Discografia

Carlos Rennó revisa 40 anos de música em projeto multimídia

Em 1978, o disco Tetê e o Lírio Selvagem apresentou dois nomes que dariam muito o que falar nos anos seguintes. Um deles é Tetê Espíndola, cujos agudos seguem desafiando frequentadores de karaokê pelo Brasil. O outro é Carlos Rennó, responsável por três letras do álbum. Talvez pelo interesse em comum por questões ecológicas, a parceria deu outros frutos, sendo o mais famoso a canção Escrito nas Estrelas, que a cantora sul-matogrossense defendeu no Festival dos Festivais, da Rede Globo, em 1985.

“É um tipo de canção que me agrada fazer, mais popular, quase brega. Lamento não fazer mais por que meus parceiros não me dão melodias desse tipo”, comenta Carlos Rennó, sobre a composição que levou o primeiro prêmio naquele megaevento – no valor de 200 milhões de cruzeiros. Quarenta anos

Carlos Rennó e Chico César (Duda Portela/ Divulgação)

depois, o letrista nascido em São José dos Campos passa a limpo sua produção em livro e disco. Lançado pela editora Perspectiva, o livro Canções reúne letras feitas para os mais diversos parceiros, de Rita Lee a Lenine, além de ensaios escritos pelo compositor José Miguel Wisnik e pelo doutor em Letras Marcelo Tápia.

Já o disco Poesia traz alguns desses parceiros em versões intimistas para canções inéditas e alguns sucessos. Entre os convidados que passeiam pelas 16 faixas lançadas em edição luxuosa do Selo Sesc, estão Gerônimo, João Bosco e Pedro Luís. “A ideia inicial combinava um disco e um livro de letras (num produto só). Dessa forma, eu apresentaria um repertório com letras minhas mais literárias, mas influenciadas por poesia de livro”, explica Rennó, que acabou desmembrando o projeto que inclui ainda canções exclusivas para serem acessadas por QR Codes espalhados pelo livro.

Da política, ao amor, passando pelo homem e suas potencialidades, Carlos Rennó já escreveu um pouco de tudo e acumula uma lista invejável de intérpretes. De Chico Buarque e Tom Zé a Céu e B Negão. Ainda assim, ele não se incomoda de ser anônimo para o grande público que canta letras suas como Ecos do Ão e Vamos Amar. “Me incomoda é não receber o que deveria como autor. Recebemos mal e erradamente, e nem sequer somos creditados em grande parte das vezes. Me incomoda o meu parceiro ser creditado e eu não. As grandes corporações não querem pagar os letristas”, protesta com um tom calmo e paciente.

Ele conta que o desejo de ser poeta veio cedo. “Eu gostava muito de canção popular, desde pequeno. Na adolescência estava com aspirações para ser poeta. Quando conheci Tetê, decidi combinar as duas coisas e fazer poesia cantada”, explica demarcando o terreno das letras de música – já que ele prefere ser chamado de letrista do que poeta. E Tetê Espíndola, claro, é uma das convidadas do disco, cantando ao lado de Arrigo Barnabé em Outros Sons. Outros dois parceiros que retornam em Poesia são Gilberto Gil e Lenine. O primeiro refaz a existencialista Átimo de Pó, lançada no álbum Quanta (1995). E o segundo toca violão na quilométrica Todas Elas Juntas num Só Ser para um coro de vozes formado por Ellen Oléria, Leo Cavalcanti, Simoninha e outros.

Criolo e Carlos Rennó (Duda Portela/ Divulgação)

Entre os novos parceiros, Rennó cita Arnaldo Antunes, Luiz Tatit e Felipe Cordeiro. Com o primeiro nasceu Nus, um entrelaçamento de verbos – com grafias semelhantes – que narra da troca de olhar até uma transa cheia de poesia. Para o segundo, o letrista costura uma homenagem aos grandes nomes da música popular mais brasileira, de Cartola a Catulo da Paixão Cearense. E com Felipe Cordeiro, Rennó exalta seu lado mais politizado, com Hidrelétrica Nunca Mais. “Minhas primeiras canções eram ecológicas. Ou seja, já eram canções políticas”, lembra ele que voltou a abordar o assunto nos anos 1990, a partir da preocupação com o efeito estufa. “Então eu parti para outros temas sociais e políticos já que todos eles vinculam de alguma forma. A questão ecológica implica na questão social. Não é possível melhorar de vida as classes pobres sem que a desigualdade diminua drasticamente. Se isso não acontece, quem paga é o meio ambiente”, explica ele que também é autor de Demarcação já e Reis do Agronegócio, ambas com Chico César, e Nenhum Direito a Menos, com Moska.

Emendando muitos trabalhos, Carlos Rennó chegou aos 62 anos como um dos letristas mais requisitados dos melodistas da MPB. Versátil e criativo, sua presença é garantia de mensagens diretas em palavras certeiras. Mesmo que isso lhe tenha um custo. Perguntado sobre quando ele percebe que a letra ficou boa e pronta pra chegar ao parceiro, responde: “Quando eu acho que talvez me canse. Tudo é escrito e reescrito. Tudo é trabalho e trabalhoso. Embora eu sempre me satisfaça parcialmente”.

Serviço:
Poesia – Canções de Carlos Rennó
Participações de Chico César, Moska, Moreno Veloso e outros
16 faixas (CD)
Selo Sesc
Preço médio: R$ 20

Livro Canções
De Carlos Rennó
352 pág.
Ed. Perspectiva
Preço médio: R$ 69,90