Discografia

Sem Palavras: O céu sonoro de Tomás Improta

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Por Victor Hugo Santiago (músico)

Se o número 7 é tido por diversas culturas como o “número da perfeição”, este por sua vez se faz presente no mais recente trabalho do pianista Tomás Improta. É ele que rege os mistérios que se fazem sobre o universo, tornando-o místico por excelência. Para Hipócrates, por exemplo, o 7 representa “vida e movimento”,  que partindo da perspectiva de Tomás Improta, corresponde e embasa todo o processo sonoro acerca do disco, uma vez que a percepção motora é cognitivamente dinâmica. Já para os egípcios, o 7 é o “símbolo da vida eterna”, o que elucida a capacidade de atemporalidade que a música nos permite vivenciar e sentir. Não tem múltiplos nem divisores, sendo também por isso, puro e essencial.

Para seu mais recente trabalho, tendo como centralidade o piano solo, Tomás nos “brinda” com novas e velhas canções. O disco Olha pro céu, produzido pela gravadora Sonora, é composto por sete faixas que ressoam com às sete maravilhas do mundo, sendo duas autorais: a meditativa Karen B e a mais panorâmica Silvestre: Nascente do Rio Carioca. Em ambas, há um discurso de intensidades dinâmicas em que Tomás executa os vastos recursos oferecidos pelo piano. Um “workshop” de técnicas e ideias dentro de sua obra.

O álbum contou com duas participações para lá de especiais de dois grandes instrumentistas consagrados: o baixista Tony Botelho, responsável por pontuar ritmicamente com os graves de seu contrabaixo acústico a canção Silvestre: Nascente do Rio Carioca, e a do violonista Gabriel Improta, filho do solista (Tomás), em que no único “standard” da seleção, I concentrate on you (1940), do compositor americano Cole Porter, Gabriel trouxe um acompanhamento leve de bossa nova, uma (re)leitura peculiar do que seria o “cool jazz”.

O CD Olha pro céu foi gravado entre outubro de 2015 e abril de 2016, no estúdio da gravadora Biscoito Fino. As releituras começam já na primeira faixa que dá nome ao disco, Olha pro céu (1960), do cancioneiro e compositor carioca Antonio Carlos Jobim, sendo esta uma pérola rara e pouco conhecida. Tomás também revisita o Poema singelo (1938), de Heitor Villa Lobos. Em seguida, permite ao ouvinte um passeio sonoro por outros grandes clássicos, como o Risque (1952), samba canção de Ary Barroso, até a dolente Pra dizer adeus (1966), de Edu Lobo e Torquato Neto.

Com produção do próprio artista, Olha Pro Céu é um disco que veio para a apreciação dos grandes instrumentistas, bem como para os amantes da boa e rebuscada música instrumental, onde o piano protagoniza grandes momentos de desenvoltura permeados pelo virtuosismo, dando sentido à máxima que diz que “menos é mais.” Esse registro fonográfico marca sobretudo, uma espécie de retorno de Tomás ao piano. Diferentemente do disco anterior, A volta de Alice (2015), em que o músico experimentou o toque eletrônico de sintetizadores, Olha pro Céu é um disco calcado devotamente ao piano, sendo ouvido em cinco das sete músicas.

“Esta é uma marca que muito me orgulha, principalmente porque estamos num país onde quase não há espaço para a música instrumental”, conta Tomás Improta sobre o legado que perpassa e possibilita a construção de sua trajetória dentro da música. Destaco por fim, sua menção nos agradecimentos presente no encarte do CD, reconhecendo e creditando o trabalho da crítica especializada.

No mais, fiquem com essa estrutura ímpar e convidativa das 7 canções de acordes formidáveis, que alternam-se com notas muito bem executadas somadas a preciosos compassos em silêncio, que eternizaram a criação desse “agente 007”, que no auge de 7 presentes audíveis, se conectam com os encantos deste algarismo cercado de maravilhas.

Bom deleite a todos! Salve os sons!