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O que fazer e o que não fazer com Adriano Grineberg

Fotos: Chico Gadelha

Após os dias de Carnaval em Guaramiranga, o Festival de Jazz e Blues estreou sua programação em Fortaleza na noite de ontem, 2, com shows no Cineteatro São Luiz e no Dragão do Mar. No Cineteatro, quem comandou a festa foi o tecladista paulistano Adriano Grineberg, visivelmente emocionado.

Parte dessa emoção, ele mesmo contou e repetiu no palco, era devido ao seu retorno ao Festival. Sua primeira vinda foi em 2002, para um hiper show inesquecível que reuniu Nasi, Flávio Guimarães, Bocato e mais uma turma de mestres. Estive nessa apresentação e posso garantir que quem viu viu, quem não viu não verá nunca mais.

Em 2017, Grineberg chega como bandleader e assume os erros e acertos (em bem maior quantidade) da sua apresentação. Com um figurino preparado para a serra, o músico com 25 anos de experiência investiu pesado na interação com o público ao invés de focar em longas viagens instrumentais.

Esbajando simpatia, ele montou um set list enxuto, enérgico e de fácil empatia. Entre muitos improvisos, o repertório misturou canções bem conhecidas com outras de própria composição. Entre outros, teve Tim Maia, Beatles, Dominguinhos e Luiz Gonzaga. O equilíbrio foi perfeito e manteve o público (que ocupou cerca de 60% da plateia, levando em conta que o andar superior estava fechado) atento ao show.

No show, que também foi apresentado na terça-feira, 28, em Guaramiranga, Adriano recebeu o músico Mamour Ba e seu filho Elhadji Cheikh. Percussionista senegalês, Mamour proporcionou a este humilde escrevente um dos momentos mais catárticos como espectador de shows quando entrou em cena. A força simbólica, presencial e musical que ele trouxe ao palco foi inigualável. A integração com a banda – roqueira formada por Fabá Jimenez (guitarra), Rodrigo Jofré (baixo) e Marco da Costa (bateria), todos ótimos – era impressionante.

Todos no palco pareciam felizes com o que acontecia ali. Mamour, à frente, botou a platéia ao seus pés. Também cantor, ele demonstrava reverencia e respeito ritualístico à música. A força dos tambores de Alhadji batiam fundo e fez Marco da Costa se levantar para reverenciar o jovem músico. Mamour apenas sentia orgulho.

A segunda convidada da noite era uma antítese do que foi o primeiro. Se o primeiro é música como oração, Ana Cañas faz música com explosão. Dona de um grito bonito, a paulistana charmosa entrou pra animar a festa (que já estava animada) e era o principal chamariz da apresentação de Grineberg, que já a acompanha há um tempo.

É aqui que acontece um pecado latente do show. Cañas e Mamour estavam no mesmo palco, mas não se completavam. Ela entrou como uma tormenta e voou às bandas com a paz do senegalês. Quando ela entrou, ele até tentou fazer sua parte, mas os olhares já tinham outro rumo e Mamour ficou só de figurante. Nem sua percussão aparecia em meio ao peso do set dela. Bastava que ele saísse e voltasse ao final do show para tudo parecesse no seu lugar.

No repertório de Ana, pérolas de Cazuza (Blues da Piedade), Beatles (With a Little Help From My Friend, no famoso arranjo de Joe Cocker) e Led Zeppelin (Rock And Roll). Com a voz cheia de reverb, a cantora posa bem de roqueira, embora ainda lhe falte pegada para tanto e um trabalho que a credencie. Outro pecado: para aproveitar a presença de um nome pop, Ana e Grineberg mandaram uma versão improvisada de Pra você Guardei o Amor, que destoou do clima e da proposta da apresentação.

No entanto, como já disse, o show de Adriano Grineberg foi mais de acertos que erros. Aliás, não seriam erros, mas tentativas sinceras de acerto. O encerramento com With A Little Help From My Friend foi épico, e melhor seria se Mamour e Elhadji tivessem sido melhor aproveitados.

Anfiteatro do Dragão


Terminada a apresentação no São Luiz, Adriano Grineberg tomou um teletransporte para o Anfiteatro do centro Dragão do Mar para integrar a banda de Corey Harris. O norte-americano de Denver é reconhecido na cena blueseira como um defensor da guitarra acústica, instrumento que ele toca com maestria. Sem nenhum hit na manga, mas uma super banda e um carisma vindo dos céus, o músico de 48 anos segurou um público pequeno, mas empolgado, numa apresentação embaixo de chuva. Até nos momentos solo, a plateia acompanhava atenta e respondia com gritos e palmas. Sem firulas, apenas boa música Corey provou com simplicidade que merece ser mais conhecido e voltar em breve para Fortaleza.