Discografia

João Gilberto, Carnegie Hall, Ronaldo Bôscoli e as memórias de Roberto Menescal

Fotos: Júlio Caesar/O POVO

Roberto Batalha Menescal é um cara de sorte. Garoto bem nascido na Ipanema do fim dos anos 1930, o carioca foi crescendo entre as paixões pela pesca e pela música. Aos poucos, a segunda foi lhe puxando para uma turma que incluía nomes como Tom Jobim, Carlos Lyra, Luiz Carlos Vinhas e outros pilares da música popular brasileira. O resto foi serviço do acaso. Por acaso, estava num teatro quando Sylvia Telles o chamou para uma turnê. Por acaso, foi indicado para estudar música com Moacyr Santos. Por acaso, era vizinho de Nara Leão. Por acaso, ele cancelou uma pescaria para ir a Nova York participar do histórico show no Carnegie Hall. Por acaso, ele trabalhava na Polygram quando surgiram candidatos a artista do nível de Zizi Possi. Só não foi por acaso que ele tornou-se um dos mais respeitados músicos e compositores do mundo, reverenciado por estrelas internacionais como Stan Getz, Paul Winter, Andy Summers e João Gilberto. Essa parte é fruto do esforço e do cuidado que ele teve com a própria história. Eis aqui essa história.

O POVO – Em outubro de 2018 você completa 81 anos. Como você está se sentindo nessa idade?
Roberto Menescal – Eu nunca me senti tão bem (risos). É muita folga, cara. Eu estou com 80 e faço milhões de coisas, não tenho uma dor. Eu vejo o pessoal “ai, minha perna”, o cara com 30 anos. A gente fica até com ciúmes. Deixa eu sentir uma coisinha pra saber como é que é!

O POVO – E são 80 anos em plena atividade. Viajando, trabalhando, fazendo shows, descobrindo gente…
Menescal – Por isso. Por isso que estou com 80 anos numa boa. Porque, se você falar “me aposentei”… Putz! Isso é morte certa, né? E eu nunca trabalhei tanto na vida, cara. Nunca. Você vê: ontem eu gravei o dia inteiro, hoje já passei som, mais tarde faço show, amanhã vou pra Recife e faço show, depois de amanhã vou pra Garanhuns, faço show, domingo pego avião já pro teatro direto. Vou nem em casa. É assim. Parece a Ivete Sangalo.

O POVO – Quem é esse Roberto Menescal que chegou aos 80 anos?
Menescal – Acho que sou a resultante da vida que me passou. Eu não fugi dela, mas também não foi a coisa que eu procurei. Quando a gente começou, que fez as primeiras músicas, eu falei assim pro meu parceiro, o Ronaldo Bôscoli: “pô, isso tá legal, né? Alguns artistas procurando a gente. Se isso durar um ano vai ser bom…”. Ele falou: “vai durar mais, Beto”. E foi assim. Depois desistimos de falar isso. Se você tiver atento e gostar do que você escolheu, você não tem prazo. Agora, eu também não fui abusado, né? Não fui um Vinicius de Moraes, um Tom Jobim que abusaram da vida, né?

O POVO – Você foi mais comedido, né?
Menescal – É… Eu tinha outros planos. Eles tinham também. Acho que é uma escolha. Você tem direito a essa escolha. Mas eu tenho muita coisa pra fazer ainda.

O POVO – Sua vida se confunde com a história da Bossa Nova e a Bossa Nova completa 60 anos esse ano. Que bossa é essa que chegou em 2018? Em que ela se renovou e em que ela se cristalizou?
Menescal – Acho que a Bossa Nova faz uma carreira paralela ao jazz. O jazz é mais velho, está fazendo 100 anos (o disco considerado como o marco do nascimento do jazz, Original Dixieland Jazz Band, foi lançado em 1917). A Bossa nunca procurou ir atrás de sucesso popular, porque a gente sabia que não era um sucesso popular. A gente era sofisticado pra época. Um pouco abusado na sofisticação. Então a gente sabia que não é um grupo que você vai lá e “oba!”, canta comigo, faz assim com os braços. A Bossa Nova nunca foi isso. Nunca será também. Mas, a durabilidade é boa, cara. Talvez melhor até que esses grandes sucessos que vêm e acabam.

O POVO – Vocês já tinham essa dimensão de que não estavam fazendo um som popular, então.
Menescal – A gente, no começo, nem pensou nisso. Mas começamos a ver que era muito sofisticado. E quem gostava, quem descobria a gente era o pessoal do jazz, por exemplo. Nós descobrimos eles primeiro. Mas depois… “Como é? Como é que você faz? E essa levada?”. E tudo de papel de música (partitura). “Peraí, mas tem um dedinho aí”. Então, esse pessoal que a gente amou, amava, tinha os discos todos, de repente, passa a gostar da gente, cara. Você vê que é um público muito definido, vem com um patamar de qualidade musical. Não estou falando que é melhor ou pior não, mas você sabe que tem uma coisa, que é a qualidade musical, que é boa.

