Discografia

Emoriô no Festival Vida&Arte

Fotos: Rodrigo Carvalho/ Especial para O POVO

A maratona de shows que o Festival Vida&Arte promoveu desde a quinta-feira, 21, até o domingo, 24, trouxe algumas produções de encher os olhos pela opulência sonora e visual. Elza Soares surgiu num trono, vestida de prateado, cercada por DJs, guitarra, loops, scratches e batidas de funk, samba e soul no show A voz e a Máquina. Milton Nascimento trouxe banda completa e encheu o Palco Rachel de Queiroz com sucessos que falam do sagrado, do humano e da sociedade. Iza, nome da nova cena musical, trouxe banda, dançarinos e garantiu um bom público sedento pelo seu ritmo e rebolado.

Na mesma hora que a cantora carioca de 27 anos surgiu belíssima no Palco Belchior, um senhor de 83 anos começou a tocar se piano do lado oposto do Centro de Eventos. Ao contrário dos acima citados, João Donato abriu mão de qualquer produção mais chamativa e concentrou todas as suas forças num repertório construído em mais de 60 anos de carreira. No mesmo palco que recebeu Milton na noite anterior, o músico acreano se apresentou no domingo, pouco depois da 22h30min, para um público seleto, que esperava desde cedo para vê-lo ao vivo e que conhecia muito bem aquelas canções.

E foi para esse público que Donato cantou sem se preocupar com roteiro ou marcação. Parecia que o show ia nascendo na hora, no improviso, puxado pelo que viesse na memória. E o público ajudou nessa parte, quando gritava suas músicas preferidas. “Vocês querem o quê?”, ele perguntou olhando pra turma do gargarejo. “Sambou sambou”, alguém gritou de trás. “Sambou sambou”, repetiu resoluto o músico antes de dedilhar seu instrumento. E assim foi seguindo por cerca de uma hora de apresentação.

 

Mas, para poder deixar fluir um concerto com esse nível de informalidade, é preciso estar bem forrado de companheiros que consigam acompanhar o ritmo. Quanto a isso, João Donato não tinha do que reclamar uma vez que estava ao lado outros três gigantes do instrumental brasileiro. O mais cortejado pelo público era Robertinho Silva, que já dividiu estúdios e palcos com dezenas de estrelas da música, inclusive Milton Nascimento, com quem tocou por mais de 20 anos. Além dele, estavam lá o baixista Luiz Alves (ex-Som Imaginário) e o flautista e saxofonista Ricardo Pontes (ex- Modo Livre, banda que acompanhou Ivan Lins nos anos 1970).

Os quatro músicos foram colocados perfilados em cena, igualmente iluminados e com seus momentos solo sublinhados. É como se ali não tivesse uma estrela, mas sim quatro amigos que gostam de fazer música – o que, de fato, é o que havia. Na plateia, o clima de “sala de casa” continuava com parte do público sentado em cadeiras, outros no chão, outros em pé dançando e outros no pé do palco fazendo suas fotos e vídeos. Nesse ambiente de “cada um faz o que quiser”, brotaram músicas que fazem parte da história do pianista que se destacou entre os bossanovistas e tornou-se um dos mais originais artistas brasileiros, reverenciado pelos mais velhos e sampleado pelos mais novos.

Desses clássicos, seguem alguns destaques. Amazonas, com seu ritmo bem marcado, mostra a fusão de ritmos latinos que encontra abrigo confortável nas teclas de Donato. A introspectiva A Paz chegou num ritmo mais sincopado, sinuoso, e com ele cantando com a mesma simplicidade e despretensão com que toca. As clássicas Bananeira e Emoriô tiveram seus grooves reduzidos para um plano mais adequado àquela formação, o que não impediu o público de cantar e dançar junto, e Donato de pedir que todos o acompanhassem nos vocais. Um tema instrumental veio em seguida, misturando levadas de rock, samba, bossa, latinidade, levando o show para um ambiente de boate, filme dos anos 1950. Teve ainda histórias sobre a parceria com Martinho da Vila, uma quase homenagem a Mart’nália e mais canções. Tudo confirmando que a riqueza pode estar nas coisas simples.