Discografia

Rodger Rogério: 74 anos de um mestre da cultura, do melhor do Ceará

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Fotos: Gerardo Barbosa Filho

Por Dalwton Moura

Em uma semana em que os brasileiros discutiram com quantas “convicções” se faz uma condenação às pressas e à força, em que os cearenses se despediram do sorriso e da prosa de Seu Juarez e choraram a morte de tantos em um crime tão chocante quanto covarde, difícil buscar forças para seguir. Quem diria que um exemplo de resistência, amizade, talento, esperança, beleza, coletividade, do que há de melhor neste mesmo Ceará, viria nestes mesmos dias de chuva, tristeza e desalento?

Pois para os que lotaram no começo da noite deste domingo, 28, o Cantinho do Frango, na sua simplicidade um verdadeiro “cantinho” da memória e do presente da música de Fortaleza, assumindo o bastão de espaços como o Cais Bar e o The Wall, a semana se encerrou um pouco mais leve e esperançosa. Em clima de orgulho de ser do Ceará. De renovar forças pra continuar e compromisso para perseguir o sonho. A utopia de fazer valer o simples direito de todos, em todos os bairros da cidade partida e esfacelada, poderem um dia desfrutar a paz, a arte, o encontro, o conhecer-se e o reconhecer-se.

O bardo Rodger Rogério, compositor e intérprete originalíssimo, no auge da verve de seu canto, sua presença cênica, sua força dramática, chegou neste domingo aos 74 anos e achou por bem comemorar junto aos que mais ama: os amigos músicos e o público. E o espaço ficou pequeno para tanta música, tantos amores. Irmão, filhas, parceiros de composição, espectadores fieis e até o pequeno sobrinho João Franco, de oito anos de idade, que arrancou muitos aplausos ao cantar três canções e mostrar que o clã musical dos Rogério já tem um novo e poderoso cantor.

“O nosso amor é um escuro bar…”. Como no tango escrito por Rodger e Fausto Nilo sob os tempos de uma outra ditadura, canções e vozes se revezaram na luz difusa do espaço de shows do Cantinho, em cujas estantes de LPs está o velho – e tão novo! – Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, mais conhecido por Pessoal do Ceará.

O disco que Rodger lançou em 1973 com Teti e Ednardo e que entraria para a história como um marco daquela geração que “não teve movimento, não teve manifesto. Teve era muita gente talentosa, cada um a seu modo. Cada artista era diferente e tinha sua própria característica”, ressaltou Fausto Nilo, um dos que se somaram a Rodger no domingo aberto com canções letradas pelo arquiteto cearense. Retrato marrom (de Rodger e Fausto), Barco de cristal (Rodger/ Fausto/ Clodo), Lua do Leblon (Fausto/ Lisieux Costa)

Dos clássicos de Rodger ao “Encontro dos Gatos”

Ladeado pela guitarra de Mimi Rocha e pelo teclado de Herlon Robson, Rodger Rogério impressionava pela interpretação cada vez mais original, pessoal e vigorosa. Chão sagrado, faixa-título do LP de Roger e Teti de 1975, parceria com Belchior, ganhou uma releitura poderosa, sob muitos, muitos aplausos, em um Brasil que ainda não “conhece o Nordeste, não palmilhou seu chão sagrado”.

E mesmo para quem considera já ter ouvido todas as versões e recriações possíveis para o clássico Mucuripe, de Belchior e Fagner, Rodger provou que, sim, ainda há novos caminhos a intuir, descobrir, realizar nessa canção. Simplesmente de impressionar!

Velha roupa colorida veio com as cores mais roqueiras do “Belchior com ele mesmo”, como definiu Rodger, que passou pelo Tango malevo, de Rodger e Luciano Maia, antes de lembrar os amigos Francis e Stélio Vale, esquecendo trechinhos da letra mas cantando lindamente o bolero Apaixonadamente.

E “Lupiscínica, que é sempre uma briga, né?”, brincou antes de interpretar o clássico de Petrúcio Maia e Augusto Pontes. Mais nomes da geração que se tornaria conhecida por “Pessoal do Ceará” que já se despediram, mas estavam tão bem representados na noite, ao lado de músicos de diferentes idades, mas um interesse em comum pela obra e pela figura de Rodger.

Entre amigos como Chico Pio, Alano Freitas, Flavio Torres, Caio Silvio, Sérgio Pinheiro, Sérgio Redes, Moacir Bedê, Roberto Flávio, Richell Martins e tantos outros, Rodger homenageou o “Clube dos Gatos”, a reunião quinzenal, no Cantinho, dos intérpretes e violonistas amantes das eternas canções brasileiras, ao incluir no show “músicas aprendidas na infância e que ainda sei a letra”. De Only you a Tu me acostumbraste. De Molambo a Nada além. De Nunca a Nem eu. Fica a deixa para um possível novo projeto, diante de tanta qualidade ao revisitar essa prolífica memória musical.

Vitoriano, Humberto, Groove, Rogério, Ricardo

Espaço aberto então para alguns dos muitos convidados da festa compartirem com Rodger o palco e as canções. Vitoriano em “Quando você me pergunta”, anunciando “Rodger é melhor que Cauby! Melhor que Altemar!”. Humberto Pinho dividiu os vocais na belíssima “Falando da vida”, de Rodger e Dedé Evangelista (infelizmente, ausência na noite) e destacou a importância de Rogério para a música e para os músicos do Ceará. “Uma pessoa boa, leve, tão querida por todos, por isso tanto amor aqui hoje”.

Rodger recebeu Rogério Franco cantando “Uma canção a mais” e surpreendeu Ricardo Bezerra, autor de clássicos como “Cavalo-ferro”, ao convidá-lo para cantar “Preguiça”. “Essa é a única canção em que a letra é minha e a música de outra pessoa, do Ricardo. Fala de um sentimento que é muito meu”, revelou, sob risos de concordância. Daniel Groove, outro representante do novo pessoal, chegado do Bloco Iracema Bode Beat, ainda teve tempo de dividir com Rodger os vocais em “Na ponta do lápis”, com direito a nova saudação ao mestre. Para aplausos de pé, de súditos felizes e privilegiados!

Novos discos: Rodger 7.4

Além de um show inesquecível, alguns dos convidados também receberam como presente o novo disco de Rodger, uma coletânea de suas participações em álbuns de outros compositores e projetos especiais. São nada menos do que 16 faixas, dando uma pista de quanto material ainda há por ser melhor descoberto pelo público, na vasta obra desse grande artista, seja como compositor, seja como intérprete.

Há ainda o projeto de um novo e aguardado disco de inéditas. Como ele mesmo diz, aos 74 anos, “o Negro está in-su-por-tá-vel!”. Que novas gravações e apresentações venham o mais breve.  Em tempos de spotify, deezer e outros quetais, ouvir Rodger Rogério ao vivo, na penumbra de um cantinho da esquina predileta, está cada vez melhor.