O POVO – E quando se fala em bossa nova, sempre se lembra do sucesso internacional. Que espaço ela ocupa hoje no Brasil e internacionalmente?
Menescal – É bem definido esse espaço. Primeiro, no Brasil, você fala: “mas no Brasil tem uma música muito popular que toca”. São lugares diferentes. Você vai no Rio Grande do Sul e está lotado, mas é um gueto. Fizemos São Paulo agora, uns dois meses atrás, Marcos Valle, (João) Donato, Carlinhos Lyra e eu. Eu brinco que é o show dos quatro tenores. A gente levou um susto porque, quando abriu e o público levanta todo… A gente fica “o que é que a gente faz? Ataca ou não ataca? Está todo mundo em pé, rapaz”. Quer dizer, nem a gente teve essa noção de que isso podia ter acontecido. Então, é um tipo de público. Agora, lá fora, é mais fácil. (A bossa) foi a primeira música brasileira que entrou no exterior. Você tem outras. Entra música de Caetano (Veloso), mas depende muito da letra. Estou falando do Caetano, mas poderia ser um Chico Buarque. Agora, você faz um show de Bossa Nova e tem certeza de que vai ser sucesso. No Japão, a gente faz desde 1985 e eu não sabia qual era o tamanho do público. Vou fazer uma casa de 400 lugares? Um teatro de 600 lugares? Até que o japonês falou assim: “acho que o público é maior. Vamos fazer um festival? Você traria uns 10 artistas?”. Mas onde? “É um lugar aberto, fechado, delimitado, mas ao ar livre com um palco espetacular”. Tá, mas quantos lugares? “10 mil”. Cara… (risos) Quando a gente viu aquilo lotado, lotado… Fizemos três shows desses, três anos seguidos. Então a gente começou a descobrir essa coisa. Fomos para a Austrália, por exemplo, e dizendo: “na Austrália? Quem é que conhece a gente? Ninguém, né?”. E o cara (produtor): “não, acho que está bem bacana”. Mas onde vai ser o show? “No Opera House”. E aí, quantos lugares? “2 mil e não sei quantos”. E é assim em todo lugar que a gente chega. Suécia, Finlândia, Dinamarca, é incrível. Agora, não é popularesco.

O POVO – Existe muita diferença entre o público brasileiro e o de fora?
Menescal – Depende dos lugares. No Japão é o melhor público que a gente tem. Se eu falar assim “vai minha…”, eles “minha tristeza e diz a ela…” E tudo em português. Então, o interesse que eles têm pela música nossa é maior até que o interesse interno. Eles estudam a música e estudam o português pra entender a nossa música. Respeitam. Japão é o melhor. E tem outros tipos de coisa, que chega a ser popularesco. Quando eu fiz a turnê com o Bossacucanova e o primeiro show foi na Dinamarca. E como é? É um festival de música pop e tal. Mas será que vai dar certo? A gente chegava por trás do palco e não viu o público. Quando eu olhei, “quantas pessoas tem aí?” (perguntando a alguém da organização). “Uns 250 mil”. Cara, Bossa Nova? Então, ela até pode ser popular se for apresentada de uma maneira como eles (o Bossacucanova, que usa sons eletrônicos) fazem. Mais dançante. São coisas diferentes.

O POVO – Uma vez, conversando com a Joyce, ela disse que no Brasil quase não é conhecida, enquanto no Japão não pode ir a uma mercearia porque é uma estrela. Existe alguma coisa que explique essa paixão dos japoneses pela Bossa Nova?
Menescal – A pergunta é sempre essa. Ah, mas é que eles gostam do Brasil! Mas, então, por que não consomem outras coisas do Brasil? É aquela música que eles se identificaram, achando até que a música não era brasileira. Quando o Sérgio Mendes estourou lá, que ele foi o primeiro, eles acharam que era música americana. Depois viram que não é. Ele mora nos Estados Unidos, mas a música é brasileira. Aí eles começaram a se interessar. Eu não sei… Eu tenho um livro lá em casa, que eu recebi de um japonês, japonês mesmo. Ele mandou e falou: “olha, coloquei uma foto tua na capa e outra na contracapa”. Uma era eu e meu parceiro Ronaldo Bôscoli e na capa era Tom Jobim, Marcos Valle, eu e Silvinha Telles. E eu perguntei “qual o título desse livro?”. Ele falou: “A Verdadeira História da Bossa Nova”. Quer dizer, é uma paixão que a gente ainda não descobriu ainda o porquê. Eles dizem que é muito pela sensibilidade das letras. O cara falou que é meio samurai, do cara que mata, mas cai uma gotinha na planta e tal. Não sei, mas está bom assim.

O POVO – Você acha que a Bossa Nova deixou o mundo mais brasileiro?
Menescal – Eu acho que sim. Porque, por exemplo, o Ary Barroso fez o Aquarela do Brasil, que rodou o mundo inteiro. Mas é uma música que entrou num filme. Não foi a obra do Ary, como foi o samba. O samba só veio a entrar, através da França, provavelmente, porque tem muito sambista daqui pra lá, muita música, então acabou pegando. Mas não é uma música que entra no mundo inteiro. Apesar de ser quase uma segunda opção. Acho que é na Suécia que tem uma escola de samba de suecos. Agora, o Japão tem 10 escolas de samba. O Tom, por exemplo, gostava muito mais de se apresentar lá fora do que aqui. No Brasil ele se apresentou muito pouco. Mas lá fora ele ia aos EUA, Japão…

