Discografia

Ricardo Bezerra desnuda Maraponga e lembra histórias do álbum que completa 40 anos em 2018

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Nesta quinta-feira, 6, o Cineteatro São Luiz vai receber, em única apresentação, uma homenagem ao disco Maraponga. Joia mais rara do cancioneiro cearense, o disco nasceu por esforço de Fagner, quando este já gozava de um certo prestígio entre as gravadoras grandes do Brasil. A proposta era mostrar as composições de Ricardo Bezerra, então jovem arquiteto cearense que também fazia parte daquela turma boêmia que frequentava o centro acadêmico da Universidade Federal do Ceará, o Bar do Anísio, a TV Ceará e todos aqueles ambientes frequentados pela turma que, depois, veio a ser tratada como Pessoal do Ceará.

Nas palavras do próprio compositor, ele era um “lado b” da turma, mas foi responsável por pelo menos um clássico onipresente da turma, Cavalo Ferro. Seja A ou B, Ricardo Bezerra foi responsável por um álbum raríssimo e de uma qualidade sonora impactante. Segundo ele, o responsável pela qualidade da obra foi Raimundo Fagner, que o convidou para o projeto e ainda trouxe Hermeto Pascoal para escrever os arranjos. O resultado é uma seleção de peças inclassificáveis que misturam influências dos cantos mais distantes da música. Ali no álbum eles parecem mais próximos.

Próximo de completar seus 70 anos, Ricardo Bezerra me recebeu em sua “Gaudincha”, como chama seu lugar de criação e reflexão na Cidade 2000. “Gaudincha”, a propósito, é uma mistura de Antoni Gaudí com Garrincha, parta deixar claras as influências que se misturam naquele espaço repleto de quadros, livros, lembranças, cheiro de café e afetos. Por mais de uma hora, ele contou as histórias que o levaram e o tiraram da carreira artística. Acompanhando essa conversa, a cantora Mona Gadelha não escondeu sua admiração pelo compositor e seu disco, Maraponga. “Um disco que, 40 anos depois, a gente escuta com o mesmo frescor, a mesma emoção, a mesma alegria. Eu tenho ouvido muito o disco e é incrível por que, cada vez que você escuta, você descobre nuances. É sensacional”, avalia ela.

E, sem querer esconder nada, Ricardo foi dissecando o disco de 1978 faixa a faixa. “Maraponga é uma música que eu fiz no violão e que eu tocava de uma maneira muito simplória e que o Hermeto fez aquela beleza, criou aquelas cordas, harmonias”, lembra ele sobre cinematográfica faixa de abertura com suas cascatas de cordas, piano ao alto e clima de mata fechada ao amanhecer. As imagens provocadas pela composição não são por acaso, já que todo o álbum é dedicado ao sítio em que ele morava com a esposa, Bete Dias, nos idos dos anos 1970. Por lá passaram alguns dos mais importantes nomes da música cearense e brasileira, como Patrúcio Maia, Gonzaguinha, Zé Ramalho e Rita Lee. “Era uma casa que, pela presença do Fagner, toda essa turma ia lá. Teve um réveillon celebérrimo em que estavam Zé Ramalho, Belchior… Quem frequentava muito era o Hélio Rola, munido de tintas, e pintava e desenhava, e a Ângela Linhares, que foi minha parceira durante uma época”.

A segunda música do disco é Cobra, faixa de estreia dos compositores Alano Freitas e Estélio Valle. “É a única que não é minha. Eu tive esse insight, que é uma coisa que o Fagner também tem, que é pegar uma música dizer ‘essa música tem futuro. É bonita e vamos trabalhar em cima dela’. Eu tenho a honra de ter gravado a primeira música do Estélio e do Alano. É uma música emblemática”, comenta Ricardo, antes de passar para a próxima, La Condessa, que ganhou lindos vocais de Amelinha. “Foi uma música que surgiu de um colega nosso, estudante de medicina, amigo de Belchior, Ribamar Vaz. Ele ia muito lá em casa, onde tinha um piano. Ele tinha um teminha, que é o refrão de La Condessa. Eu desenvolvi outra parte e colocamos sobre uma letra do Brandão. A letra do Brandão é de uma elegância. Mas houve uma falha no disco que não saiu o nome do Ribamar Vaz. Isso foi um vexame muito grande”, lamenta.

