Discografia

Fafá de Belém apresenta novo disco em Fortaleza

Em 40 anos de carreira, Fafá de Belém já foi muitas. Foi eclética na estreia com Tamba-Tajá; hitmaker popular na segunda metade dos anos 1980; crooner elegante em 2000, no disco que traz seu nome de batismo na capa; e até se aventurou num show de repertório roqueiro. Com 60 anos completados no ano passado, a intérprete paraense não se priva de testar, mesmo que isso lhe renda críticas severas.

E foi desse desejo de ousar que nasceu o disco Do Tamanho Certo Para o Meu Sorriso. Apresentado há uma semana, Teatro RioMar, o show traz a paraense em um novo e inspirado momento. Dividido com conterrâneos Felipe e Manoel Cordeiro, o álbum conquistou prêmios e elogios com um show cheio de frescor e amores derramados. Projeto que celebrou os 40 anos de carreira da paraense, o disco traz coloridos e balanços irresistíveis que, no palco, se misturam com os sucessos de Fafá.

O POVO – Seu mais novo disco representou uma renovação de som e estética. Como ele foi pensado?
Fafá – O olhar sobre este trabalho, uns três anos antes de fazê-lo, já tinha em mente trazer alguma coisa de frescor. Eu me reinventei aos 60 anos, mas com todos os medos e receios que isso traz. Eu já tinha em mente fazer um trabalho com Felipe e Manoel (Cordeiro), eles já tocaram comigo em algumas situações, aqui no Brasil e no exterior também. Então, foi mais delicioso do que poderia imaginar gravar com eles.

DISCOGRAFIA – Quando conversamos sobre o disco, você falou que ficou apreensiva de gravar um álbum só com dois músicos. Como tem sido subir ao palco só com esses dois músicos?
Fafá – Fiquei, sim, apreensiva porque o meu modelo era um modelo tradicional. Mas, o que preenche um palco não é a quantidade de músicos. É a sonoridade, a intenção, a emoção e a música. A receptividade tem sido fabulosa, tenho feito espetáculos em espaços pra mais de três, quatro, cinco mil pessoas que terminam dançando, felizes, que é a intenção deste trabalho.

DISCOGRAFIA – Nos anos 80, você vendeu muito disco com um repertório hoje considerado brega. Agora você canta uma música chamada Meu Coração é Brega. É uma resposta para alguém quem te criticou?
Fafá – Na época, eu era muito menina e me assustei com a violência que foi em cima de mim apenas por ter feito a escolha de um repertório popular. Mas a maturidade traz pra gente um olhar maior, melhor. A expectativa de alguns pode não ser a minha e eu sempre sigo as coisas em que eu acredito, da forma que acredito. Venho de uma região colorida, politicamente incorreta, de emoção exposta. Ou seja, nosso coração é brega.

DISCOGRAFIA – Do tamanho Certo para o Meu Sorriso ganhou prêmio de melhor disco e te deu melhor cantora. Já existe plano para um novo trabalho inédito?
Fafá – Eu não penso a longo prazo e não gosto de estúdio. Preciso ter na cabeça muito bem o que vai me emocionar para fazer dentro de um estúdio. Estamos lançando agora o DVD e posso ou não fazer um outro trabalho inédito no ano que vem. Aí vai depender dos caminhos do meu coração.

DISCOGRAFIA – Sua relação com a música produzida hoje no Pará mudou depois desse trabalho?
Fafá – Não entendi a pergunta… Eu, há 42 anos, trouxe a sonoridade, o repertório e a música feita no Pará. Do erudito ao carimbó. Acompanho sempre o que acontece lá, não deixo de acompanhar. Até porque a gente sai do Pará, mas o Pará não sai da gente. Então, não entendi o contexto da pergunta.