O POVO – Você foi um dos integrantes do famoso show no Carnegie Hall (NY), que apresentou a Bossa ao mundo. Qual é, de fato, a importância desse show, uma vez que boa parte do elenco era de iniciantes na maior casa de show dos EUA?
Menescal – É até bom você puxar esse assunto porque tem as divergências. Primeiro, eu não sabia nem o que era Carnegie Hall. Eu, um pescador de mergulho, que não perdia uma pescaria nunca. Um cara do Itamaraty, o cônsul, telefonou, se apresentou e disse: “vai ter um show no Carnegie Hall e eu queria te convidar. Dia tal”. “Ah, não posso. Tenho uma pescaria marcada. Não posso. Até aluguei um barco com os amigos”. O cara ficou meio decepcionado, mas “ah tá. Desculpe”. Aí telefonou o Jobim. “Oh, Menesca, disse que você não vai ao Carnegie Hall. Por que?” Pô, então eu tenho que ir, isso é uma coisa do Brasil. E fui sem saber nem o que era Carnegie Hall. E foi a turma toda. Chegando lá, a música do Tom, o Desafinado, estava em primeiro lugar no hit parade. Imagina o tamanho que é isso. E, chegando no aeroporto, eu fui o primeiro a passar o passaporte, quando olhei tinha uns oito músicos de jazz, daqueles intocáveis. Nós nunca vamos chegar perto. “Pô, olha a sorte, a gente chegando aqui e os caras também no aeroporto. Devem estar indo a algum lugar e estão reunidos ali. O Gerry Mulligan, o Modern Jazz Quartet…”. (Alguém responde) “Mas eles estão aqui pra receber vocês”. “Eles conhecem a gente?”. “Claro, eles estão aqui e você vai ver”. Aí, no que passamos, “oh, que prazer”. Cara, aquilo pra mim… Eu todo arrepiado. Pra você ver como a gente era inocente. Aí, cara, de noite, a gente jantava na casa do Modern Jazz Quartet, o Tom na do Gerry Mulligan, o Sérgio Mendes no Cannonball Adderley… Aquilo foi assim uma semana de festa. Ninguém pensou mais no Carnegie Hall, até que o cara falou “amanhã o ensaio é lá”.

O POVO – E como você ficou com isso?
Menescal – Ih, cara, eu não sou cantor, não trouxe minha banda. O Sérgio Mendes falou “Se der, a gente faz uma coisa junto”. Ah, não deu tempo pra ensaiar e eu falei pro cara. “Não vai dar pra fazer nada não”. “Pô, mas você está aqui há dez dias. Hotel, estadia, tudo. Não vai fazer nada? Ah, você vai cantar aqui”. Então, eu cantei pela primeira vez, no Carnegie Hall. E também foi pela última. É bonito a coisa, mas a campanha contra a gente era mortal.

O POVO – Contra?
Menescal – Não lá, mas no Brasil. Porque a gente estava entrando já tirando um quinhão ali de uma turma. “Pô, tá vendo esses garotos. A gente ganhava não sei quanto, agora é menos 25%”. Era um negócio barra pesada na imprensa. “Esses caras estão pensando o quê com essas músicas de bobagem”. E eu tive que voltar antes de todo mundo porque eu ia casar. Já estava marcado. Então eu cheguei lá, a imprensa toda me esperando, logo depois do concerto, cara. Quando cheguei, o pessoal: “Olhe, porque o fracasso do Carnegie Hall?”. O que é? Não estou entendendo. Fracasso? Que fracasso vocês estão falando? E o cara mostrou uma reportagem da revista O Cruzeiro, seis páginas: “O fracasso no Carnegie Hall”. Com fotos de todos nós e nenhuma do concerto, porque, em dois dias, você não tinha como fazer foto, revelar, mandar… Já estava tudo preparado. E ficou um negócio, eu não entendi nada. E um cara do Brasil, o Ricardo Amaral, o rei da noite, ele era garoto, mas era um colunista social. Ele falou: “você tem que ir hoje pra São Paulo, porque eu tenho um programa e a gente tem que falar sobre isso”. Eu fui pra São Paulo, fiz o programa com três caras da imprensa acabando comigo. Eu tinha uns 25 anos. E eu falei: “então tá bem, foi um fracasso mesmo”. E o Ricardo disse “não, peraí. Junto com você, veio um filme do Carnegie Hall e eu estou com ele aqui”. Aí passou na televisão e foi uma maravilha. Porque passou todo mundo lá e, no final, mostrou nós todos filmados de costas e o público. Então, você o público todo em pé aplaudindo sem parar. “Pô, então como é que foi isso?” Não vou dizer mais nada. Agora, a barra era tão pesada que esse filme sumiu no dia seguinte e só apareceu cinco anos atrás, na TV Cultura.

O POVO – Então, como você avalia?
Menescal – Aí tem duas coisas. O pessoal fala “ah, foi uma bagunça”. Não, não é que foi uma bagunça. Ao contrário, o interesse era tanto que, sabe quando o Trump vai falar, que tem aquele monte de microfone na frente? Foi assim. “Ah, um montão de microfone”. Que bom! O João Gilberto perguntou “eu canto pra onde?”. Canta pra qualquer um que vai pegar. Dali em diante, nossa música foi pro mundo. O Tom ficou em Nova York, o João foi pra Los Angeles, o Carlos Lyra foi pro México, o outro foi pra França e só eu que voltei porque ia casar (risos). Aí, por outro lado, acabou a turma da Bossa Nova por que foi cada um pro seu lado. E a gente se reunia todo dia. Acabou tudo, mas a música foi pro mundo.

