Discografia

Documentário da Netflix mergulha na intimidade e genialidade de Quincy Jones

Quincy Jones, Count Basie e Frank Sinatra em estúdio

Depois de mais de duas horas de filme, uma repórter pergunta a Quincy Jones o que ele tentou, mas não conseguiu fazer em 85 anos de vida – completados em 14 de março deste ano. Com um sorriso meio sem vergonha, ele responde: “casar”. A brincadeira do músico abre espaço para duas interpretações. A primeira é que, depois de inúmeros relacionamentos (alguns deles consumando matrimônio), ele chegou solteiro à velhice. Em outras palavras, casar ele casou e teve muitos filhos, mas nenhum casamento durou muito. A segunda interpretação é que, fora um casamento duradouro, ele conseguiu absolutamente tudo que um mortal poderia conseguir no seu ramo. Talvez até mais do que fosse capaz de sonhar quando era uma criança negra pobre no início do século XX.

Mas a verdade é que Quincy Jones chegou lá. Ou melhor, ele foi além e tornou-se uma instituição da indústria musical, alguém que não respeitou limites estéticos ou raciais para vencer na vida. Isso é o que mostra o documentário Quincy, disponível no Netflix desde o mês passado. Dirigido pela filha do maestro, Rashida Jones, e Alan Hiks (diretor de Keep on Keepin’ On, sobre o trompetista Clark Terry), o filme se sustenta sobre duas narrativas. Uma é a própria vida de Quincy e sua luta pra sobreviver como músico numa América pós-depressão. A outra são os bastidores do show de abertura do Museu Nacional Historia e Cultura Afro-Americana, para o qual ele foi convidado, em 2016, a produzir um megaespectáculo para a TV.

A frustração por não estar mais casado tem uma explicação: a verdadeira paixão de Quincy sempre foi o trabalho. E é fácil medir a importância que ele adquiriu pelo volume de estrelas que desfilam pelo filme. Paul McCartney, Lionel Richie, Nelson Mandela, Count Basie, Stevie Wonder, Dizzie Gillespie são alguns rostos que aparecem logo nos primeiros minutos do documentário. Filho de um marceneiro que se virava bem para sustentar os filhos, Quincy Delight Jones Junior vivia à margem de qualquer futuro promissor enquanto lidava com a ausência da mãe internada para tratar a esquizofrenia, quando ele tinha 7 anos. Para melhorar o quadro, Quincy sonhava em ser gangster.

Pra sorte de todos, ao ver um piano pela primeira vez, ele decidiu ser alguém na música e começou a tocar trompete ainda na escola. Aos 14 anos, conheceu Ray Charles e tornaram-se parceiros e amigos. Anos 18, entrou para a orquestra de Lionel Hampton, depois montou a sua própria. Na mesma época, foi convidado para fazer os arranjos do novo disco de Dinah Washington. A aposta da estrela foi mal recebida pela gravadora, mas o álbum For Those In Love (1955) foi um enorme sucesso. Anos depois foi a vez de ninguém menos que Frank Sinatra convidar Mr. Q para escrever seus arranjos.

Dos arranjos que fazia para qualquer um que lhe pagasse US$20 até as grandes estrelas da música mundial, Quincy Jones atuou em um número considerável de projetos. No entanto, nenhum marcou tanto sua vida do que a parceria com Michael Jackson. Eles se conheceram nos bastidores do filme The Wiz – O Mágico Inesquecível (1978). Já afastado dos irmãos, a ex-estrela mirim precisava de um disco que lhe catapultasse para a vida adulta. E assim nasceu Off The Wall (1979), clássico da black music que vendeu números lendários. O sucesso da empreitada garantiu um novo trabalho da dupla, e é aí que ambos entram de vez para a história. Não há uma pessoa no mundo que não tenha sido tocada pelo sucesso de Thriller (1982), o LP mais vendido da história. Se, em Off The Wall, o pop recebe toques de jazz, soul, disco e música erudita para criar um colorido sedutor e coeso, o novo projeto é mais agressivo na proposta de atingir muitos públicos. Do rock de Eddie Van Halen ao suingue de Billie Jean, passando por um clipe-filme de 14 minutos, tudo em Thriller virou ouro. E numa das melhores cenas do documentário, Quincy reencontra os músicos que participaram daquelas sessões com Jackson, incluindo o percussionista carioca Paulinho da Costa.

Músico, produtor, arranjador, pai, marido… A eletricidade da agenda de Quincy Jones acabou, por outro lado, lhe cobrando um preço alto. Duas cirurgias no cérebro, diabetes, problemas com álcool, pouco sono, stress, um coágulo assassino no sangue… A conta de uma vida levada sem freio é bem detalhada no filme que exibe imagens íntimas de um gigante convalescendo de inúmeras quase mortes. Ele mesmo diz que uma vez recebeu um email do céu com o seguinte conteúdo: “Brother Jones, nós já temos Ray Charles, Frank Sinatra, Charlie Parker, Miles Davies, Dizzy Gillespie. Não precisamos de mais dor de cabeça aqui. Fique em casa. Deixe sua bunda negra em casa”.

Assim, o filme se passa depois de Quincy Jones ter mudado alguns hábitos. Parou de beber, pratica exercícios físicos e adaptou a agenda a uma nova rotina. Isso não significa parar os compromissos. Pelo contrário. Seus olhos ainda faíscam diante de um desafio, que é onde entra o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana. Indo conhecer o espaço ainda fechado, ele se emociona ao ver fotos de tantos amigos que já partiram. Como quem quer prestar um último tributo a todos eles, a inauguração foi mais um sucesso, reunindo estrelas de TV, cinema e da música norte-americana. Em seguida, ele vai para casa e as imagens transparecem uma melancolia, como se, depois de mais uma noite de glória, lhe faltasse alguma coisa. Talvez uma esposa, a única coisa que a música lhe tomou.

Quincy Jones foi o produtor do filme A Cor Púrpura, que lhe rendeu ainda uma ótima trilha sonora

Quincy Jones Em números:
> 2900 músicas gravadas
> 300 discos
> 51 filmes
> 79 nomeações ao Grammy
> 21 prêmios Grammy
> 8 Grammy por Thriller
> 1º maestro negro a tocar numa cerimônia do Oscar
>1º executivo negro de uma gravadora
> 1 das 18 pessoas vencedoras do Emmy, Grammy, Oscar e Tonny
> We are the world arrecadou US$ 75 milhões para a aluta contra a pobreza na África. É o single mais vendido da história