Em seguida vem Celebração: “Eu tinha uma outra música, essa feita ao piano, que era Celebração. O próprio nome já diz, parece música para uma cerimônia, um casamento. Uma música meio romântica demais. Ele (Hermeto) também fez um arranjo muito bonito”. E para fechar o lado A de Maraponga, entrou Sete Cidades, que, assim como a anterior, é instrumental. “Era uma música muito simples minha, instrumental. A melodia era muito simples, inclusive repetitiva. Aí o Fagner botou o Sivuca pra fazer um solo. O Sivuca simplesmente arrasou, fez de primeira. Como a música era muito modular, ele criou um solo que deu um corpo. Depois eu percebi que eu não fiz uma música, fiz a base e o Sivuca botou o solo. Tanto que, quando foram transcrever para editar, os caras transcreveram a melodia do Sivuca”, ri sem problemas com o assunto.

O lado B de Maraponga começa com outro tema instrumental, Gitana. “Como eu já tinha o piano mais treinadinho nessa, o Hermeto deixou eu tocar. Em Sete Cidades eu também fiz”, lembra Ricardo que vem de uma família de apreciadores de música (é primo de Maurício Maestro, do Boca Livre) chegou a estudar com Orlando Leite e a mãe aspirava que ele fosse um “novo Jacques Klein”. A faixa seguinte é uma das mais marcantes do cancioneiro cearense e ganhou versões diferentes no álbum de estreia de Fagner e em Meu Corpo Minha Embalagem Todo gasto na Viagem. Cavalo Ferro nasceu de uma conversa no Anísio quando Fagner, voltando de Brasília, contou de sua viagem de ônibus. “Ele chegou e a gente foi no Anísio de noite. Lá era uma zorra, uma misturada enorme, com todo mundo falando, bebendo e tocando ao mesmo tempo. Eu ouvi aquela história, o garçom passou, eu pediu um papel e a letra saiu na hora. No dia seguinte, 8 horas da manhã, o Fagner liga dizendo ‘fiz a música’. Ele deve ter passado a noite fazendo e o ajuste, no final, foi mínimo”, lembra. Sobre a gravação, Ricardo conta: “foi hilária essa gravação. Pra gente era uma surpresa o que o Hermeto iria fazer. O Fagner tocou pra ele bem ligeirinho a melodia e o Hermeto saiu pra trás do biombo onde ficava o piano. A gente ouviu uma zoada que era o trote do cavalo e a gente esperando, até que ele deu uma deixa e a gente entrou cantando. Foi tudo de uma vez. Do jeito que foi feito, ficou. Na calor da emoção”.

Em seguida vem outra canção emblemática, Manera fru-fru Manera, cujo título já gerou inúmeras histórias. Ricardo conta a dele. Quem é Fru Fru? “Eu já disse algumas vezes e me arrependi, por que tira o encanto da minha inspiração. Na hora que eu conto a história, eu fixo na minha versão. Acho mais interessante que cada um faça sua interpretação. Mas expressão eu tirei de um filme de chanchada, com o Grande Otelo e uma copeira, que era uma morenona linda. Ele baixinho e fazia uma graça com ela e ela dava um desaforo. Ele se virava e dizia ‘manera Fru Fru, manera’. A letra não tem nada a ver com filme, foi só a deixa para o verso”. E gerou uma música que só poderia ganhar a voz de Fagner e chegou a batizar seu disco de estreia. “É uma música facílima, é Mi Maior direto. Aqui e acolá, ela vai prum Sol, um Ré, e volta por Mi. O Hermeto perguntava: ‘essa música não muda de tom não?’ E ele faz um malabarismo enormes (no arranjo) pra tirar a monotonia da música. Ele inventa as cordas pra cima e pra baixo. Ouvindo, parece uma onda, como se você estivesse no mar. O Fagner é quem interpreta e eu estou lado só pra dar um apoio”.

Ricardo Bezerra ouve seu disco na Gaudincha

Mais sobre Manera fru-Fru Manera: “Não é uma música prática, executável, é quase um teatro. Tanto que eu tive vontade de transformá-la numa opereta. Ela fala de uma mulher que vem do interior e que se prostitui por falta de opção, e vive aquela vida de pecado. Mas, quando chega na sua idade mais adulta, se arrepende de todo o pecado madaleniano, se espiritualiza e se transforma na Centauro Fru Fru. Tem quem acha que é uma drag queen”. E Maraponga encerra com um tema introspectivo, nascido ali na hora, que só poderia ganhar o nome de Improviso. “Essa entrou por que não tinha mais nenhuma. Tava muito curto o disco, não tinha preparado mais nada. Chamou o Robertinho, que começou a fazer um ponteio e eu comecei a fazer um improviso”, lembra Ricardo.