O POVO – Eu até questiono esse show como um marco porque acredito que a Bossa tenha passado por vários marcos, vários momentos importantes. Tanto que é difícil dizer quem “criou” a Bossa Nova…
Menescal – Tem o Johnny Alf, quatro anos antes. Dick Farney, Lúcio Alves, Silvinha Telles, que já cantava umas coisas mais modernas. Mas faltava a definição mercadológica. Quando o João cantou o Chega de Saudade, opa! Uns quebraram o disco, mas a música foi pra rádio e “que é isso?”, “que música diferente”. Então a gente marca o ano de 1958, quando saiu o compacto dele, por que o Chega de Saudade ficou uma coisa meio emblemática. Era Bossa Nova ou não era? Acho que antes, a primeira parte, não era (“Vai minha tristeza e diz a ela”). Era meio samba-choro. Mas, a segunda parte, (“Mas, se ela voltar, que coisa linda…”), aí é Bossa Nova. Ele faz essa transição.

O POVO – Com o tempo e o crescimento da Bossa Nova, foram surgindo nomes como Carlos Lyra, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, que trouxeram um componente mais político à Bossa. Você acha que essa primeira turma era alienada?
Menescal – A primeira turma era totalmente alienada. Depois teve os Doces Bárbaros, né? Nós éramos os doces alienados. A gente descobriu a felicidade, eu acho. Nos compositores de samba-canção, não tem um que fale “eu sou feliz”. Não, é “sei que falam de mim. Ó, deus, como eu sou infeliz”. “Ninguém me ama, ninguém me quer”. Era tudo assim. A gente, com 18 anos, achava que todo mundo amava a gente. Nós mudamos essa coisa aí, né? Mas mudamos com o amor, o sorriso e a flor. Vamos falar de coisa bonita, jogar pro alto, né? Foi combinado isso. Claro, cada um tinha uma fossa, mas a gente ficava: “ah, fez isso, mas tudo bem”. Agora, não é que os outros fossem mais enfronhados na política. É que aí vem a revolução e tem a turma que já nasceu na revolução e começa a fazer (música). O Carlinhos Lyra não. Ele veio antes, mas já pegaram ele no centro estudantil pra fazer o hino e foi. Mas eu tive a consciência pra falar assim: “Oh, Bôscoli. Vai ser muita mentira. Eu sou o rei da caça submarina, já faço um surfzinho, que chamam de jacaré, né? Vamos na praia, jogamos futebol. A gente se sentiu mal de, de repente, mudar. E nós combinamos o contrário. Vamos nos enterrar um pouco, deixa a onda passar, deve ser uns três anos de ditadura. Eu não sabia que ia tão longe. Vamos cada um fazer outra coisa. Aí eu comecei a estudar música sério e isso me preencheu um pouco. Depois eu fui para a Polygram e fiquei 15 anos como produtor. Mas por isso, porque eu não queria participar de uma coisa que não era a minha verdade. Eu era um garoto de Copacabana que adorava a praia. Então, a gente não tinha consciência. Éramos os doces alienados e éramos felizes e sabíamos.

O POVO – Como você citou há pouco, Ronaldo Bôscoli foi seu parceiro em inúmeros clássicos da música brasileira. E ele, ora é um vilão, machista, que pegava todas as cantoras de sucesso, e ora ele era o poeta sensível. Quem é o Ronaldo Bôscoli que você conheceu?
Menescal – Acho que ele é dois. Como você falou, era supersensível. Você vê nas letras dele umas coisas fantásticas. Que frase bonita, que coisa. Mas, ao mesmo tempo eu pergunto: será que não usava isso pra comer as cantoras? (risos) Ele era boa pinta, era um pouco mais velho que a gente e repórter. Então, como repórter, ele era mais enfronhado nas coisas do mundo. Tinha um conhecimento maior do que a gente. Ele era um batalhador, mas ao mesmo tempo era um galanteador. Ele tinha aquela coisa do Sinatra, do copo de whisky aqui e o cigarro aqui. Aquilo fazia um tipo, entendeu? Uma vez um cara gritou num show: “o Ronaldo é o maior mau-caráter simpático do mundo. Nós adoramos esse mau-caráter”. Agora, era barra pesada. Era muito engraçado e, às vezes, maldosamente engraçado. Hoje eu estava lembrando de uma vez que a gente estava preparando um cenário, numa televisão, e ele foi chamar um rapaz. “Ei, ei você aí que está mais mal vestido”. E o cara olhava assim… Mas aí você vê o que ele escreve, cara. Putz! Canalha total.

O POVO – Vocês foram amigos até a morte dele, em 1994?
Menescal – Sim. E brigamos muito também. Você sabe a história do último dia dele? Ele ficou com aquela coisa toda, ligado (em aparelhos. Bôscoli morreu de câncer na próstata), fora de si, já não falava mais nada. Até que um dia o médico ligou pra mim e pro Miele. “Olha, o Ronaldo deu uma acordada e pediu muito pra vocês virem aqui”. Cheguei lá e ele estava mal, todo ligado, com soro e tirando sangue. Eu peguei no pé dele e disse: “e aí, Véio”. E ele, apontando pro sangue e pro soro, disse: “oi, vai de tinto ou de branco?”. Era essa a figura. Deixou, pelo menos, uma coisa pra cima.

