Discografia

Moska mergulha nas inseguranças contemporâneas, sem esquecer o bom da vida, em Beleza e Medo

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Fotos: Flora Negri

Lançado em 1997, um dos sucessos do disco Contrasenso (assim mesmo, só com um “s”) era A Seta e o Alvo. A composição de Paulinho Moska com Nilo Romero explicitava a dualidade entre alguém que fala de “amor a vida” e outro “de medo da morte”. Um grita por liberdade, enquanto o outro deixa a porta se fechar. Quase 20 anos depois, Moska está no centro dessa dualidade. Ao mesmo tempo em que se indigna com os descaminhos do Brasil e urge uma necessidade de protestar, insiste que não se pode esquecer a beleza da vida.

Foi no meio dessa dualidade que nasceu Beleza e Medo, 10º álbum da carreira deste carioca de quase 51 anos (completados no próximo dia 27). O disco, que marca os 25 anos de carreira solo do ex-Garganta Profunda e ex-Inimigos do Rei, começou a nascer há cerca de quatro anos, tendo como mote a canção Que Beleza, a Beleza. “Quando fiz, sabia que era boa candidata pra um disco sobre a beleza. Tanto que, quando compus era um samba, mas foi virando outras coisas”, lembra Moska, por telefone, que, nesses quatro anos, viu muita coisa se transformar à sua volta. Inclusive o próprio disco.

“Há uns dois anos, a pressão nacional ficou bem grande, com radicalidade dos dois lados, o governo, o congresso… Comecei a me sentir com medo e constrangido de não transformar esse medo em força, e isso começou a redefinir o disco”, explica o compositor que chamou Carlos Rennó para uma parceria centrada nessa nova porção do trabalho. Autor de Demarcação Já, Reis do Agronegócio e Manifestação, o letrista paulista era parceiro ideal para aquele momento. “Ele foi dormir lá em casa e pedi pra ele escrever uma letra que não fosse tão grande, mas falasse de direitos a opções, liberdade, ser quem é. Uma semana depois, ele já foi mandando uns pedaços (do que virou Nenhum Direito a Menos). Com a chegada dessa letra e da melodia que eu compus, o disco foi mudando. Essa música me deu a fagulha metafórica que eu precisava”.

Curiosamente, Nenhum Direito a Menos está longe das metáforas. Com bateria marcial e canto recitativo, Moska despeja seus desgostos e suas ânsias por tempos mais corretos. “Nessa nação que mata e trata mal mulher e pobre, preto e jovem, índio e tal. Onde nem lésbica, nem gay, nem bi, nem trans são plenamente cidadão ou cidadãs. Não quero mais cantar meus versos mais amenos, a menos que antes seus direitos sejam plenos”, esbraveja numa letra tão gigante quanto de Que Beleza, a Beleza. “Às vezes a beleza está escondida só esperando alguém descobrir que a maior surpresa dessa vida é que há mais beleza ainda por vir”, aponta a canção esperançosa.

Cantado em tons altos, notas abertas e com vigor, Beleza e Medo teve a produção do mestre Liminha, responsável por um banho pop no repertório. “No disco do Fito (Paez, com quem gravou Loucura Total em 2017), trabalhei com o Liminha pela primeira vez e nos demos super bem. Ele curtiu as canções, fez muitas perguntas, sinalizou que gostou de mim. E ali combinamos de fazer um disco juntos”, comenta Moska que já admirava o trabalho do ex-Mutantes em produções das bandas de rock dos anos 1980 e da fase mais pop do Gilberto Gil. Sabendo que Gil e Liminha já fizeram muitos reggaes de sucesso, Moska também quis o seu. E assim nasceu a soturna Medo do Medo. “Tem medo viciando alguém, tem medo que espalha, fantasma que espera e que sente medo também”, elenca a letra de Zélia Duncan.

Com peso roqueiro e empolgação suingada, Moska mostra um fôlego renovado como cantor e compositor em Beleza e Medo. São 10 candidatas a sucesso popular, cada uma por seus motivos particulares. Tem balada pra novela (Meu nome é Saudade de Você), rock em referência a Noel Rosa (Pela Milésima Vez), canção sobre saudade (Minha Lágrima Salta) e uma bem humorada crítica ao mercado da música (Megahit). Muitas delas lembram períodos diferentes da carreira de Moska, que garante que o novo show está ainda mais roqueiro que o disco. “Beleza e medo é o que define a vida. Desde que a gente nasce tem medo da mãe não voltar, de não namorar, de perder a namorada. Tem medo o tempo inteiro. Mas, ao mesmo tempo, tem beleza nisso tudo. Nós somos a música em que essas duas coisas ficam bailando”, arremata.

Serviço:
Moska – Beleza e Medo
10 faixas
Deck Discos
Preço médio: R$ 29,90