DISCOGRAFIA – Como você vê o termo “technobrega”?
Fafá – Um evolução, uma decorrência, uma sequencia dos shows das aparelhagens que eram feitos pelas famílias que alugavam aparelhagens de som, cercavam uma rua, colocavam ali pra tocar, chamavam um DJ das rádios… Isso virou o technobrega, que hoje é um movimento de periferia do Pará. Eu ouço, mas não sei se gosto. Acho que é bom pra dançar mas não é intenção minha fazer um disco com essa sonoridade. Acho bacana, representa bem a periferia do Pará, mas não é a minha. Ir a um baile até pra dançar, tudo bem. Mas cantar não.

DISCOGRAFIA – Como uma artista que viveu intensamente as liberdades dos anos 70 vê essa geração do politicamente correto?
Fafá – Eu olho e vejo uma involução das liberdades individuais embora pregando por elas. Acho uma caretice querer que o outro seja igual a você. Acho que cada um tem um movimento. Então, nesse sentido, houve uma involução das liberdades individuais. Acho tudo muito careta, formatado. É isso ou aquilo. O Brasil não é isso ou aquilo, o ser humano não é isso e aquilo. É muito mais.

DISCOGRAFIA – Além da música, a política sempre marcou sua trajetória. Sua imagem foi muito ligada a Tancredo Neves e ao movimento das Diretas. Curiosamente, agora o neto de Tancredo está envolvido em muitas denúncias e as ruas voltaram a gritar “diretas já”. Que análise você faz da política brasileira atual?
Fafá – Bom, se formos olhar pra trás de cada um deles que está por aí nos últimos 15 anos, está tudo muito complicado. Eu acho que estamos em uma evolução. Nossa democracia é muito jovem. E essa evolução tem que ser muito articulada, pensada. Assim como uma criança, quando começa a andar, tropeça e cai, eu já vi crises maiores no Brasil, porém com um foco mais amplo, vamos dizer assim. Acho que a gente vai tropeçar muito ainda, mas é saudável. Já, já a gente começa a correr e andar de bicicleta. Só não vejo que possamos andar, minimamente, com passos seguros ou de bicicleta, com nenhum deles que aí está no plano nacional.

DISCOGRAFIA – Se arrepende de algum ato ou opinião dada nesse período de transição democrática, quando você apoiou abertamente Tancredo Neves?
Fafá – Eu não entendi a pergunta. O que apoiei foi a causa democrática. E pra atingirmos a democracia nós tínhamos que passar, pela última vez, pelo Colégio Eleitoral. Não me arrependo de nada. Tudo o que eu fiz foi o que eu acreditava, perfeitamente, para a construção do novo momento brasileiro que era a transição da ditadura para a democracia.

DISCOGRAFIA – O que tem de político no show Do tamanho Certo para o meu Sorriso?
Fafá – A política da felicidade, que é o destino do brasileiro.

DISCOGRAFIA – Esse ano, você iniciou os ensaios para trabalhar como atriz na peça O Homem de La Mancha. Como tem sido essa experiência?
Fafá – Maravilhoso. Eu fiz teatro quando adolescente e poder voltar aos palcos com a direção de Miguel Fallabella é um luxo, num espetáculo maravilhoso sobre a obra de Cervantes

DISCOGRAFIA – Esse ano, você também recebeu convite para ter um segundo encontro com o papa Francisco. Ele é o terceiro papa com quem você se encontra. Você tem um carinho especial por algum deles? Por quê?
Fafá – O papa Francisco é um ícone moderno de defesa das liberdades individuais e trouxe, fundamentalmente, uma mensagem de reflexão sobre o que é a fé para os povos de todas as religiões. O que é humano, o que é o outro. É a terceira vez em que eu me encontro com ele.

DISCOGRAFIA – Em 2015, você apresentou o show Inusitado e um repertório de rock com Michael Sullivan, Renato Barros e Caetano Veloso. Que ligação você vê desses nomes com o rock?
Fafá – O show tinha 17 canções e não me afastei, totalmente da MPB. Foram incluídas versões mais pesadas de Naturalmente (Caetano Veloso/ João Donato) e, por exemplo, de Apaixonada (Michael Sullivan/ Paulo Sérgio Valle). Mas, no roteiro, tinha Plebe Rude, Legião Urbana, Pitty, Cazuza. Além de ter uma canção, Robusta, feita pra mim pelos Titãs.