O POVO – Nesses 60 anos de Bossa Nova, uma das coisas mais comentadas é a situação do João Gilberto. Como você tem percebido essas notícias sobre ele?
Menescal – (Em tom sério) Primeiro, você é resultante das tuas escolhas. O que você escolher pra tua vida é o que você vai ser. E o João sempre foi complicado. Não vou dizer a vida dele não. Ele foi muito complicado. Ele teve todas as chances do mundo. Eu não tive 10% das chances do João, mas estou aí. Ele foi adorado, amado. Dizem no Japão que ele teve a maior consagração que um artista pode ter. Não foi Beatles, não foi ninguém. Foi o João, que foi aplaudido durante 25 minutos. Saiu na imprensa, saiu em todo canto. Tanto que ele baixou a mão assim e ficou assim (com as mãos no violão e a cabeça baixa). Cara, será que ele teve um ataque? O japonês foi lá, se meteu embaixo e falou: “João, o que houve?”. “Não sei, é que eu não sei como eu vou sair daqui. Eles não param de bater palmas”. O cara pegou ele e levou. Se não, de repente, eram 40 minutos. Quer dizer, o cara teve tudo isso e jogou fora. “Ah, isso eu não quero fazer”, “não quero que lancem meus discos”. Pô, os três primeiros discos dele que são os melhores. E não quer por quê? “Eles mexeram no som”. Mexeram pra melhor! Eu fui chamado pra um laudo técnico e mexeram pra melhor. Os caras tiram um pouco do chiado de fita. Limparam e não mexeram em mais nada. “Mas eu gravei com aquilo, com chiado”. Ele proibiu a gente de ter esses discos, eu acho uma sacanagem que ele fez com ele e com a gente! Mas ele teve uma possibilidade, mesmo assim. Teve o último show dos 80 anos, que acabou não fazendo, mas ganhando. Ele acabou ganhando (o dinheiro do contrato), mas não fez. Acho que R$1,2 milhão, não sei. Teve um cara, um banqueiro, que comprou os discos do João pra ajudar. “Tudo bem, não vai ser lançado, mas eu compro”. Pelo que eu soube, foram R$ 10 milhões. Com R$ 10 milhões, você vive a vida inteira. E aí, cadê esse dinheiro? “Ah, não sei”. Aí, rapaz, você não pode fazer nada. É muito simples. Que é isso, cara? Você é dono da sua vida. “Não sei como é que muda a corda do violão”. Tem que saber, é teu instrumento! Aí lá íamos nós comprar corda, trocar corda. “E a roupa rapaz, minha roupa tá suja”. A gente levava na tinturaria. Eu acho que ele criou uma vida e está pagando por ela. Infelizmente. Os filhos também não conseguem realizar mais nada. Ele escolheu isso e vai nisso até não sei quando.

O POVO – Você tem contato com a Bebel Gilberto?
Menescal – Eu conheci Bebel, mas não a vejo há 20 anos. Tive com ela, na última vez, no Japão. Mas eu não sei, não fico tentando saber. Soube que agora o Caetano e a mulher emprestaram um apartamento, botaram ele (João Gilberto) lá. Mas também não sei detalhe. Mas é triste um cara que teve as possibilidades que nenhum de nós teve ou vai ter terminar numa situação dessas, né?

O POVO – Mas João Gilberto é um gênio?
Menescal – (sem demorar) Pra mim é gênio, total. Eu podia eu achar e falar assim: “eu acho o João um gênio”. Mas tem um livro que eu acabei de ler, um branco, grosso assim (João Gilberto, de Walter Garcia, Cosac Naify, 2012). Que aí você vê Francis Hime dizendo assim “ele é o melhor que tem”. O pianista de jazz, um daqueles conhecidos, falando assim: “é o melhor cantor do mundo”. Mas do mundo? E as cantoras, Billie Holliday? “É, tem Billie Holliday, tem o Sinatra, mas o João é o melhor”. Quer dizer, quando os caras que são músicos, que têm condições de falar uma coisa sobre a parte técnica, que falam isso, é por que o cara é gênio mesmo. Eu fui a um show do João escondido, né? Você vê que as pessoas têm medo de fazer assim (se virando de lado). Todo mundo quietinho, pra não fazer um barulhinho. É uma atmosfera mágica que ele consegue não sei como. Eu fiquei impressionado.

O POVO – Dois instrumentos sempre ligados a você são o violão e a guitarra. Quem são suas referências nesses instrumentos, hoje e no início da carreira?
Menescal – Acho que as referências continuam um pouco as mesmas. Primeiro João Gilberto no violão. Tinha uns caras que eu gostava, que eu acompanhava. Mas quando eu ouvi o João, o que é isso, cara? Que perfeição! Não tinha velocidade, não. Não precisa. Faz devagarzinho. Ele me ensinou muita coisa. E na guitarra era o Barney Kessel (1923 – 2004), que foi maravilhoso. Acho que o Barney Kessel, sem saber, adiantou a música brasileira em 10 anos. A gente tem que lembrar que as gravações eram todas com orquestra e tinha um som (ele imita o som de uma orquestra) que era a guitarra, baixo e bateria. Você não distinguia. Quando ele fez o disco com a Julie London (Julie Is Her Name, 1955), tem “pom plim plim plim”. O que é isso, cara? É a primeira que eu ouço a guitarra explicada. Aí chamei Carlos Lyra, Baden Powell, Oscar Castro Neves. Falei “cada um vai pra casa e tira uma música dessas”. Voltamos um mês depois, não era exatamente porque a gente não tinha essa qualidade aí de interpretação. Mas, a música brasileira ganhou ali mil acordes diferentes. Quer dizer, ele foi importantíssimo nessa virada. Aí tem vários outros, como Jim Hall, George Benson mais pra cá.

