Discografia

As nuvens pesadas de Juliano Gauche

JULIANO GAUCHE 2 crédito Nino Andres

“Eu fico muito esquisito quando abro meu coração e só me resta, agora, correr como quem morre de medo”. Jogada no meio da faixa Muito Esquisito, a frase de Juliano Gauche é um resumo de como funciona a mente deste cantor e compositor. Desconfortável no mundo e atormentado no palavreado, ele usa a música como uma fórmula de escapar das armadilhas criadas pela própria mente.

Esse desafogar de sentimentos é a tônica de Nas Estâncias de Dzyan, segundo disco da carreira solo de Juliano Gauche. “Não gosto disso, não sei por que. Música não se faz sozinho. Mas, como uso meu nome, é o termo que se usa”, implica ele com o termo “carreira solo”. E há motivo para isso. O álbum de 29 minutos divididos em nove faixas teve contribuições decisivas de Tatá Aeroplano e Junior Boca, responsáveis pelos arranjos e escolha da banda que acompanha o cantor desde o trabalho anterior – o independente Juliano Gauche, de 2013.

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Por falar em banda, a carreira deste capixaba de Ecoporanga começou em Vitória, onde ele integrou a banda Solana. Três discos (elogiados) depois, ele seguiu com um trabalho assinado com o próprio nome, que ainda rendeu uma homenagem a Sérgio Sampaio dividida com os violões do Duo Zebedeu. O tributo Hoje Não foi lançado virtualmente em 2009 e casou as melancolias de Gauche com as do homenageado. “Eu não o conhecia profundamente. Mas, realmente, achei que a gente passa por coisas parecidas. Como o gosto por um tipo de poesia muito próxima”, confessa.

capaSe Sérgio Sampaio sofria com a incompreensão e o alcoolismo, Gauche também tem seus dramas internos. “Se eu disser que minha vida foi uma festa estou mentindo. Sempre teve essa nuvem negra”, assume o músico que abre Nas Estâncias de Dzyan com um questionamento: “como eu ia saber se tudo começou sem mim com hora pra acabar?”. E o disco segue falando sobre perdas, sorrisos amarelos e sensações de incompletude. Para dar corpo às letras densas e fortes, a sonoridade remete a um rock simples com referências pouco claras. “Eu me considero meio filho dos anos 1960 e 70, da contracultura. Isso sempre me prendeu, sou muito fã desse período”.

Caminhando sempre perto do abismo, Juliano Gauche faz música como quem quer curar uma ferida. “Sim, tudo isso vai desmanchar assim que um vento mais forte chegar”, avisa em Canção do Mundo Maior o artista que já viveu muito preocupado com a própria morte. “Já fui mais porra louca e realmente achava que eu poderia ter um piripaque a qualquer momento e ir embora”, comenta ele que sempre ouviu conselhos para fazer terapia. “Todo mundo fala isso. Acho que o terapeuta iria se divertir muito comigo, por que é muita paranoia. De verdade, acho que preciso. Mas, hoje não me sinto tão paranoico. Não sei se é por que casei”.

Ainda que o matrimônio tenha trazido certo alívio (a esposa dele também sugere a terapia), é mesmo na música que ele despeja as incompletudes e aflições. “Talvez a música seja a minha terapia. Talvez seja a minha forma de lidar com isso. É na música onde chove tudo. Quando escrevo, acho que ninguém vai entender, mas sempre acaba virando alguma saia justa”, lamenta pouco antes de encerrar a conversa. “Está ótimo, se não você vai puxar outras loucuras e a gente pode ter que falar de alienígenas”.