Discografia

João Fênix volta ao começo em disco de intérprete

capa-digital-joao-fenix-de-volta-ao-comecoExistem muitas portas de entrada para o trabalho de João Fênix. Pode ser sua aguda voz de contratenor, seu repertório refinado, sua veia de compositor, o estilo performático dos seus shows. Completando 15 anos de estrada, o pernambucano radicado em Washington resolveu facilitar o acesso de novos fãs com um trabalho de intérprete.

De Volta ao Começo é o primeiro disco do artista lançado pela Biscoito Fino, que mantém uma tradição como selo de qualidade. A produção foi dividida por Jaime Alem e JR Tostoi e teve direção do próprio Fênix – que foi batizado como João Oliveira. A banda que o acompanha traz estrelas da cena instrumental como Alberto Continentino, Marcos Suzano e Nicolas Krassik.

O nome De volta ao Começo, emprestado de uma canção de Gonzaguinha, indica uma marcha a ré na obra de João Fênix. A ideia é um retorno ao período em que o artista era exclusivamente intérprete. Dono de uma voz aguda e cuidadosamente afinada, essa porção é essencial para dar personalidade às suas canções.

O repertório deste quinto de disco de Fênix reúne 11 canções que podem ser acompanhadas por muitos públicos que curtem MPB. Raros são os momentos que puxam um pouco mais da memória ou que desafiam os conhecimentos do ouvinte. Este set list é um ponto negativo num trabalho pouco instigante.

Zeca Baleiro (Minha Casa), Luiz Gonzaga (com Zé Dantas, Riacho do Navio), Chico Buarque (com Gilberto Gil, Cálice), Noel Rosa (Último Desejo) e Gonzaguinha (na faixa título) compõem o time de obviedades que pouco ganharam nestas releituras. Elomar (Arrumação), Milton Nascimento (com Fernando Brant, A Feminina Voz do Cantor), Nelson Cavaquinho (Minha Festa) e Pixinguinha (com gastão Viana, Yaô) parecem melhor representados em canções menos conhecidas. Os grandes desafios ficam com Motriz, de Caetano Veloso lançada por Bethânia no disco Ciclo (1983), e Língua do P, canção de Gil registrada com maestria por Gal Costa em Legal (1970). Esta última até aponta para uma futura homenagem que Fênix fará à baiana, ainda sem mais detalhes.

Não, um disco de intérprete não deve ser um quiz que desafia o conhecimento enciclopédico de ouvinte. Mas um repertório já combalido por dezenas de regravações é subestimar a capacidade do ouvinte de conhecer novas melodias. Sim, e aquele argumento de cantar “canções que marcaram minha vida, que minha mãe cantava, que tocavam na minha casa” não funciona, uma vez que , em meio a uma carreira, mesmo os projetos despretensiosos são cheios de pretensão.

O fato é que João Fênix ainda busca uma cara para sua carreira. Ele é cheio de méritos, mas ainda não encontrou o repertório, o produtor e o projeto que vai tirar dele tudo que o tem a oferecer. Como intérprete ou compositor, ele parece sempre bater na trave. As interpretações são muito corretas, sem o calor do risco. Como compositor não foge disso. As comparações com Ney Matogrosso parecem óbvias quando se leva em conta os shows performáticos e a voz aguda. Mas nem de longe ele roça o prazer do desafio que move o ídolo sul-mato-grossense. João Fênix tem estrada, experiência e boa voz. Talvez falte a ele dar mais atenção às críticas do que aos elogios.