O POVO – E hoje, quem você destaca?
Menescal – No violão e na guitarra, eu destaco muito no Brasil o Nelson Faria, é um craque. Rapaz, é tanta gente. Mas, os que me tocam… Lula Galvão é outro craque. Uma simplicidade, mas um craque. Violão e guitarra, inclusive. Porque hoje, você vê na internet e “quem é esse cara?”. Mas vamos dizer que esses (citados) me influenciaram. Mas meus ídolos continuam os mesmos.

O POVO – Você trabalhou 15 anos como produtor de gravadora, na Polygram. O que esse período te ensinou?
Menescal –Primeiro, me ensinou a sair dessa bola da Bossa Nova. A gente, na época, era muito “ou é isso ou não é nada”. Me lembro que quando o Edu (Lobo) ganhou o festival com Ponteio, as pessoas perguntavam “viu o festival?” e meu comentário era “vi, ganhou um baiãozinho lá”. Ganhou um baiãozinho? Depois que eu entrei para a Polygram, eu fui ver que não era um baiãozinho. Era um musicão, mas, como não era da coisa da gente, virou um “baiãozinho”. Era um “sambinha”, um “rockinho”, entendeu? Porque aí você trabalha com Caetano, Chico, Jorge Ben, Gil, Ivan Lins… Aí sua cabeça vai abrindo. Graças a deus! Eu trabalhei com essas pessoas todas, com Elis Regina, fiz três turnês com ela, inclusive. Então eu aprendi muita coisa. Aprendi a gostar até de… Minha mulher até pergunta “você gosta?” Sidney Magal! Cara, se esse cara arrebenta, arrebanha essa turma toda, ele tem um negócio importantíssimo aí por trás. Como a Anitta! Agora, você pode falar “eu não gosto”. Isso tudo a Polygram me ensinou. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha o maior cuidado de não misturar a minha coisa com a Polygram. Eu passei 15 anos em que fazia música, mas não mostrava a ninguém. Eu estava cuidando de 80 artistas. Passei, pelo menos, 12 anos sem violão. Quando eu voltei, voltei inclusive com Nara (Leão), no disco Um cantinho, Um violão (1985), que ela pediu pra eu tirar umas músicas, preparar e tal, eu falei “depois eu ponho um guitarrista pra fazer com você. Tá pronto o disco, vou te apresentar três pessoas”. Aí ela falou assim: “Roberto, quem vai fazer melhor que a gente? Nós estamos há dois meses aqui”. Nisso, eu volto. Saí da Polygram, me deu vontade novamente, e também pra fica com a Nara a partir da doença dela, pra poder ficar até o final. Mas a Polygram foi importantíssima pra mim. Muita gente diz: “você perdeu 15 anos”. Eu não perdi. Eu deixei de fazer uma coisa durante 15 anos, voltei a fazer, mas com uma carga maior. Hoje minha música é mais abrangente.

O POVO – Dos seus trabalhos como produtor, acho que o mais popular são as Aquarelas, com o Emílio Santiago. Há quem ame e há quem odeie esse trabalho. Como você avalia?
Menescal – É, eu tinha o Emílio como um contratado meu na Polygram, mas eu não conseguia entrar no cara. “Lá vem a gravadora tentar me influenciar”, aquele papo que tinha. Era não, não, não, mas eu consegui manter ele lá dentro. A gravadora mesmo dizia: “pô, por que você fica com esse cara, que vende 10 mil discos?” Quando eu saí (da Polygram), eu disse: Emílio, eu tenho um projeto pra você. (Emílio falando) “Ah, não. meu público quer outra coisa”. Meu sócio até falou: “Que público, Emílio? Aqueles 30?” Aí ele disse: “Eu vou fazer, mas faço 1”. No que fez 1, mudou a vida do cara, né? Ele morava numa salinha do apartamento do pai dele, que tinha uma sala e quarto, com aqueles sofás que faz virar cama. Um ano e meio depois ele estava com apartamento no prédio inteiro ali entre Botafogo e Flamengo, e mais a cobertura. Bem na vida, apartamento em Nova York, outro em Recife. Mudou a vida dele, porque eu sabia que o cara tinha uma condição. Claro, não vou dizer que eu sabia que o cara ia vender 6 milhões de discos, como vendeu no total. Quero deixar claro que eu sabia que iria melhorar, mas não tanto. Tinha muita gente que dizia que é muito comercial. E é.

O POVO – Conversando comigo, o Emílio até comentou uma vez que esse projeto foi feito para o mercado internacional.
Menescal – Foi e funcionou muito. Eu acho o Emílio a grande voz do Brasil. Até hoje eu acho. Apesar que tem um aqui que eu estou muito de olho. Gravei com ele, que é o Marcos Lessa. É impressionante. Gravamos duas músicas. Putz! Um resultado fantástico. E já defini: vou fazer um disco com ele. Pode até botar na entrevista. Porque eu acho que é que um cara que, se perguntar se tem outro, eu não sei. Tem um também, que até fiz um disco com ele, que é o Luiz Pié que é muito bom. Nesse universo todo de cantores, se perguntar se tem outro, que eu saiba não. Esses dois são muito bons.

