Discografia

Roberta Sá baixa o tom em novo disco

Roberta Sá_Foto Daryan Dornelles_média 4Quando estreou na vida artística com o disco Braseiro, Roberta Sá logo ganhou o rótulo de sambista. Integrando uma geração de vozes que renovavam o principal produto de exportação nacional, ela se saiu bem na batucada, mas buscou não se acomodar nesta prateleira. Tentando provar novos sabores do samba, a cantora potiguar foi de trabalhos mais camerísticos até outros de forte apelo pop. Há três anos, ela até olhou com certo desdém para o estilo que a marcou e abordou outros estilos no festivo Segunda Pele. Mas esse afastamento não durou muito.

Em Delírio, disco que ela lança este mês em CD, vinil e digital, Roberta Sá volta ao samba que tanto lhe fez bem. Mas, quem espera o visual alegre e colorido da artista pode se surpreender com a imagem cinza que estampa a capa do sexto disco da intérprete. Seguindo no mesmo tom, Delírio é um trabalho mais melancólico, tristonho, com emoções contidas. “Um disco menos festivo foi uma necessidade de desacelerar.
Queria ficar menos ansiosa e comecei a me voltar mais pro meu canto”, explica a artista que também atribui o cinza do novo trabalho à influência que tem recebido de Portugal, país onde que ela tem visitado com frequência.

unnamedEssa melancolia lusitana está bem expressada em Covardia, samba de Ataulpho Alves e Mário Lago, que ganhou ritmo de fado no dueto que Roberta gravou com Antonio Zambujo. Além do músico português, outros três convidados passeiam por Delírio. Martinho da Vila é autor de Amanhã É Sábado, samba inédito feito a pedido da cantora. Xande de Pilares afasta o clima nublado do disco na ritmada Boca em Boca. E Chico Buarque dá mais brilho a Se For Pra Mentir, de Arnaldo Antunes e Cezar Mendes. “Nem era minha intenção ter três convidados. Mas, já que o disco fala do universo feminino, chamei três homens que amam as mulheres abertamente. Eles falam delas o tempo inteiro”, brinca a cantora.

Segundo Roberta Sá, as idéias para Delírio se baseavam em três pontos. Primeiro, que fosse um disco que valorizasse o canto, que fosse menos dançado e mais sentido. Segundo, que falasse do universo feminino, algo que, segundo ela, anda em falta. Terceiro, que fosse o menos editado possível. “Já que teria menos instrumentos, podia gravar mais junto. Depois, editar pouco, para que pudesse ter uma sensação de que foi ao vivo”. Já a melancolia, ela atribui à experiência que veio com a idade (ela faz 35 anos em dezembro). Dando voz a uma das mais tristes despedidas da MPB, o samba Última Forma, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, ela explica: “você tem que ter vivido pra poder cantar uma canção dessas”. Mas nada a impede de voltar em breve às cores mais quentes e festivas da música brasileira. “Não diria que é uma mudança definitiva. Nada é definitivo. É só uma maneira de caminhar. Depois desse disco, talvez vá para outro caminho”.

Serviço:
Roberta Sá – Delírio
Participações de Chico Buarque, Martinho da Vila, Antonio Zambujo e outros
11 faixas
Som Livre/MP,B Discos
Preço médio: R$ 21,90

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=K5WgoiYptnQ[/youtube]

Discografia da melancolia:
Braseiro (2005)
Com forte pegada percussiva, Braseiro também teve seus momentos melancólicos. Além de da regravação de Casa Pré-Fabricada (Los Hermanos), Valsa da Solidão, de Paulinho da Viola, é de arrancar lágrimas.

Que belo estranho dia pra se ter alegria (2007)
Querendo modernidade, o segundo disco de Roberta Sá mistura percussão eletrônica com sopro e cavaquinho. Aqui a tristeza se transforma em esperança em Cansei de Esperar Você, de Ivone Lara e Délcio Carvalho.

Pra se ter alegria (2009)
Neste primeiro disco ao vivo, não houve muito espaço para a tristeza. Ainda assim, o dueto de voz e bandolim com Hamilton de Holanda em Novo amor garante a emoção e mantém a respiração em suspenso.

Quando o canto é reza (2010)
Elogiada parceria com as cordas do Trio Madeira Brasil, o disco remete às tradicionais rodas de choro. Só com canções de Roque Ferreira, o tributo inclui momentos tocantes como Orixá de Frente e Marejada.

Segunda Pele (2012)
A ideia era mostrar nem só de samba se um disco de Roberta Sá. Festivo da capa ao repertório, Segunda Pele tem frevos e outros sons. Ainda assim, o coração aperta nas primeiras notas de Você Não Poderia Surgir Agora.