Discografia

Simone faz show a R$1 em Fortaleza

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Aos 66 anos de vida, Simone decidiu ter muita gente na sua festa que comemora seus 40 de carreira. Para isso, montou um show que fosse acessível para todos aqueles que acompanharam sua história. R$ 1 é quanto custa a entrada para a turnê É Melhor Ser, que chega hoje para única apresentação no teatro RioMar. E ainda tem direito a meia entrada.

O show É Melhor Ser nasceu em 2013 para celebrar as quatro décadas do disco de estreia da baiana. Este ano, a apresentação também comemora os 40 anos da participação de Simone na trilha do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, onde gravou O que será. Cercada de uma banda formada por João Gaspar (guitarra, violão), Rômulo Gomes (baixo), Christiano Galvão (bateria) e José Leal (percussão), ela lembra essas e muitas outras canções que marcaram sua carreira. A seguir, confiram detalhes deste espetáculo e desses 40 anos de música na voz de sua intérprete.

O POVO – Queria que você começasse falando da concepção deste show comemorativo, repertório. O que o público vai assistir?

Simone – Sempre me preocupei muito com isso. É importantíssimo pra mim ser conduzida, ter a visão do diretor, de fora, que sempre aponta para uma argumentação  muito saudável. Prova disso é que já fui dirigida por Flávio Rangel, Zé Possi Neto, Ney Matogrosso, entre tantos outros. Para este show, eu queria ter o olhar feminino, queria uma pessoa de teatro, que olhasse para mim e me visse. E foi exatamente o que a Torloni fez. Ela é uma pessoa da arena, uma grande atriz, e tem esse universo que eu queria mostrar. Ela me olhava e me via. E a cenografia do Helio Eichbauer, orgânica e também muito feminina, reitera isso. Minha carreira foi muito construída no palco, ali não há intermediário, é o contato direto com o público.

O POVO – Seu show é baseado no disco É Melhor Ser, que é feito de compositoras. Como você vê o papel da mulher nesse cenário?

Simone – Acho que nos últimos 40 anos, a partir dos anos 70, meu tempo de carreira, houve um florescimento muito grande de compositoras. Até então, isto não era muito comum, a composição no Brasil era quase exclusiva dos homens. As mulheres, tradicionalmente, eram as intérpretes. Enfim, houve uma vontade de homenagear estas mulheres de vanguarda, guerreiras, amantes e, acima de tudo, grandes artistas. E com isso, ao mesmo tempo, lançar um olhar sobre o meu ofício, minha trajetória nestas quatro décadas. Mas nesta segunda etapa da turnê, os rapazes também estão presentes. Bituca, Chico, Martinho, Ivan…

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O POVO – Como nasceu a idéia de fazer um show a R$1?

Simone – O preço por vezes acaba afastando o público que tem muita vontade de ir ao show, mas nem sempre consegue. A oportunidade de apresentar o meu espetáculo completo, tal como ele foi concebido, cobrando um valor simbólico e rodar por todo o País é muito emocionante. São meses na estrada, próxima ao coração do povo brasileiro. Era um sonho bem antigo. Sempre me apresentei para grandes plateias, fiz muitos shows ao ar livre, mas uma turnê com concepção, luz e cenografia de teatro, praticamente gratuita, será a primeira vez. Recebo patrocínio para shows há muito pouco tempo, desde 2009. Este é a minha segunda turnê patrocinada e, quando saiu, no início do ano passado, sentenciei: vai ser agora! E, por mim, só seria assim daqui pra frente.

O POVO – Como tem sido a resposta dessa nova turnê?

Simone – Impressionante! Apresentei este show em várias cidades e, em todas elas, os ingressos acabaram em minutos! Inclusive em Fortaleza, que nem viu o show ainda.

O POVO – Para o grande público, fica uma impressão de que qualquer artista teria condições de se apresentar a preços populares. O que muda em relação à montagem que não conta com bilheteria para se viabilizar? 

Simone – O patrocínio, sem dúvida, é fundamental pra isso. Os custos de uma turnê nacional no Brasil são altíssimos. No meu caso, não foi mais fácil, pois recebi patrocínio inicialmente para uma turnê convencional, eu que tive a ideia de transformá-la em popular.

O POVO – Sendo uma grande estrela da música brasileira, 40 anos de carreira cobrando apenas R$1 por um show não incomoda teu ego?

Simone – Estranho por quê? Muito pelo contrário, só fez muito bem ao meu ego proporcionar isto para as pessoas. Foi uma decisão minha, uma forma retribuir tanto carinho e fidelidade do público durante todos esses anos. E num País como o nosso, com tantos problemas sociais, é lindo ir até pessoas.

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O POVO – Com os ingressos desse preço, quem tem frequentado seus shows?

Simone – Um público muito diverso. E é muito bom ter na minha plateia pessoas que nunca haviam entrado num teatro na vida.

O POVO – Como nasceram suas composições do disco É Melhor Ser? Sendo uma compositora bissexta, o que te leva a criar uma música?

Simone – Em geral, minhas composições eu não mostro pra ninguém, nem pra mim. Sou muito tímida com isso. Tenho uma parceria com Herminio, de 76, que fiz a melodia e um esboço da ideia da letra, que era uma “resposta” à Proposta, do Roberto. Depois a entreguei pra ele resolver algumas passagens da letra e só no disco Na Veia, de 2009, me liberei pra gravar. No É melhor ser aumentou um pouquinho, já foram duas: uma com a Zélia, grande amiga e parceira, e a carta que a Fernanda Montenegro escreveu pra mim. Daí criei coragem e fiz a melodia. Ultimamente, estou me reaproximando do violão. Pode ser que venham algumas coisas por aí. O que me leva a criar uma música é um impulso natural que não sei definir racionalmente.

O POVO – Nesses 40 anos de carreira, você passou por muitas épocas, incluindo uma extremamente popular com shows gigantescos. Como está a Simone hoje?

Simone – Minha forma de escolher repertório nunca mudou muito: canto o que quero! É claro que muita coisa mudou, os códigos deste mercado mudaram, mas sigo honesta com meu trabalho, fazendo de verdade. Talvez isso explique uma carreira tão longa.

O POVO – O que mais mudou na sua carreira ao longo dessas décadas?

Simone – Pra mim, na essência, nada. Faço com a mesma paixão e o público me responde com a mesma intensidade de sempre. É isso que me interessa.

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O POVO – Durante os anos 1980, muitas capas dos seus discos apostavam num lado sensual, decotes e poses provocantes. Aos 66 anos e sendo uma mulher muito bonita, você ainda se vê como uma mulher sensual? 

Simone – Claro que sim. E me sinto muito bem com a idade que tenho. Isso não é um peso. A sabedoria e a tranquilidade que o tempo traz não tem preço. E poder chegar até aqui muito bem fisicamente é uma benção.

O POVO – Sendo uma grande vendedora de discos, o que você pensa desse momento da indústria da música em que o suporte físico está perdendo espaço? 

Simone – Isso é normal, nenhum formato é eterno. E, paralelo a isso, nunca se ouviu tanta música. Os formatos passam, a música fica. Ouço de várias maneiras, de CD a streaming.

O POVO – Seu último disco já tem três anos desde que foi lançado. Já existe planos para um novo álbum?

Simone – Tenho sim. No ano que vem conversamos…rs