O POVO – Tem inclusive um vídeo em que você está num lugar com a Miúcha e o Marcos Lessa se oferece pra ir cantar com vocês. Que história é essa?
Menescal – Não, ele não se ofereceu não. É num espaço aberto do Banco do Brasil. A gente ia fazer um papo-bossa, como a gente chama. A gente conversa e toca. No meio de uma das músicas, eu ouvi uma voz sair de uma mesa perto. Quando terminou, eu falei: aqui dessa mesa, quem é que está cantando? “A voz mesmo é desse cara aqui”. Vem cá, sobe aqui! Pô, e ele todo envergonhado. Depois, ele até falou que estava morrendo de medo. “Vem cá, canta aqui”. E ele cantou uma música minha, o Rio. Cara, como é que é isso? Aí eu telefonei para o Clube da Bossa, de Brasília, disse que tinha um cara assim. Soube que ele foi lá, cantou umas coisas, foi muito bem e não o vi mais. Quando vi, foi no The Voice. Pô é aquele cara!

O POVO – Eu lembro da sua frase nesse vídeo: “me dá essa sua voz aí pra você ver o que eu faço”.
Menescal – Mas é verdade. Se eu tenho essa voz dele, putz! Meu genro é que faz o The Voice. “Cara, me arranja o telefone dele”. Aí eu falei com o Dalwton (Moura, jornalista) que me disse que ele estava no Rio. Mas eu moro na Barra, que é longe. Liguei para o Marcos e ele disse “não, eu vou na tua casa”. Cara, mas eu moro longe. “Pois eu moro em frente a você”. Não é possível! “Daqui a cinco minutos eu tô aí”. Pra mim, depois do Emílio, é ele.

O POVO – Qual é a sua disposição pra ouvir gente nova hoje?
Menescal – É, eu tenho esse defeito. Eu ouço tudo, cara. Eu não conheço ninguém que ouve as coisas. Eu ouço tudo. Desde que eu entrei na Polygram, eu conheci coisas boas por ouvir. A Zizi Possi, por exemplo. Que nome é esse? Quem é essa mulher? Eu tenho uma curiosidade… É nato. Eu trouxe do Japão, da última vez, 32 discos de cantora de Bossa Nova. Se a pessoa faz uma coisa boa e a gente gostou, tem a obrigação de “olha, adorei o que você fez”. Sem interesse nenhum. Então, eu tenho essa disposição e é isso que me alimenta. Se não, você vai viver dos velhos ídolos a vida inteira?

O POVO – Alguns nomes foram importantes na tua história por diversos motivos. Alguns até já passaram por esta conversa, mas eu vou falar o nome e queria que você me dissesse uma lembrança, um comentário que te vier à cabeça. Pra começar, Tom Jobim.
Menescal – Tom é o meu mestre até hoje. Eu peço perdão dos meus pecados “Tom Jobim, me perdoa. Essa semana eu fiz isso, isso e isso”. É um cara que foi muito generoso comigo e com minha turma. Nunca falou comigo “não faz assim. Faz assim”. Nunca. Mas, falou de certa maneira. “Rapaz, tem uma música tua que eu adoro. Como é que é essa nota? É assim?”. Não era não, mas agora é. Ninguém fez o que ele fez.

O POVO – Elis Regina.
Menescal – Elis foi o grande pulo da música brasileira. Até então, eu lidava com todos os cantores e cantoras cantando baixinho. Como dizia o João Gilberto quando alguém pedia pra ele cantar mais alto. “Tá vendo aquele botão ali, que está escrito volume? Aumenta ele lá”. E Elis não, veio explosiva que até me assustou. Mas eu tive sorte de, depois, a gente se conhecer e viajar. Fizemos turnês pela Europa e eu via a explosão dela em qualquer país do mundo. Pra mim, é a grande cantora brasileira de todos os tempos.

O POVO – Sylvia Telles.
Menescal – Sylvinha, puxa… É quem me deu tudo de bom. Quer dizer, antes dela saber qualquer coisa, ela me via. Eu ia no teatro toda quarta-feira e ela estava fazendo um ano de teatro. Eu ia na quarta porque era mais barato, a matinê. E ela já olhava. Eu, normalmente na primeira fila, com 18 anos. Um dia, do palco, ela fez um negócio assim (fazendo um sinal com a cabeça). Eu entendi que era pra ir lá atrás, depois. Eu fui. “Cara, você vem aqui há quanto tempo?”. Quase um ano. “E você toca?”. Eu toco um pouquinho de violão. “E você mora onde?”. Na galeria Menescal, que era da minha família. “Eu moro a um quarteirão. Você não quer ir na minha casa um dia?”. Era tudo que eu queria. Fui, toquei, isso ainda muito no começo. E ela falou: “você tem um toque legal, cara. Vou te fazer uma proposta. Você não quer fazer uma turnê comigo?”. Eu? Eu não tenho um ano de violão. “Calma, calma. Eu estou grávida. Daqui a quatro meses, vou ter um filho. Depois tem mais três que eu tenho que ficar de resguardo com meu filho”.  Bom, vamos ver. Fizemos os sete meses e fizemos a minha primeira viagem de trabalho, que vinha de Manaus, passando por todos os estados até chegar ao Rio de Janeiro. Quando eu cheguei lá, ela falou: “agora você é um profissional”. Então, eu devo tudo à Sylvinha. E logo ela falou assim: “mas tem que estudar música. Vou te arranjar um bom professor”. E foi o Moacyr Santos. Me deu tudo a Sylvinha. Eu estou aqui por causa de Sylvinha.

