Discografia

Paralamas do Sucesso se mantém fieis à própria obra em Sinais do Sim

Foto: Mauricio Valladares

Nem todo mundo pode ter percebido, mas os Paralamas do Sucesso têm uma relação muito próxima com as artes plásticas. Em 1994, eles lançaram o disco Severino onde se voltaram para os traços típicos (e mazelas) do Nordeste. A capa e o encarte eram ilustrados com obras de Arthur Bispo do Rosário, interno da Colônia Juliano Moreira que construía suas peças a partir de restos de lençóis, latas e madeira. Dois anos depois, o encarte de 9 Luas mais parecia um catálogo de exposição, com a descrição das diversas obras impressas. Em Hey Na Na (1998) foi a vez de Barrão estampar o rosto feito de madeira e tampinha de garrafa que sorri na capa.

Barrão, carioca integrante da histórica mostra Como vai você, geração 80?, voltou a ceder uma obra para estampar o novo disco do trio. Sinais do Sim, 13º álbum de inéditas de Herbert, Bi e Barone, vem com a obra Já Fui Jarro – que consiste em uma série de jarros de resina posta sobre um corpo de cachorro – na capa. “Esse totem que parece que tem uns dois metros. Não quer dizer nada (em relação ao disco), mas é misterioso. É esteticamente bonito, uma proposta ousada”, analisa o baixista Bi Ribeiro por telefone.

Como afirma o músico, a capa de Sinais do Sim não traz um sentido embutido, um conceito escondido ou uma mensagem subliminar. Da mesma forma que as 11 faixas do primeiro disco de inéditas lançadas pelo grupo em oito anos. Passada a turnê de Brasil Afora (2009), que rendeu CD e DVD ao vivo, eles montaram outra turnê, dessa vez para celebrar os 30 anos de carreira – e gravaram outro CD e DVD ao vivo. “Fazer show que é nosso principal objetivo, é a nossa vida”, admite Bi que, há uns dois anos, começou a encontrar os amigos no estúdio de João Barone para “jogar umas notas fora, conversar sobre a vida”.

Com Herbert Vianna sempre escrevendo algo novo, eles “foram reunindo material, interpretando de alguma forma, dando ideias. A gente não tem obrigação de lançar um disco. Quando a gente entende que tem um material interessante, que tem uma personalidade, a gente lançar”, explica ele que, falando pela banda, ainda entende o formato de disco como algo que agrada mais na hora de lançar novidades. “Ainda vemos isso como um álbum, esse conjunto de músicas. Hoje as pessoas lançam faixas aos poucos. A gente ainda vê esse conjunto formando um álbum, uma safra, essa última saiu toda nessa garrafa”, explica.

E a safra presente em Sinais do Sim é exatamente o que se espera de um disco dos Paralamas do Sucesso. Os músicos são os mesmos presentes na ficha técnica há algumas décadas. Nomes como João Fera nos teclados, Bidu Cordeiro e Monteiro Jr nos sopros. As novidades (sutis) ficam por conta das presenças de um ou outro músico, como Pupillo (Nação Zumbi) na percussão, Duo Santoro no violoncelo e Maurício Barros (Barão Vermelho) nos teclados. A produção é Mário Caldato Jr. (Beastie Boys e Planet Hemp) junto com o trio.

Dezesseis anos depois de sofrer um acidente que o deixou preso a uma cadeira de rodas, Herbert Vianna se esforça para manter a positividade. “Ver o nascer de um novo dia não parece tão ruim”, diz ele na faixa título. Mas também há espaço para falar sobre as violências do presente em Medo do Medo. “O Hermano Vianna mostrou essa e a gente gostou na hora. A letra a gente deu uma adaptada. A música é de 2007, mas ainda é muito atual”, comenta Bi apontando que, mesmo com toda a positividade, sabe que Herbert, o letrista oficial dos Paralamas, tem seus momentos de baixa. “O Herbert escreve essas letras e é a própria vida dele que está ali. Ele tem uma vida muito difícil por estar na cadeira, mas ele tem essa necessidade de ver a coisa da melhor forma possível”.

Faixa a faixa:
Sinais do sim
A letra prega a crença na esperança e no amor. O jogo de guitarras é o destaque de uma faixa que resume quem são os Paralamas hoje.

Itaquaquecetuba
Com acento funk e letra recitada, a música fala sobre a confusão de uma banda se localizar na estrada. Ótimo arranjo.

Medo do Medo
Lista quilométrica dos medos da contemporaneidade. Composta pela rapper portuguesa Capicua, a faixa se encaixa bem no Brasil atual.

Não posso mais
Música de Nando Reis, fala sobre o amor a partir dos jogos de palavras típicos do ex-Titã. Te um quê de The Doors no arranjo rock.

Teu Olhar
Típica balada romântica paralamica. A letra é fraca, mas tenta compensar no refrão. Poderia estar em Longo Caminho, por exemplo. O Duo Santoro faz o clima.

Contraste
Herbert dispara longos e sofridos solos de guitarra numa faixa de tons amargos. A percussão de Pupillo (Nação Zumbi) está presente nos detalhes.

Cuando Pase el Tambor
Tributo a Gustavo Cerati, vocal e guitarra da banda argentina Soda Estereo, falecido em 2014. De música Ligeira (presente em 9 Luas) também é dele.

Corredor
Destaque do álbum, o rock de ar stoniano tem guitarras discretas conversando com o piano certeiro de Maurício Barros. Os sopros ajudam a jogar tudo pra cima.

Blow The Wind
A faixa composta em inglês por Herbert lembra George Harrison. Do desespero, ele procura formas de recuperar o fôlego. A positividade está presente no clima.

Olha a Gente Aí
Rock pra cima, a faixa mostra que o trio está vivo, na rua, “virando o planeta do avesso”. Com citação de Fernando Pessoa, a faixa deve fazer sucesso nos shows.

Sempre Assim
Reggaezinho inocente falando sobre a solidão em rimas óbvias. A voz de Herbert exala tristeza adolescente, reforçada pelo trombone de Bidu Cordeiro