédita de astros da MPB chega agora em sua versão completa num box triplo lançado pelo selo carioca Discobertas.

Idealizado pelo compositor carioca, o Banquete dos mendigos nasceu na base do “jeitinho brasileiro” e acabou tornando-se um dos apócrifos da música nacional de protesto. Depois de brigar com a Phonogram, por onde tinha lançado o disco de estreia em 1972, Jards vivia tempos de dificuldades financeiras. Inspirado nos eventos beneficentes que estavam em moda, ele pensou em criar um em benefício próprio e foi falar com Cosme Alves Neto, diretor da cinemateca do MAM, para tentar usar o museu como palco para seu show. Além do “sim” como resposta, o amigo sugeriu que Macalé usasse a exposição sobre os 25 anos da carta da Declaração Universal dos Direitos Humanos como mote para o espetáculo.

O que deveria ser uma apresentação em benefício próprio, tornou-se um megaevento de desobediência civil. Naquele início de anos 1970, falar em direitos humanos era algo perigoso. Com a censura estabelecida e prisões cheias de manifestantes contrários ao regime militar, destacar publicamente um documento que prega que “ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante” e “ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado” seria correr um enorme risco. Ainda assim, a proposta er que as apresentações fossem intercaladas pela leitura do documento que completava 25 anos.

7898599620890Ao todo, 16 estrelas estabelecidas ou em ascensão compareceram ao evento que só foi liberado pelo governo Médici por que a ONU estava envolvida. Ainda assim, o exército cercou o local e acompanhou cada passo dos técnicos. O show acabou sendo gravado clandestinamente pelo técnico de som Maurice Hughes que passava as fitas discretamente para o baixista Bruce Henry, dizendo para os oficiais que eram fitas de eco. Por conta dessa rasteira, preservaram-se áudios antológicos de Paulinho da Viola só com seu violão e Raul Seixas enlouquecendo em Al Capone e Mosca na sopa.

Parte das gravações foi registrada no LP duplo feito em 1974, mas logo impedido de ir às lojas. O principal motivo da censura foi Chico Buarque que protagoniza um dos momentos mais tensos do Banquete, ao dividir com o MPB-4 os versos fortes de Pesadelo (“Você me prende vivo, eu escapo morto”). O disco só foi liberado em 1979, quando acabou gerando outra polêmica. Quando a ditadura já falava em anistia, Jards Macalé levou uma cópia do Banquete para o chefe da casa civil Golbery do Couto e Silva, de quem recebeu de volta um autógrafo no livro Geopolítica brasileira. A troca de mimos foi mal vista por artistas e intelectuais, que logo carimbaram Macalé como adesista. Vivendo uma época de reinvenção política, artística e intelectual, o compositor chegou a comentar o assunto, mas nada de pedir desculpas ou negar posturas. Fiel à própria história como poucos, ele seguiu seu caminho até a próxima reinvenção.

O que estavam fazendo os convidados do banquete em 1973:

gal-costa-india> Gal Costa – Ainda vivendo sua era transgressora, a baiana lançava o provocador álbum Índia, que contava com a faixa Pontos de luz, de Macalé e Waly Salomão.

raul seixas krig ha> Raul Seixas – O roqueiro lançava, enfim, sua estreia solo. Batizado com o grito de guerra de Tarzan, Krig-ha-bandolo chegava com Mosca na sopa, Ouro de tolo e outras.

milton nascimento> Milton Nascimento – Um ano depois do Clube da esquina, Milton compôs Milagre dos peixes. Com oito das 11 letras censuradas, o disco saiu quase todo instrumental.

chico-buarque-calabar> Chico Buarque – Depois de apresentar a peça Calabar, Chico Buarque tentou lançar a trilha sonora composta com Ruy Guerra. Depois de sucessivos problemas, o disco saiu como Chico Canta

gonzaguinha> Gonzaguinha – Logo na estreia, o filho de Luiz Gonzaga foi do cinismo da A felicidade bate a sua porta ao peso de Comportamento geral. Acabou tornando-se alvo costumeiro da censura