O POVO – E Nara Leão.
Menescal – Nara foi a irmã que eu não tive. Somos quatro irmãos homens e eu conheci Nara com 11 anos de idade. Achava que ela tinha 13, 14, por que ela era desenvolvida fisicamente e culturalmente. A conheci quando eu ia fazer 15 anos e saí procurando menina pra ir à festa, porque minha turma só tinha menino. Daí em diante, ficamos irmãos. Até o final da vida. É uma pessoa fabulosa, não queria contar com sucesso. “Não quero sucesso, eu quero a música”. Mesmo quando estourou A Banda, ela ficava: “ah, Roberto, eu tenho que ir aos lugares todos. E as pessoas ‘A banda’, ‘A banda’, ‘A banda’. A gente faz tantas músicas. Eu gosto d’A banda, ganhei o festival com ela e com o Chico. Mas eu não gosto do sucesso”. Então, ficamos amigos. Até o último dia, cantamos juntos.

O POVO – O que é que tem de Bossa Nova nos Beatles?
Menescal – Os Beatles quando surgiram pra mim, eu estava fazendo um show com Caymmi, Vinicius e Quarteto em Cy. Então eu falei: vamos pegar umas cabeleiras e vamos imitar os Beatles aqui numa música. Mas, meio sacaneando. E, aos poucos… (cantarola Michelle). Pô, que música bonita. É dos Beatles mesmo ou eles cantavam, só? Aí eu comecei a descobrir essas coisas. Até que um produtor, que é do Biquini Cavadão (Carlos Coelho), falou assim: “cara, eu tenho uma ideia. Vamos fazer um disco de Beatles em Bossa Nova?”. Cara, eu topo porque eu gosto de muitas coisas deles. Mas eu queria escolher nas coisas deles o que eu acho que daria pra isso. Pra não forçar a barra. Ele me deu umas 30 músicas, eu escolhi e fiz um disco de Beatles em Bossa Nova (lançado este ano). Pena que a gente acabou não fazendo projeto, porque eu estou com um projeto com a Leila Pinheiro tocando Cazuza. Tô com um projeto com a Fernanda Takai, que é o Tom da Takai. Tô com um projeto gravando com o Bossacucanova, o Bossa Blues. Fiz um projeto com o Quarteto do Rio, que são os antigos Cariocas. Cara, não cabia mais. Não tinha mais como entrar. Os Beatles ficam para o ano que vem. Eles esperam.

O POVO – A gente falou de Beatles, mas também tem o The Police. Você tem uma parceria com o Andy Summers.
Menescal – São as coisas da vida. Eu gravei uma música com a Cris Dellano, que era o Roxanne. A gente estava gravando e eu trazia uma música e ela outra. E ela trouxe o Roxanne com o Sting. E um amigo, que conhece muito o Andy, disse: “Roberto, o Andy Summers quer te conhecer. Ele ouviu o Roxanne e quer falar com você”. Cacete, ele não gostou porque eu mudei a coisa toda. Aí, fomos almoçar juntos. Ele é muito inglês, muito sério. “Como é que você teve aquela concepção?” E eu quase pedindo perdão a ele. Ele falou: “é genial”. Você gostou? E aí já saímos de lá “vamos fazer um projeto juntos” e fizemos, saímos tocando por aí. E já estamos com outro projeto encaminhado, porque eu quero fazer com um negócio de “60 anos depois”. De Bossa Nova, mas com ele e com Leila. Como eu fiz com ela o disco de 30 anos de Bossa Nova, o Benção Bossa Nova, eu disse: vamos pegar daquele disco umas 10 pessoas e vamos fazer nos três. Piano, guitarra e violão.

O POVO – Pra encerrar, o que significou esse prêmio de excelência musical da Academia do Grammy?
Menescal – Cara… (pensando) É bacana, né? Mas eu acho que não quer dizer muita coisa não. Eu preferi até do que melhor músico, melhor não sei que. Porque acho que é tipo assim “bacana a vida que você fez por aí”. Representou isso aí. É mesmo, acho que fiz umas coisas bacanas. Mas olha, o passado foi muito bom. Mas, bicho, não tenho saudades do passado não. Eu tenho saudades do futuro. Porque é o futuro que vai me abrindo essas possibilidades todas. Tô doido pra fazer o disco do Andy e Leila. Doido pra fazer o show dos Beatles. Então é isso, eu quero o amanhã. Estou muito feliz. E mais feliz ainda de falar assim: “porra, começamos uma coisa 60 anos atrás, brincando, e estou vivendo dela até hoje”. É difícil.

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Em Fortaleza
Roberto Menescal esteve em Fortaleza em julho para uma apresentação no Theatro José de Alencar. Antes de ir ao show, ele recebeu a equipe do O POVO para uma conversa que deveria ser rápida. Não foi.

Roberto Menescal tem uma memória prodigiosa. Ele lembra dos diálogos, locais e personagens. E aborda todos os assuntos com o mesmo semblante tranquilo. O único momento em que ficou mais sério foi quando falou sobre a situação de João Gilberto e da família em torno dos bens do músico.

Menescal se orgulha de emendar vários projetos. Em 2018, ele lançou dois discos: Bossa Nova Meets The Beatles, interpretando canções do quarteto inglês, e Mr. Bossa Nova, dividido com Quarteto do Rio (nova versão d’Os Cariocas). Outros vários projetos estão sendo montados com Leila Pinheiro, Marcos Lessa e outros.